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Demand Driven Supply Chain

Antes de começar este novo post, antecipo que as considerações que irei tecer a seguir são uma visão particular sobre conceitos e práticas relacionadas com Demand Driven Supply Chain (DDSC), ou Demand Driven Supply Network (DDSN), tema que vem recebendo atenção crescente por parte de empresas que produzem os chamados fast-moving consumer goods, ou produtos de giro rápido, tais como Nestlé, Procter & Gamble, Coca-Cola, PepsiCo, Philip Morris, Unilever, AB Inbev, BAT, L’Oréal e Nokia.

A Gartner Inc., ainda AMR Research, definiu DDSN como o “sistema de tecnologias e processos que permitem capturar e reagir, em tempo real, aos movimentos da demanda através de uma rede de relacionamentos entre funcionários, clientes e fornecedores”. Esta definição pode, à primeira vista, ser bastante parecida com a ideia por trás dos Programas de Resposta Rápida (PRR), como o Vendor Managed Inventory (VMI) e o Continuos Replenishment Program (CRP). No entanto, análise mais cuidadosa permite perceber diferenças significativas nas suas práticas e resultados.

Os Programas de Resposta Rápida surgiram na esteira do desenvolvimento e aprimoramento dos mecanismos de troca eletrônica de dados (EDI), que possibilitam, ao menos em teoria, o acesso da informação do sell out por parte dos fabricantes, melhorando a acuracidade da previsão de vendas e, consequentemente, reduzindo os custos com estoques de segurança. No entanto, o custo transacional da troca eletrônica de dados com o uso de padrões de linguagem intercambiáveis, como o EDIFACT, e com a intermediação de empresas especializadas, conhecidas como Value Added Networks (VAN), ainda era muito alto.

Além do elevado custo transacional, a dificuldade de mudar padrões adversativos nos relacionamentos entre indústria e varejo, que muitas vezes impossibilitam um acordo sobre o investimento necessário e a repartição dos benefícios, e um possível aumento dos custos operacionais da indústria, advindos de estoques em consignação e remessas mais frequentes, também contribuíram para a limitação do uso dos PRR’s.

No entanto, uma revolução tecnológica tem possibilitado aspirar, em um futuro não tão distante, por uma gestão da cadeia de suprimentos verdadeiramente orientada pela demanda. São quatro os pilares que sustentam esta esperança: novas tecnologias de tratamento de dados, redução drástica dos custos transacionais, impressão tridimensional e melhor compreensão dos ganhos advindos da colaboração na cadeia de suprimentos.

Big Data Analytics

A melhor informação disponível para prever a demanda futura e, a partir daí, “empurrar” o fluxo de produtos na direção do consumidor final sempre foi a informação do sell out, ou do consumo real. Com ela, as empresas podem utilizar métodos estruturados para previsão de séries temporais e estimar a demanda futura de seus produtos e serviços. Com isso, pode-se entender o enorme valor de ter esta informação disponível, como preconizado pelos PRR’s. Apesar de pesquisa do ILOS mostrar que, infelizmente, uma minoria das grandes empresas brasileiras utiliza técnicas sofisticadas de previsão de vendas, pode-se considerar este o “estado da prática”.

No entanto, o “estado da arte” no que se refere a tratamento de dados para a realização de “previsões” já está em outra fronteira do conhecimento: Big Data Analytics. Imagine poder estimar a demanda futura não mais com dados históricos de consumo, mas com base na análise da imensidão de informações disponibilizadas em redes sociais como Facebook, Pinterest, Twitter e outras!?

São informações sobre festas, mudanças, casamentos, nascimentos…informações que permitem, se corretamente analisadas, antecipar a demanda real futura. E já existem mecanismos-robôs que permitem a busca e tratamento desta enormidade de dados não numéricos. Veja, na Figura 1, o resultado da busca no Google Trends para os termos Big Data Analytics e Time Series Forecasting, evidenciando a transformação que está ocorrendo.

google trends

Figura 1 – Big Data Analytics X Time Series Forecasting

Fonte: Google Trends em 30/10/2015

 

XML

Como segundo fator de transformação, merece destaque a redução drástica dos custos transacionais advindos do desenvolvimento da eXtensible Markup Language (XML), da redução dos custos de armazenamento de dados e do aumento da disponibilidade e velocidade da internet, que possibilitam a troca eletrônica de dados sem a intermediação de VAN’s.

