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Transporte Last Mile – ontem, hoje e amanhã

Nunca estivemos tão dependentes do transporte last mile. A última milha de entrega, aquela que conecta as empresas aos consumidores finais, já vinha se ampliando e ganhando novos desenvolvimentos tecnológicos antes da COVID-19. Até então, o e-commerce, que subiu cerca de 25% no mundo, era o fator que mais impulsionava o crescimento das entregas a pessoas físicas. Mas agora, em um mundo em pandemia, a necessidade de entregas a consumidores mudou de dimensão. O last mile passou a ser o serviço mais imprescindível para que a estratégia de amenização do impacto do vírus funcione: a estratégia de deixar as pessoas em casa.

De repente, sem que nenhum planejamento histórico pudesse prever, a demanda por entregas em casa explodiu em alguns setores e sumiu em outros. Os varejistas, principal elo de contato com os consumidores, se viram em um desafio inimaginável. O pequeno restaurante, que nunca havia embalado refeições para viagem, não recebeu mais clientes em seus locais físicos. Por outro lado, as grandes redes supermercadistas e de serviços de entrega em casa, como GPA e iFood, explodiram em demanda.

Enquanto um exército de pequenos entregadores de documentos, motoristas de taxi e Uber viram sua demanda de transporte despencar, os entregadores de comida e produtos farmacêuticos não conseguiam mais atender a enxurrada de pedidos.

Para sobreviver, os pequenos precisam se reinventar. E para conseguir atender a todos, os grandes precisam se reestruturar. E rápido.

Não é difícil imaginar o futuro. Muitos pequenos, infelizmente, fecharão suas portas, e outros se manterão plugados e dependerão do desempenho das grandes plataformas de marketplace. Já os grandes varejos que atuam com produtos essenciais, no curto prazo farão muitas ações de ajuste de capacidade, incluirão novos procedimentos para evitar contaminações de equipes, perderão em produtividade, reduzirão suas margens de lucro, mas ganharão em volume e absorverão grande parte da demanda não atendida pelos pequenos.

Serão muitas tentativas e erros e ajustes pelo meio do caminho, pois a famosa expressão “trocar o pneu com o carro andando” está acontecendo agora.

A última pesquisa realizada pelo ILOS sobre o transporte last mile foi em meados de 2019, pouco antes da explosão do coronavirus. O levantamento apontou que o avanço de estoques para áreas de grande concentração urbana poderia trazer redução significativa dos prazos de entrega: uso de pequenos armazéns urbanos, aproveitamento de lojas físicas como pontos de estocagem do e-commerce e estruturação de dark stores são formas de avanço dos produtos para ficarem mais próximos aos clientes finais. Esses formatos, que poderiam trazer aumento de custos nas operações, hoje são um dos mais apontados como opção para se atender as necessidades de entrega rápida às famílias.

Observa-se no Brasil iniciativas de aumento das entregas a partir de loja, como é o caso da Lojas Americanas, que passou a divulgar fortemente em seu canal virtual o serviço de entrega no mesmo dia, com as lojas passando a levar os produtos na casa dos consumidores. O Mercado Livre também alterou procedimentos no last mile como a retirada da obrigação de assinatura no celular por exemplo, agilizando entregas e diminuindo o risco de contaminação. As duas empresas vêm reforçando o incentivo a pequenos comerciantes a se plugarem em seus marketplaces. GPA, que está na crista da demanda do e-commerce, pois é focado em produtos essenciais, alcançou rapidamente o seu limite de capacidade de entrega em casa, e precisou aumentar seus prazos até conseguir se reestruturar.

No ano passado, antes do surto de coronavirus, o maior problema identificado pelas empresas no transporte last mile era o trânsito e a falta de estacionamento para veículos de carga nos centros urbanos. Quem diria que agora esse seria o menor dos problemas? Existem hoje algumas restrições de circulação de veículos em estradas e dificuldades de movimentação de times devido a imposições dos governos, mas de forma contornável.

Mas para aqueles que conseguem pensar também no amanhã, e não apenas no hoje, é preciso estar atento. As pessoas não ficarão para sempre reclusas em suas residências e, portanto, teremos novamente trânsito. Ao mesmo tempo, muitos dos consumidores que estão experimentado receber produtos em suas casas, passarão a adotar esse novo padrão de compra. Isso significa que o last mile é essencial agora, e também o será no futuro.

