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Importância do planejamento na troca de operadores logísticos – O caso KFC

A terceirização tem sido uma alternativa buscada por empresas que querem focar em seu core business, reduzir seus custos e aumentar a qualidade de seus serviços. Possuir um parceiro na área de logística é prática comum no mercado, em áreas como transporte, armazenagem e outros serviços. A questão que deve estar sempre no radar dos gestores que buscam um parceiro deve ser: quais critérios e cuidados devem ser utilizados na seleção do parceiro ideal?

Dependendo das motivações que a empresa possui para terceirizar uma atividade, certos critérios de seleção podem obter maior ou menor relevância. De acordo com dados do Panorama ILOS de Terceirização Logística no Brasil de 2014, as principais razões pelas quais as empresas buscam a terceirização é a redução de custos, obter maior eficiência na execução das atividades operacionais e redução no investimento em ativos. De maneira geral, empresas que buscam redução de custos podem relevar algumas ineficiências do operador, enquanto aquelas que primam pela boa execução das atividades e um alto nível de serviço irão buscar operadores que ofereçam excelência nos serviços prestados.

Na mesma pesquisa, se observa que a principal razão que leva as empresas a substituir um provedor de serviços logísticos é a má qualidade dos serviços. Portanto, é de se esperar que, mesmo oferecendo um preço atrativo, é primordial que o terceiro cumpra o serviço ao qual ele se comprometeu a realizar.

Neste contexto, um caso que ocorreu em fevereiro de 2018 chama a atenção. Na Inglaterra, a famosa rede de fast-food KFC teve que fechar centenas das suas 900 lojas no Reino Unido porque estavam sem frangos, o principal ingrediente do restaurante. Isto ocorreu devido a um problema logístico: o parceiro logístico que havia acabado de ser contratado não conseguiu realizar as entregas no tempo esperado. Por conta de critérios de qualidade, o frango utilizado nos restaurantes tem que ser disponibilizado pelo supply chain da KFC, impedindo que os franqueados comprem frango em outros locais para abastecer suas lojas. Por conta disso, os restaurantes não tiveram outra saída a não ser fechar as portas.

A operação do novo prestador de serviço logístico da KFC havia começado uma semana antes do problema e, pelo que parece, a troca de parceria foi motivada, principalmente, pela redução de custos. Devido à falta de frangos, o KFC estima perdas de receita na ordem de 1 milhão de libras por dia.

Figura 1 – Loja do KFC fechada na Inglaterra por conta da falta de frangos.
Fonte: Darren Staples, Reuters

O que aconteceu no Reino Unido foi um descasamento entre o nível de serviço esperado e os processos utilizados para entregá-lo. Subestimou-se a operação necessária para atender o serviço proposto, por parte de todos os elos envolvidos no supply chain.

A troca de operadores logísticos em operações complexas de grande porte precisa ser muito cuidadosa e bem planejada, tanto pela empresa contratante quanto pela empresa prestadora de serviço, de forma e evitar imprevistos e rupturas como estas. Do lado de quem contrata, as dificuldades da operação e os níveis exatos de exigência de serviço devem estar bem claros e devem ser bem apresentados para os candidatos à operação. Por outro lado, os prestadores de serviço devem projetar as necessidades operacionais de forma realista. Os contratantes não podem cair na tentação de omitir complexidades com objetivo de conseguir melhores preços dos operadores, assim como os candidatos não podem cair na tentação de subestimar as necessidades operacionais para aumentar suas chances de ganhar o contrato.

Como o problema instalado, caberá aos gestores reavaliar as necessidades logísticas para a operação de distribuição nas lojas da KFC e rever os termos de contrato com os agentes envolvidos no suprimento dos restaurantes.

 

Referências:

‘https://www.thesun.co.uk/money/5610538/kfc-branches-stores-shut-chicken-delivery-reopen/

https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2018/02/19/kfc-restaurants-in-the-u-k-have-a-problem-they-dont-have-chicken/?utm_term=.6c6c3bab0357

https://www.theguardian.com/business/2018/feb/20/kfc-was-warned-about-switching-uk-delivery-contractor-union-sayshttps://www.kfc.co.uk/crossed-the-road

O papel dos distribuidores para a cadeia de suprimentos

Distribuidores possuem o papel menos intuitivo dentro da cadeia de suprimentos. Eles tomam para si no geral atribuições não centrais de outros elos da cadeia, já que fabricantes lidam diariamente com dificuldades intrínsecas ao processo de produção e varejistas lidam da mesma forma com dificuldades de interação com o cliente final. Nesse cenário em que os elos buscam terceirizar ao máximo funções que não são foco de seus negócios, os distribuidores agregam valor basicamente por serem os gestores da logística de distribuição, armazenagem e gestão de estoques dos produtos acabados em questão.

Figura 1 – CD de um distribuidor do ramo farmacêutico 

 

No que tange a parte de transportes, os distribuidores capturam do fornecedor um gigantesco mercado de distribuição. Em indústrias como a farmacêutica por exemplo, poucos laboratórios produzem medicamentos que são vendidos em centenas de milhares de farmácias por todo o país, e é o distribuidor quem tem a função de gerir todo esse processo de distribuição. Além disso, não é incomum ver distribuidores também coletando produtos nos fabricantes, ou seja, gerindo toda a operação de transportes inbound e outbound. O post do Henrique Alvarega aborda melhor a questão de contratação de transportes.