Com menores custos transacionais, por exemplo, os fluxos de informação podem ser duplicados e passam a ser bidirecionais, permitindo moldar a oferta em tempo real a partir da disponibilidade de recursos na cadeia. Imagine a informação de capacidade ociosa da frota de um operador logístico sendo transmitida em tempo real para um varejista, que oferece em seus canais virtuais uma redução do frete e entrega imediata para a compra naquele período?!

Além disso, a redução dos custos transacionais permite a inserção de uma enorme quantidade de pequenas empresas na cadeia de suprimentos, provocando uma verdadeira revolução no varejo, conforme discutido no post sobre Omni-Channel Supply Chain.

3D Print

Uma das dificuldades de gerenciar a cadeia de suprimentos de forma “puxada” pela demanda sempre foi a necessidade de se trabalhar com lotes de produção e movimentação para diluir os custos de setups de máquinas e de transportes. Parte dos problemas com os PRR’s advinha do incremento dos custos operacionais por se trabalhar com lotes menores, o que quase nunca era compensado pelas economias com a redução dos estoques. No entanto, estamos bem próximos, como sinaliza Joseph DeSimone no Vídeo 1, de uma verdadeira revolução com o desenvolvimento de novas, mais robustas e velozes impressoras 3D.

Vídeo 1 – E se as impressoras 3D fossem 100 vezes mais rápidas?

Fonte: TED Talk – Joseph DeSimone

Não apenas as impressoras 3D permitirão um tempo de setup extremamente baixo, como possibilitarão a eliminação das grandes distâncias de transporte, uma vez que podem ser instaladas mais próximas dos clientes. Outras iniciativas de automação na área industrial e de armazenagem, como o uso de tecnologia de reconhecimento de imagens, têm permitido uma redução considerável nos tempos de resposta ao mercado. Um exemplo disto pode ser visto no Vídeo 2.

Vídeo 2 – Separação Automática de Frutas

Fonte: Allied Vision TV – Youtube

Colaboração na Cadeia de Suprimentos

Por fim, parece existir um entendimento mais claro de como as relações colaborativas podem trazer ganhos mútuos para as empresas envolvidas. Na medida em que iniciativas como os PRR’s ou outros mecanismos de colaboração entre parceiros comerciais, como o Collaborative Planning, Forecasting and Replenishment (CPFR), começam a ser implementadas, é possível quantificar os resultados e perceber que existe outra forma de obter ganhos que não as negociações comerciais de final de mês.

Infelizmente, ainda há muita coisa a ser feita até que o conceito de Demand Driven Supply Network seja uma realidade prática para as empresas. Vencer o paradigma de que os ganhos nos relacionamentos se dão exclusivamente no processo negocial, construído em um período onde as ferramentas tecnológicas que viabilizam uma gestão eficiente dos fluxos de informações e produtos ao longo da cadeia de suprimentos não existia, é urgente. Já é evidente que os ganhos possíveis com a colaboração das empresas em uma cadeia de suprimentos orientada pela demanda em muito superam aqueles obtidos em relações negociais adversativas.

Cabe a nós criarmos os artefatos gerenciais para viabilizar este maravilhoso futuro que se apresenta!

Referências

<https://www.google.com.br/trends/explore#q=big%20data%20analytics%2C%20time%20series%20forecasting&cmpt=q&tz=Etc%2FGMT%2B2>

<https://www.ted.com/talks/joe_desimone_what_if_3d_printing_was_25x_faster>

<https://www.youtube.com/watch?v=Y0eop-hei3M>

Omni-Channel Supply Chain

Em anos recentes, surgiu e ganhou força no varejo o conceito de Omni-Channel Management, que na definição de Verhoef et al. (2015) é “a gestão sinérgica dos variados canais de venda disponíveis e pontos de contato com o cliente, de forma que a experiência dos clientes através dos canais e o desempenho global destes sejam otimizados”.

Em outras palavras, Omni-channel pode ser entendido como a convergência das plataformas e canais de vendas, cujas estratégias não mais podem ser concebidas separadamente, na medida em que o consumidor, informado e instrumentado, é capaz de transitar livremente entre o mundo físico e o mundo virtual durante todo o processo de compras, conforme ilustrado na Figura 1.

 

Figura 1 – Omni Channel v2

Figura 1 – Omni-channel

Fonte: ILOS (adaptado de http://www.i95dev.com/drive-holiday-sales-with-omni-channel-retailing/)

Pesquisa realizada ano passado no Reino Unido e na Alemanha pela Deloitte (2014), encomendada pelo eBay, confirma a utilização por parte dos consumidores de múltiplos canais e plataformas para a concretização da compra, conforme a Figura 2.