Se considerarmos a China como uma antecipação do que está por vir, podemos usar isso a nosso favor. Se é assim, é possível visualizar no gráfico a seguir que a China está voltando a se movimentar (produtos e pessoas), visto que os índices de congestionamento de 2020 começam a se aproximar novamente dos índices de 2019.

transporte last mile - ILOS Insights Figura: Pessoas e cargas estão começando a se mover novamente na China. Fonte: Harvard Business Review (HBR), BCG Center for Macroeconomic

Se os congestionamentos estão voltando na China, quer dizer que os desafios do passado chegarão novamente no futuro, só que com muito mais intensidade. Pois o mundo terá mais e-commerce e mais exigências de entrega. E o transporte last mile, que será maior do que no passado, enfrentará mais trânsito, mais dificuldades de estacionamento, mais problemas de descarregamento de carga…

O que fazer? Estruturar, planejar, usar tecnologia. Profissionais de logística, de planejamento, de TI, de robótica, engenheiros, urbanistas… Empresas privadas e governos. O mundo precisará se reorganizar para uma nova fase da distribuição urbana que está por vir.

Referências:

ILOS Report “Desafios e Soluções do Last Mile Urbano”

HBR – How chinese companies have responded to coronavirus

ILOS Insights

Desafios do last mile: vagas e trânsito

Ações para minimização da contaminação em operações fundamentais

Last Mile Urbano: é preciso velocidade no descarregamento

No meu post anterior, com o tema Last Mile Urbano, escrevi sobre as dificuldades no trânsito e a escassez de vagas para veículos de carga nas cidades brasileiras, problemas que podem ser minimizados com um bom planejamento urbano a ser desenvolvido pelo poder público.

Agora, falarei um pouco sobre um outro importante desafio para as entregas urbanas: a necessidade de velocidade no descarregamento, que não depende do governo, mas sim das empresas.

Não é preciso muitas explicações para se entender que quanto mais tempo o veículo fica parado para descarregar as mercadorias, pior será a eficiência da distribuição last mile. Um baixo desempenho no descarregamento afeta a todos, não somente os transportadores e donos das mercadorias, mas todos os que utilizam as vias urbanas. Se um veículo demora para ser descarregado, ele ocupará por mais tempo a vaga de carga e descarga, reduzindo a quantidade de veículos que utilizarão aquela vaga ao longo do dia.

Por sua vez, quando um caminhão fica parado para descarregamento, reduz-se a quantidade de entregas que este veículo conseguiria realizar em um mesmo dia, fazendo com que as empresas necessitem de mais caminhões. Isto gera mais congestionamento, mais necessidade de vagas e docas, baixo aproveitamento dos ativos de transporte e dos motoristas…. e tudo isso é convertido em altos custos logísticos para todos.

No Brasil, quase 30% das descargas em estabelecimentos urbanos demoram mais de 1 hora para serem concluídas, piorando a eficiência na distribuição. Esse dado vem da pesquisa realizada pelo ILOS, que indicou também que esta demora no descarregamento é considerada a 3ª maior dificuldade das empresas na realização do transporte last mile.

E como se resolve esse problema?

Existem vários caminhos para se driblar os altos tempos de descarregamento. Cada um será mais adequado a cada tipo de negócio, e as soluções terão diferentes níveis de dificuldade.

A utilização de carrinhos (tipo rolltainers), por exemplo, é uma opção para as entregas em lojas físicas que recebem muitos volumes por dia. Essa opção agiliza o tempo de descarregamento e pode permitir que o veículo realize mais giros para entregar em mais lojas, mas reduz o espaço útil no interior da carreta e exige investimento em equipamentos e em rampas.

O agendamento de entregas em horários mais adequados aos estabelecimentos também pode reduzir fortemente o tempo de filas e facilitar o deslocamento de funcionários para aumentar a velocidade no descarregamento. Esta solução exige uma gestão bem mais complexa para coordenação de horários entre vendedores, transportadores e estabelecimentos clientes.

Soluções mais simples como melhoria na montagem ordenada da carga dentro do veículo e aumento do time utilizado para descarregamento também devem ser avaliadas. O importante é que é preciso fazer contas, para saber se as ações implantadas realmente trarão maior produtividade, eficiência redução de custos como um todo.

Mais informações sobre os Desafios e Soluções do Last Mile Urbano estão disponíveis no ILOS Report neste link.

 

Referências:

Desafios do Last Mile: vagas e trânsito
ILOS Reports Desafios e Soluções do Last Mile Urbano