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A economia da vacina – da distribuição à aplicação

Farmácias também colocam à disposição do governo 4.573 salas de imunização no país. Ideia é ter hora marcada para evitar aglomeração

RIO — A logística de distribuição da vacina no país mobiliza uma série de setores até chegar aos municípios. A despeito da já estruturada rede usada pelo Plano Nacional de Imunização (PNI), especialistas alertam que incertezas no planejamento dos volumes de remessas podem encarecer o processo ou resultar em perdas de doses. Em paralelo, o setor privado, de companhias aéreas a shoppings e farmácias, oferece apoio para acelerar a vacinação e ajudar a dar fôlego aos negócios limitados pela pandemia.

Para Maurício Lima, sócio-diretor do Ilos, não há gargalo na distribuição, mas pode haver no planejamento:

— É uma expansão de uma rede que já existe e deve ser bem aproveitada. Por isso, é difícil precificar. Pode ter um custo em torno de R$ 1 bilhão. Se tiver que liberar pequenos lotes diários para todos os estados e municípios, por razões políticas, pode haver problema. O pinga-pinga encarece o custo e pode resultar em desperdício de doses — destaca ele. — O foco é planejar para evitar atraso, ter agilidade, evitar perdas.

Juliana Inhaz, coordenadora da graduação em Economia do Insper, concorda que esse “pinga-pinga” de doses seria um problema:

— A estrutura do PNI tem de ser mantida, e seus protocolos precisam ser observados em toda a rede de distribuição, incluindo estados e municípios. A distribuição é feita de forma escalonada para cumprir o calendário. Para ter agilidade para chegar com muita frequência aos municípios, será preciso mobilizar vários segmentos para driblar gargalos.

Rede de ajuda

A operação anunciada pelo governo prevê que as vacinas sejam concentradas em uma base em Guarulhos. De lá, seguem de avião e veículos climatizados para as 27 unidades da federação, sempre com armazenagem a frio. Em cada estado, é feita a distribuição para os municípios por via terrestre, aérea ou marítima.

O setor privado, empenhado em sanar a crise de saúde e acelerar a retomada da economia, oferece apoio crescente à operação. Azul, Latam, Gol e Voepass, com apoio da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), já integram a estrutura para distribuir lotes de vacinas para as capitais e dentro dos estados.

As companhias realizam o transporte dos imunobiológicos de forma gratuita, aproveitando suas operações e pessoal.

As ações são feitas de forma coordenada com a VTCLog, que é a empresa de logística contratada pelo Ministério da Saúde

Outros setores se propõem a funcionar como rede para a vacinação da população em todo o país. A Abrasce, que reúne 577 shoppings no país, vem negociando diretamente com governos estaduais e municipais, oferecendo áreas como estacionamentos ou outras dependências dos empreendimentos.

A entidade já assinou um acordo de cooperação com o governo fluminense. Falta agora detalhar como será feita a operação.

A Associação de Supermercados do Estado do Rio também assinou o termo com o Palácio Guanabara, disponibilizando 180 estacionamentos nesses estabelecimentos, sendo 110 na capital. Fábio Queiroz, presidente da Asserj, diz que a meta é agilizar a vacinação, colaborando para desafogar os postos de saúde.

A Abrafarma, que reúne as redes de farmácias e drogarias, também entregou proposta ao governo federal para que 4.573 salas de vacinação instaladas em unidades pelo país sejam usadas. A entidade calcula potencial de aplicar 2,19 milhões de doses por semana, com a ajuda de 6.860 farmacêuticos e imunização com horário marcado, para evitar aglomeração.

Falta a vacina

Para especialistas, a rede do PNI já é eficiente. E só não há campanha contra a Covid-19 em curso porque falta o principal: a vacina.

Paulo Almeida, especialista em Políticas Públicas da USP, acrescenta que a distribuição das doses ocorre sempre em locais credenciados pelo Sistema Único de Saúde, em coordenação com prefeituras e estados:

— O privado tende a ser mais ágil nessa ajuda de vacinação, servindo como posto de atendimento, mas o setor público sempre lidera essa coordenação.

Silvana Fernandes, economista especializada em saúde pública da Universidade Federal da Bahia, ressalta que há um excesso de ajuda do setor privado com a vacinação. Ela cita o interesse de laboratórios privados querendo iniciar vacinação por meio da parceria com o laboratório indiano Bharat Biotech, cuja vacina ainda precisa ser aprovada pelos órgãos reguladores da Índia, e das redes de farmácias.

— Tudo tem que ser visto com cautela, pois poderá deixar disponível a vacina a quem tem recursos para pagar. O próprio setor público precisa ser o responsável por organizar em sua cidade a vacinação. Esse desespero das empresas reflete a centralização desordenada do governo federal, que atrasou até a compra das seringas — afirma.

Ela frisa que, tendo vacina, ela chegará à população:

— Não teremos o problema que há nos EUA de distribuição com parque da Disney servindo de ponto de vacinação.