Figura 2 – Aumento da participação das vendas Omni Channel v2

Figura 2 – Aumento da participação das vendas Omni-channel

Fonte: Deloitte (2014)

Além dos óbvios impactos para a gestão de canais e marcas, o Omni-channel traz profundas transformações também para a gestão das cadeias de suprimentos, na medida em que as funções tradicionais exercidas por lojas, centros de distribuição e fábricas se misturam, exigindo novas tecnologias e capabilidades para o atendimento dos clientes.

Exemplos destas transformações podem ser identificados, em escala reduzida, a partir das duas últimas décadas, com o crescimento do comércio eletrônico, que obrigou varejistas a adaptar a operação de seus centros de distribuição para capacitá-los a realizar a separação de pedidos cada vez mais fracionados.

Com a expectativa do cliente de poder trafegar livremente pelos canais de compra, os tipos de entrega e canais de atendimento tornam-se mais complexos, conforme apresentado na Figura 3. Por exemplo, muitos varejistas permitem que o cliente compre pela internet e retire o produto na loja, o que obriga o centro de distribuição a fazer uma separação de pedidos com produtos em lotes para repor as grades de exposição da loja e, ao mesmo tempo, os obriga a separar e enviar produtos fracionados para atender aos pedidos online, muitas vezes diferentes do sortimento tradicional da loja.

Figura 3 – Aumento da complexidade nos tipos de entrega e canais de atendimento v2

Figura 3 – Aumento da complexidade nos tipos de entrega e canais de atendimento

Fonte: Deloitte (2014)

As lojas precisam, dentro desta nova perspectiva, estar capacitadas a realizar atividades tradicionalmente realizadas em centros de distribuição, como separação de pedidos, embalagem para transporte e expedição, para poder enviar o produto diretamente para o cliente final ou para outras lojas.

As fábricas, além de capacitadas para realizar envios consolidados para centros de distribuição, cada vez mais serão obrigadas a processar pedidos fracionados e realizar entregas individuais para aumentar a velocidade de atendimento e reduzir custos de transportes.

Conjuntamente com a redução dos custos transacionais, brilhantemente ilustrado por Philip Evans (2014) no Vídeo 1, as cadeias de suprimentos estão passando por profundas transformações, com varejistas, como os gigantes AliExpress, Amazon e Walmart, desenvolvendo habilidades para congregar múltiplos pequenos fornecedores e distribuir de forma totalmente fragmentada.

Vídeo 1 – Como os dados transformarão os negócios

Fonte: TED Talk – Philip Evans

Amazon e Walmart, inclusive, têm demonstrado interesse em ir além da função de portal de vendas, testando modelos de distribuição inovadores com lockers e drones, apresentados na Figura 4, buscando se posicionar como grandes operadores porta-a-porta. Os testes com drones, por exemplo, têm suscitado discussões e vêm ganhando notoriedade na imprensa não especializada.

Figura 4 – Drone e Locker da Amazon v2

Figura 4 – Drone e Locker da Amazon

Fonte: adaptado de Amazon.com

Imagine, em um futuro não muito distante, entrar em uma loja tradicional de varejo e o vendedor identificá-lo eletronicamente e abordá-lo pelo nome. Pelas suas buscas recentes pela internet, em outros sites de vendas ou especializados em avaliação de produtos, as prateleiras eletrônicas de LED irão apresentar exatamente os produtos buscados recentemente e oferecerão descontos específicos para você. Uma vez feita a compra, apesar da loja não ter estoque, o produto será convenientemente entregue no local de sua escolha em poucas horas, e não mais em dias.

Imagine as mudanças no Supply Chain para viabilizar esta realidade!

A partir desta discussão, algumas perguntas se colocam para os gestores de Supply Chain:

  • As empresas estão preparadas para gerenciar fluxos bidirecionais de informações e mercadorias?
  • Conseguirão tratar uma quantidade enorme de dados e extrair informações relevantes em tempo hábil para a tomada de decisão?
  • Quais, e de que formas, outras inovações (nanotecnologia, big data analytics…) poderão impactar a gestão da cadeia de suprimentos?

Querendo contribuir com a discussão sobre este tema, meu e-mail é leonardo.julianelli@ilos.com.br.

 

Referências

Verhoef, P.A.; Kannan, P.K.; Inman, J. J. From Multi-Channel Retailing to Omni-Channel Retailing: Introduction to the Special Issue on Multi-Channel Retailing. Journal of Retailing, v.91, n.2, p. 174-181, 2015.