Com relação a armazenagem, distribuidores geralmente possuem centros de distribuição por todo seu território de abrangência, oferecendo um bom nível de serviço de entrega para seus clientes. Não é incomum perceber cadeias em que fabricantes e varejistas possuem poucos ou até mesmo não possuem CDs, repassando praticamente toda a responsabilidade de armazenagem para os distribuidores. Além disso, distribuidores possuem no geral bons conhecimentos da área tributária, localizando suas áreas de armazenagem em locais com consideráveis benefícios fiscais.

Outra função logística normalmente sob responsabilidade dos distribuidores é a gestão de estoques na cadeia. Pequenos varejistas utilizam o estoque de distribuidores como seu próprio estoque, realizando pedidos diariamente ou até várias vezes ao dia. Muitos grandes varejistas por sua vez terceirizam sua função de gestão de estoques para distribuidores através de sistemas de VMI, em que o fornecedor visualiza o estoque do varejista e recomenda ou até realiza pedidos finais.

Todavia, todos esses benefícios incorrem em custos. Muitas vezes as margens de lucro dos distribuidores são questionadas pelos outros elos da cadeia, que podem optar por não utilizá-los como canal de distribuição. Além disso, é importante lembrar que distribuidores não são operadores logísticos, ou seja, eles são de fato agentes intermediários de compra e venda de mercadorias. Todas as dificuldades logísticas de distribuição, armazenagem e controle de estoques podem muitas vezes ser terceirizadas para um operador logístico, que é um agente de suporte da cadeia.

E o setor em que você trabalha, também possui distribuidores? A decisão de utilizá-los ou evitá-los depende de profunda análise de margens e complexidades logísticas em questão.

 

Referências:

<https://www.ilos.com.br/web/qual-e-a-estrategia-de-transportes-mais-adequada/>

<http://www.scdigest.com/experts/Logility_17-06-08.php?cid=12529>

Terceirização em debate

A revista setorial do jornal Valor Econômico de Agosto 2016 trata sobre a Terceirização, tema polêmico que vem sendo debatido frequentemente em âmbito legal e regulatório, e que envolve uma infinidade de atividades, como limpeza, telemarketing, segurança, TI, contabilidade e logística. As decisões políticas sobre esse assunto poderão afetar diretamente o negócio das empresas, tanto daquelas que contratam serviços terceirizados, quanto daquelas que oferecem tais serviços.

Uma das matérias da revista trata especificamente da terceirização logística, segmento que conta com forte presença de prestadores de serviço, especialmente nas atividades de transporte, onde o nível de terceirização é de cerca de 90% segundo pesquisa do Instituto ILOS.

Os motivos que levam à terceirização logística são muitos, mas, em resumo, pode-se perceber que as indústrias buscam trabalhar com provedores de serviços logísticos por considerarem que estes são capazes de reduzir custos, executando melhor do que a própria empresa contratante as atividades logísticas específicas. Além disso, a empresa ganha flexibilidade para ampliar ou reduzir suas operações, pois os custos logísticos se tornam variáveis, fator essencial em períodos de instabilidade econômica.

Figura - Terceirização LogísticaFigura 1 – Principais motivos para terceirização logística

Fonte: ILOS

 

Como os operadores logísticos trabalham para vários clientes diferentes, as variações de demanda podem ser amenizadas no caso de um setor estar em baixa, mas outro em alta. Além disso, os provedores de serviço podem trazer maior escala às operações logísticas, reduzindo ociosidades, como por exemplo, transportando caminhões completos com cargas de diferentes clientes e compartilhando espaço, equipamentos e tecnologia de armazenagem para movimentação de produtos de várias empresas contratantes.

Os debates relativos à legislação sobre terceirização, entretanto, questionam sobre os direitos trabalhistas dos terceirizados. A motivação certamente é válida, entretanto, é necessário se tomar muito cuidado para não se penalizar a eficiência das operações.

 

Terceirização Logística no Brasil

O Jornal Valor Econômico de hoje trouxe encartada a revista Valor Setorial – Logística. O tema, muito oportuno no momento atual de busca por redução de custo, foi abordado em uma série de reportagens, dentre elas, a que tratou da terceirização de atividades logísticas no país. Para quem é do ramo, vale a pena ler.

Alguns dados utilizados na reportagem falam sobre a utilização de terceiros versus a realização da logística pela própria empresa. O Brasil, claramente, é um país que se utiliza muito de prestadores de serviços logísticos, especialmente na atividade de transporte.

Figura 1

Figura 1 – % médio de terceirização por atividade logística das empresas

Fonte: ILOS

O momento atual, entretanto, é de revisão de práticas usuais, na busca por sobrevivência. Isto coloca na berlinda uma série de decisões tomadas no passado, quando o cenário era outro. Mas a decisão de terceirização tem grandes chances de ser uma opção que continuará nas empresas. Isto porque, em momentos de incerteza, a flexibilidade é uma grande aliada. Trabalhar com terceiros aumenta a flexibilidade e deixa menos engessada as operações, pois não exige que as empresas contratantes disponham de ativos próprios, deixando-as mais leves e preparadas para as alterações de demanda que possam surgir.

Figura 2

Figura 2 – Melhorias obtidas pós-terceirização (% de empresas)

Fonte: ILOS

 

Além disso, como a demanda total por movimentação de cargas no Brasil está em baixa (pois a economia não anda bem e a produção caiu), existe uma elevada oferta de provedores de serviços logísticos disponíveis, o que aumenta as opções para as empresas que estão contratando. O risco, entretanto, é a empresa não selecionar bem seus parceiros logísticos, escolhendo-os apenas pelo preço mais barato, ou forçando-os demais a baixar preços. Em períodos de baixa, o risco de falência das empresas aumenta, e a escolha de provedores de serviço que tenham bom fôlego financeiro deve sempre ser considerada.