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De empresa automobilística para empresa de mobilidade: a Toyota entra na corrida pelo lançamento de veículos autônomos com o e-Palette

No começo do mês de janeiro, o presidente da Toyota, Akio Toyoda, anunciou na CES 2018 – Consumer Electronics Show, maior feira mundial do setor, o conceito do e-Palette: um veículo elétrico e autônomo que pode ser utilizado para o transporte de passageiros, realização de entregas ou até mesmo como ponto de venda móvel, como uma espécie de “loja sobre rodas”. A empresa sugeriu ainda que o veículo poderia ser configurado para funcionar como um hotel móvel, ou como uma estação de trabalho (para que o tempo gasto pelas pessoas no trânsito possa ser aproveitado de forma produtiva), ou ainda como uma clínica médica móvel.

Vídeo 1 – Divulgação do e-Palette no CES 2018

 

No evento, a empresa anunciou também a “e-Palette Alliance”, parceria com a gigante Amazon, com as empresas de ehailing Uber e Didi Chuxing (empresa chinesa agora dona da 99 no Brasil), com a Mazda e Pizza Hut para colaboração no desenvolvimento do veículo. Durante a apresentação, foram enfatizados os termos “mobility service” e “mobility commerce”. Daí, não restam dúvidas sobre o porquê do envolvimento da Uber e da Amazon.

Figura 1 – Conceito de e-Palette Toyota para a Pizza Hut

 

Para a Pizza Hut, o objetivo é não ficar para trás em relação a concorrência. Em 2017, a empresa introduziu nos Estados Unidos novas opções de delivery, incluindo a possibilidade de realizar pedidos através de dispositivos como a Alexa, e fornecendo a possibilidade de receber atualizações em tempo real do status do pedido através do aplicativo, site ou mensagens de texto. Das três maiores cadeias de fast-food de pizza norte-americanas, a Pizza Hut é hoje a que está mais para trás no quesito delivery. A empresa vislumbra que os e-Palettes façam parte da estratégia de delivery no futuro, podendo ser adaptados inclusive em cozinhas móveis.

Figura 2 – Delivery de pizza por veículo autônomo em episódio de Black Mirror

 

Se você como eu acompanha a série Black Mirror, com certeza pensou em uma cena específica da nova temporada ao bater o olho no e-Palette com a logomarca do Pizza Hut. A série de ficção científica/thriller de Charlie Brooker explora em cada episódio as consequências de possíveis novas tecnologias em um futuro alternativo, muitas vezes um futuro que nos parece bem distante. Porém, apesar do e-Palette ainda não passar de um conceito, a intenção é que já em 2020 os veículos sejam testados nas Olimpíadas e Paraolimpíadas de Tóquio.

O anúncio feito pela Toyota reflete a intenção de evolução de uma empresa que fabrica carros para uma empresa que fornece soluções de mobilidade, de forma a transformar a disrupção trazida por novas tecnologias em ganhos ao invés de ser derrubada por elas. Porém, a Toyota dificilmente será a única. Nos últimos dois anos, a maioria das montadoras têm começado a adaptar seus modelos de negócio para se tornarem fornecedoras de serviços de mobilidade em um futuro próximo, e esse movimento é visto claramente pela associação dos fabricantes com empresas de tecnologia e start-ups, como mapeado por Magda Collado.

Com veículos autônomos, o quanto seria possível reduzir os custos de transporte? Será que reduções no custo da entrega poderiam levar a redes logísticas menos descentralizadas? Ou pressões por nível de serviço impediriam essa centralização? Veículos como os e-Palettes da Toyota criariam um novo canal de venda? Como esse novo canal impactaria a estratégia de distribuição das empresas?

Apesar de ainda faltarem alguns anos e muitas barreiras a serem superadas até que veículos autônomos façam parte do nosso cotidiano, é impossível não parar para refletir sobre os possíveis impactos no supply chain.