Fonte: O Globo
Por: Bruno Rosa e Glauce Cavalcanti

Prioridade mundial, vacina precisará ultrapassar também obstáculo da logística

 Doses da vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac chegam a SP para testes de eficácia; para especialistas, tradição brasileira em distribuição de imunizantes ajudará a evitar gargalos. Foto: Divulgação/Governo do Estado de SP/20-7-2020

SÃO PAULO — Não bastassem os desafios científicos (da descoberta) e os industriais (de produção), a vacinação em massa contra a Covid-19 terá de superar mais um obstáculo: a distribuição.
Governos e empresas pelo mundo começam a pensar em estratégias para evitar um gargalo logístico, enquanto entidades brasileiras já se mobilizam para conseguir levar o imunizante a todos os cantos do território nacional. O governo federal, por sua vez, diz acreditar que a discussão ainda é “prematura”.
— A questão dos insumos é preocupante, mas, como utilizaremos os formatos que normalmente usamos para as nossas vacinas, acreditamos que o risco seja menor neste momento. De qualquer forma, estamos trabalhando junto aos fornecedores de insumos para evitar rupturas no abastecimento — afirma Mauricio Zuma, diretor de Bio-Manguinhos/Fiocruz.

O Ministério da Saúde informou, por meio de sua assessoria, que o Brasil tem tradição em distribuir 19 tipos de vacinas diferentes pelo SUS, e que esse conhecimento será utilizado no caso do imunizante que deverá existir contra a Covid-19.
A pasta disse, porém, que ainda é prematuro, sem conhecer detalhes das vacinas, debater a logística ou os critérios de imunização.
O país tem, hoje, 2.484.649 casos confirmados e 88.634 mortos por Covid-19, segundo levantamento do consórcio de imprensa formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo.

Nancy Bellei, infectologista, virologista e pesquisadora da Unifesp, afirma que o país vai se beneficiar de ter um dos melhores programas de vacinação em massa no mundo. Ela diz que, apenas no caso da gripe, são distribuídas pelo país 60 milhões de doses por ano.
— Planejar um programa de vacinação, distribuir vacina injetável, intramuscular, a gente já faz. É claro que temos dificuldade. Imagino que os países irão vacinar ao longo do tempo, todo mundo vai precisar de seringa, agulha, de profissionais e de cadeia de frio para conservação, mas o Brasil já tem tradição de vacinar.

Fazer com que a vacina chegue o mais rápido possível ao maior número de pessoas não é tarefa trivial. No caso do Brasil, com dimensão continental, o desafio leva em consideração comunidades que vivem em lugares distantes de grandes centros, muitas vezes com acesso apenas de barco.

‘Democratizar o acesso’
Desponta como complicador a possibilidade de a vacina precisar de duas doses. E há variáveis como quantas empresas vão produzir, em qual escala e em quais plantas. Também haverá o debate se deverão ser transportadas a baixíssimas temperaturas, como 25º C negativos.
— Estudos apontam que em algumas regiões do mundo até 50% das vacinas se perdem por falta de armazenamento ou dificuldades de transporte — afirma Maurício Lima, do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos).
Lima diz que o importante é ter um bom planejamento:
— O Brasil tem uma rede eficiente de vacinação, com 37 mil pontos de imunização em 5,5 mil municípios.

Para especialistas, o maior risco é repetir o que ocorreu com a questão dos respiradores e dos equipamentos de proteção individual: o mundo todo ficar dependente de um ou de poucos fornecedores.
Analistas lembram que seriam necessários oito mil aviões de carga para carregar vacinas necessárias para metade da população mundial.
— Ninguém será vacinado na primeira semana após a aprovação. A produção, na melhor das hipóteses, será na casa dos milhões, com uma demanda de bilhões. A distribuição terá de ser segmentada e com muita disciplina — afirma o professor de logística Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral. — O desafio da distribuição dessa vacina só é comparável ao abastecimento das grandes guerras mundiais.
Relatório publicado na terça pelo Eurasia Group alerta que a melhor maneira de resolver gargalos é firmar parcerias.

“Alemanha, França, Holanda e Itália formaram uma aliança para colaborar na fabricação e distribuição de uma vacina”, informa a empresa de consultoria e pesquisa de risco político.
Em um evento nos EUA, especialistas demonstraram preocupação:
— Não estamos preparados — afirmou Neel Jones Shah, responsável global de relações com companhias aéreas da transportadora Flexport, de São Francisco, em webinar na semana passada, noticiado pela Bloomberg. — As cadeias de suprimentos de vacinas são exponencialmente mais complexas do que a cadeia de suprimentos de EPIs.

Felipe Carvalho, coordenador da Campanha de Acesso a Medicamentos da ONG Médicos sem Fronteiras no Brasil, diz que a logística se soma a uma questão geopolítica, em que países mais ricos estão comprando os primeiros lotes, mesmo que eles talvez não estejam no pico da doença, e que é preciso democratizar o acesso aos imunizantes:
— Fala-se muito da distribuição justa, primeiro para profissionais de saúde e depois para populações mais vulneráveis. Mas é preciso levar em conta grupos com menos acesso à saúde, como comunidades e refugiados, como prioritários —diz. — Há um desafio político sobre produção, preço, como os países estão agindo sobre essas vacinas… É uma corda bamba entre a cooperação internacional e o cada um por si.