Vendas on-line explodem e geram gargalo na entrega

Supermercados registram aumento de até 45% na procura, e algumas redes suspendem serviço pela internet para evitar problemas.

SUZANA CORREA*E
HENRIQUE GOMES BATISTA
economia@oglobo.com.br
SÃO PAULO

O confinamento obrigatório para evitar a propagação do novo coronavírus gerou um aumento de procura nos supermercados que su­perou 45% nos últimos dias, gerando novos desafios e um “apagão” nos serviços de entrega. Se até o momento não há casos generalizados de de­sabastecimento de produtos, a tentativa de fazer as com­pras sem sair de casa tem gerado problemas, como lon­gas esperas pelos produtos. Dados da Associação Paulista de Supermercados (Apas) apontam que, desde quinta-feira da semana passada, as vendas dos supermercados do estado de São Paulo estão 40% acima do verificado nos mesmos dias de fevereiro. Além da tentativa de se fazer estoque de ali­mentos e produtos de higiene, a entidade afirma que a redução drástica de refeições fora de casa contribuiu para esse avanço nas redes.

E o aumento é ainda maior nas compras feitas pela internet, com entrega domiciliar, o delivery. Segundo levantamento feito pela empresa de pesquisa de mercado Nielsen, somente no dia 18 de março (último dado disponível), 32% dos consumidores que compraram em supermercados de maneira on-line estavam fazendo sua primeira compra pelo canal virtual.
Fernanda Vilhena, gerente de atendimento do varejo da Nielsen, afirma que a procura por compras on-line em supermercados está em alta e deve continuar a subir.

NOVOS HÁBITOS
Em sua opinião, estes novos hábitos tendem a ter impactos no comércio inclusive após a crise do Covid-19: em geral, todo consumidor que faz compra de supermercado de forma on-line acaba repetindo a experiência.

A Apas, associação de supermercados e produtores de alimentos, tem realizado reuniões diárias para manter o fornecimento às lojas. A ampliação de centros de distribuição próximos às grandes cidades do país também minimizam o risco de desabastecimento, bem como a maneira como os produtos chegam às lojas no país: de caminhão, atividade solitária por natureza, considerada de baixo risco na atual pandemia. O problema é maior na entrega final ao cliente. A operação entre for­necedor e varejo ainda segue sem maiores dificuldades:
– As indústrias de alimen­tos, higiene e limpeza seguem produzindo com capacidade total e têm condições para entrega nos distribuidores /varejo até as lojas . Já as entregas ao consumidor sofrem com o aumento da demanda – disse Mauricio Li­ma, diretor do ILOS, Instituto Especializado em Logística.

Isso ocorre nos supermercados. A rede St. Marche, de São Paulo, por exemplo, informou, em nota, que as”janelas de entrega em algumas regiões de São Paulo estão es­gotadas no momento”. A GPA, que reúne Pão de Açúcar e Extra, entre outros, informou, também em nota, que “as entregas estão sendo realizadas de acordo com a disponibilidade de datas informadas no momento da compra”, que pode ser maior que a registrada até antes da epidemia, e que tem contra­tado novos entregadores temporários para fazer frente à demanda.

No comércio local, a situação é mais complicada. Proprietário do Dona Midori, restaurante self-service que atende cerca de 260 clientes ao dia na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo,Ricardo Odo vai fechar as portas indefinidamente a partir de hoje.
– Não fazemos delivery porque somos self-service e não vamos conseguir nos pla­nejar agora, de repente, para isso.

Optamos por preservarmos funcionários que teriam que continuar vindo de transporte público – conta Odo, que já dispensou um cozinheiro.

*Estagiária, sob a supervisão de Flávio Freire