 

Referências:

Automotive Logistics – How autonomous vehicles will impact on the supply chain. https://automotivelogistics.media/opinion/autonomous-vehicles-will-impact-supply-chain

Bloomberg – Toyota Signs Amazon, Pizza Hut as Driverless-Delivery Partners. https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-01-08/toyota-taps-amazon-to-join-driverless-delivery-vehicle-alliance

Business Insider – Toyota and Pizza Hut are teaming up to make self-driving cars that could deliver pizza. http://www.businessinsider.com/toyota-pizza-hut-team-up-for-self-driving-pizza-delivery-2018-1

Fortune – Toyota Working With Amazon, Uber, and Pizza Hut to Develop Self-Driving Shuttle. http://fortune.com/2018/01/08/toyota-amazon-uber-pizza-hut-self-driving-shuttle/

Magda Collado – Alliances Between Automakers, Tech Companies and Mobility Start-ups, An Update. https://mcollado.kumu.io/the-race-towards-smart-mobilityv

 

Mineradoras usam veículos autônomos por mais produtividade

No início de setembro, a Volvo apresentou para o mundo o seu primeiro caminhão autônomo. A demonstração foi realizada em uma mina na Suécia, com um veículo sem motorista carregando 25 toneladas de pedras, entre paredes rochosas, a 800 metros de profundidade. Os testes da montadora sueca já acontecem há 3 meses, e a expectativa é de que os primeiros caminhões autônomos suecos comecem a pegar no pesado em 2017.

Figura 1 – Teste da Volvo na Suécia

Fonte: Volvo

Os testes da Volvo vêm ao encontro das necessidades do setor de mineração, que sofre há tempos com a redução na demanda mundial e, consequentemente, com a queda nos preços dos produtos. Além disso, as empresas do setor tradicionalmente trabalham com margens apertadas e custos logísticos altos, que chegam a representar no Brasil 16% da receita líquida das mineradoras (com forte participação da atividade de transportes, responsável por quase 70% dos custos logísticos).

Se, na Suécia, os testes ainda estão acontecendo, na Austrália, duas minas da Rio Tinto, uma das maiores mineradoras do mundo, já movimentam 100% da produção de minério de ferro com caminhões autônomos produzidos pelos japoneses da Komatsu. As frotas autônomas dessas duas minas são controladas por um centro de operações da mineradora localizado em Perth, a 1.200 km de distância, e que controla 69 caminhões autônomos.

Figura 2 – Caminhões em ação em mina da Rio Tinto

Fonte: Rio Tinto

Rivais da Rio Tinto, a BHP Billiton e a Fortescue também estão de olho na tecnologia autônoma para as suas minas na Austrália. A mais adiantada das duas é a BHP Billiton, que já fez testes no Novo México, nos Estados Unidos, e, desde 2013, opera a tecnologia em caráter experimental em uma mina na Austrália.

Logicamente, as mineradoras vêm na nova tecnologia a oportunidade de melhorar a produtividade e, consequentemente, incrementar as receitas. De fato, uma das principais vantagens dos caminhões autônomos é poderem trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem interrupções para almoço ou descanso. Além disso, um trabalhador pode gerenciar aproximadamente 50 veículos autônomos, o que permite um ganho de 500 horas de trabalho segundo a Caterpillar. Outra vantagem dos veículos autônomos nas minas está na redução dos riscos à saúde e segurança do trabalhador, que costuma sofrer com o ambiente mais agressivo e perigoso das minas.

Referências:

<http://www.businessreviewaustralia.com/technology/1843/How-autonomous-vehicles-are-helping-Rio-Tinto-and-BHP-Billiton-get-ahead>

<http://www.komatsu.com/CompanyInfo/press/2008122516111923820.html>

<http://www.mining.com/the-mine-of-the-future-might-be-a-thing-of-the-past/>

<http://www.caterpillar.com/en/company/innovation/customer-solutions/autonomous-operations.html>

<http://news.volvogroup.com/2016/05/09/the-future-of-automation-is-happening-now-at-volvo/>

<https://www.theguardian.com/technology/2016/may/26/volvo-driverless-mining-trucks-descent-machines>

<http://www.valor.com.br/empresas/4700425/vida-na-mina-sem-ninguem-ao-volante>

<http://www.abc.net.au/news/2015-10-18/rio-tinto-opens-worlds-first-automated-mine/6863814>

<http://www.mining.com/two-aussie-mines-start-moving-all-their-iron-ore-with-driverless-trucks/>