Acessado em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022435915000214>

<http://oglobo.globo.com/economia/negocios/walmart-quer-testar-drones-para-entregas-de-mercadorias-17884421>

<https://www.ted.com/talks/philip_evans_how_data_will_transform_business/transcript?language=pt-br>

<http://www2.deloitte.com/uk/en/pages/consumer-business/articles/unlocking-the-power-of-the-connected-consumer.html>

<http://www.i95dev.com/drive-holiday-sales-with-omni-channel-retailing/>

IMPACTOS DE TECNOLOGIAS EMERGENTES NAS EMPRESAS E NO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Pela terceira vez, a ProMat (veja detalhes no BOX) foi realizada conjuntamente à Automate, em centro de convenções em Chicago, nos Estados Unidos. Foi uma experiência profícua para refletir sobre o papel da tecnologia no ambiente competitivo das empresas, assim como no desenvolvimento econômico em geral. Este artigo tem como objetivo discorrer sobre o atual processo de convergência de tecnologias que está viabilizando um salto de produtividade em supply chains e possibilitando a formação de networks globais direcionados pela demanda.

 

Referência para o mercado de logística

Maior feira de equipamentos e soluções tecnológicas para o setor de logística e cadeia de suprimentos das Américas, a ProMat 2013 foi realizada no período de 21 a 24 de janeiro, no McCormick Place, em Chicago, nos Estados Unidos, contando com a participação de 785 empresas expositoras e mais de 34 mil visitantes de 125 países.

Promovida pela Material Handling Industry of America (MHIA), a Promat ocupou um espaço de 300 mil m² onde foram exibidas as últimas novidades em equipamentos para embalagem, armazenagem, gerenciamento de estoque e tecnologia da informação, entre outras soluções direcionadas à cadeia logística.

Em paralelo ao evento, houve também a programação de conferências Automate 2013, que contou com exposições de empresas especializadas em automação, como a Mitsubishi Electric Automation, Kawasaki Robotics, Lincoln Electric e Schneider Packaging Equipment.

 

Pontos de interesse na visitação

A ProMat abrange amplamente os equipamentos de movimentação de materiais e sistemas de informação aplicados, tais como: as tradicionais empilhadeiras, esteiras e estanterias; passando pelos sistemas de reconhecimento de voz, picking to light, e os de semiautomação do tipo goods-to-person, em que os itens são transportados por uma combinação de transelevadores, esteiras e shuttles à estação de trabalho do separador de pedidos; até os sistemas de automação – ASRS, AGV e sistemas de manuseio unitário e–; além de sistemas de integração, planejamento e execução, tais como WMS, TMS e simulação.

A Automate concentra-se em sistemas de automação, com destaque para a robótica. Um bom exemplo é o sistema que se utiliza de robôs, que literalmente desloca estantes com produtos dentro do espaço do armazém, posicionando-as dinamicamente com base no volume, e levando-as até o local dos separadores de pedidos, que recebem instruções das quantidades por pedido. Veja o vídeo, muito interessante, dos robôs da Kiva em ação (http://www.youtube.com/watch?v=lWsMdN7HMuA), que é o coração do sistema de automação de movimentação de materiais baseado no conceito de goods-to-man picking process. A Kiva, que foi recentemente comprada pela Amazon, é uma precursora desse tipo de sistema, que propicia um aumento expressivo de produtividade. Sua concepção demonstra uma mudança radical de paradigma de projeto de um armazém.

Dentre outros equipamentos de robótica muito interessantes e inovadores, destacam-se aqueles de movimentação baseados na identificação ótica de objetos. Esses fazem parte de sistemas que determinam o objeto a ser deslocado por meio de sensores óticos, que por sua vez direcionam o equipamento de maneira precisa para, independentemente da posição espacial do objeto, retirá-lo da posição original e deslocá-lo para o destino predeterminado.

Robô de manuseio unitário

Robô de manuseio unitário

 

Imagine uma caixa cheia de peças diferentes e desarrumada. O equipamento faz uma leitura do interior da caixa, procurando o item especificado em sua memória, para então acionar o braço mecânico que irá retirar a peça desejada, seja qual for a sua posição, de maneira rápida e precisa.

O mesmo princípio foi notado em um robô-empilhadeira que “lê” a face do baú (ou carreta) de um caminhão, com caixas empilhadas, dos mais variados tamanhos, para então proceder a retirada das caixas de maneira lógica, se adequando às posições e dimensões das mesmas, sem nenhuma ação humana.

