O Globo - Marcos Alves

Tarifa menor pode congestionar ainda mais

Analistas defendem mais recursos em transporte de massa

Ao assumir a administração da Ponte Rio-Niterói, em junho, a EcoRodovias terá pela frente o desafio de resolver gargalos que causam congestionamento, tarefa que não será fácil. A redução de quase 30% no pedágio — que garantiu à companhia a vitória no leilão de ontem e beneficia usuários — pode ter o efeito de aumentar o fluxo de carros em via já saturada. Com isso, a empresa teria que fazer mais investimentos, com receita menor que sua antecessora.

Para Cláudio Frischtak, sócio da Inter. B Consultoria, o resultado foi “um desastre”. O economista critica não só o novo pedágio proposto pela EcoRodovias, mas principalmente o modelo de modicidade tarifária — onde vence quem oferecer o menor valor.

— O que isso vai fazer é estimular as pessoas a usarem mais carro, como esse governo fez com a eletricidade. E estamos vendo o resultado. É o mesmo caso de populismo tarifário. Você aumenta o grau de congestão na ponte, que já é hipercongestionado. É um erro de política de mobilidade de primeira grandeza — avalia.

Paulo Fleury, presidente do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) também é contra o formato de leilão. Para ele, é antieconômico baixar o preço de um serviço onde já há excesso de demanda:

— Se antes o congestionamento demorava uma hora, agora vai demorar duas. É bonito dizer que o preço da tarifa caiu, mas na prática você está incentivando este tipo de transporte em via já lotada.

Não há consenso, no entanto, sobre os efeitos da redução da tarifa. Alexandre Rojas, professor da Uerj e especialista em transportes, não acredita que o pedágio mais barato causará impacto sobre o trânsito:

— Como a ponte já está saturada, as pessoas vão descobrir com alguma facilidade que essa redução não vai melhorar a fluxo. Esse efeito ocorre quando há algum espaço (para aumentar o volume de carros).

Uma alternativa ao modelo de modicidade tarifária seria um leilão com previsão de pagamento de outorga, no qual ganha quem oferece o maior pagamento. Nesse caso, não haveria redução de tarifas, e o dinheiro poderia ser usado para investimentos em transporte de massa. Para André Castro Carvalho, sócio do Queiroz Cavalcanti Advocacia e especialista em infraestrutura, o dinheiro extra poderia ser útil, em ano de ajuste fiscal:

— Essa escolha é curiosa pelo fato de o governo federal estar precisando fazer caixa. Foi uma opção de diminuir o preço e não ter essa arrecadação. Esse valor de outorga poderia ser usado em outras obras de infraestrutura. Foi uma opção, mas é discutível o que é melhor.

Fonte: O Globo

Por Marcello Corrêa e Henrique Gomes Batista