Robô acionado por identificação ótica de objetos

Robô acionado por identificação ótica de objetos

 

Palestra e insights

Com relação à série de palestras, destaque para o “Impacto da Robótica no Crescimento da Economia”, proferida pelo professor Henrik Christensen, da Georgia Institute of Technology, nos Estados Unidos. Foi muito instigante ao demonstrar que o surgimento de uma nova “onda” de robôs e automação está revolucionando os processos industriais e de distribuição física, conforme acima exemplificado.

Henrik Christensen, da Georgia Tech, apontou o surgimento de uma nova “onda” de robôs

Henrik Christensen, da Georgia Tech, apontou o surgimento de uma nova “onda” de robôs

 

Ele ressaltou que estamos em um processo de convergência e integração tecnológica que está sendo viabilizado pelo estágio atual de maturação de vários tipos de tecnologias de comunicação e informação introduzidas nas últimas décadas. Dentre as tecnologias em diferentes estágios de maturidade, podemos destacar: sistemas avançados de planejamento; RFID; GPS; Web EDI; código de barras 2D; identificação ótica de objetos; smart technology; comunicação entre máquinas; Big Data & Analytics Capabilities – relacionado à capacidade analítica de um volume extraordinário de dados para data mining e business intelligence; e processamento/armazenamento na nuvem, tecnologia baseada na comunicação wireless e via internet, incluindo o SaaS – software como serviço, da sigla em inglês. Isso sem contar os sistemas já bem difundidos que estão em constante evolução, como os ERP, TMS, WMS, gestão de estoque e de otimização e simulação.

Robô para montagem de paletes na operação de carregamento de carretas

Robô para montagem de paletes na operação de carregamento de carretas

É um cenário em que a produtividade está sendo elevada a patamares superiores aos atuais, com base em sistemas integrados mais ágeis, flexíveis, velozes, precisos, com in process inspection, de alta densidade e rápido set-up, que deverá chegar ao ponto de viabilizar um ambiente que Christensen chama de industrial internet, no qual se vislumbra uma infraestrutura conectada, sem fiação! Esse novo ambiente produtivo minimizará ainda mais o tradicional imperativo fordiano da “economia de escala”, ao dar maior ênfase ao potencial de “economia de escopo” em uma planta de manufatura, tornando-a economicamente viável ao configurá-la a fazer menores quantidades de maior variedade de produtos. É a customização em massa tornando-se possível em uma ampla gama de indústrias.

Do ponto de vista do supply chain, a convergência tecnológica implica num potencial de benefícios ao propiciar um melhor e mais intenso compartilhamento de informação entre parceiros (ex.: informação de pontos de vendas (POS) e ASNs – aviso antecipado de expedição) e uma maior visibilidade dos fluxos físicos, da capacidade do sistema, possibilitando a gestão efetiva de eventos. Esses benefícios se traduzem na redução nos estoques e transportes, bem como no aumento do nível de serviço ao cliente, e no consequente aumento de market share e lucratividade.

 

Reflexão

Via de regra, as montadoras automotivas já vêm há muito tempo experimentando um aumento de complexidade na produção, por conta de crescentes variantes de modelos, associadas à redução de tempo de ciclo de vida e maiores pressões para rápidos lançamentos no mercado. São inovações tecnológicas e de processos que têm possibilitado uma transformação nas estratégias de manufatura adotadas por corporações globais – de uma produção “empurrada”, calcada em economia de escala, para uma produção “puxada”, baseada em economia de escopo.

Esse novo ambiente tecnológico está por viabilizar, muito além da maior visibilidade, uma capacidade de resposta mais efetiva aos requisitos de segmentos de clientes, ao dar conta da volatilidade e rupturas de suprimentos ao longo do supply chain, a partir da formação de networks globais alicerçados em processos operacionais e decisórios integrados end-to-end.

Espera-se que, futuramente, a tecnologia dissemine o rastreamento de eventos a montante do primeiro nível de fornecedores, aliado ao monitoramento de indicadores de desempenho em tempo real, e possibilite a otimização dinâmica da cadeia de suprimentos. Imagine o impacto nos negócios ao chegarmos ao ponto de poder avaliar o custo total de servir segmentos específicos de clientes de maneira precisa e dinâmica, a partir de uma capacidade analítica turbinada por tecnologia da informação, suportando decisões com base no what if.

Atualmente, essa nova onda de produtividade, baseada em tecnologias emergentes, já está sendo sentida positivamente em termos de competitividade da indústria norte-americana, como um dos drivers do processo de near shoring – fenômeno de retorno da manufatura para perto dos mercados consumidores em países do ocidente, em particular de produtos de alto valor agregado. Como exemplo, a Apple anunciou recentemente investimentos de US$ 100 milhões na instalação de uma nova fábrica nos Estados Unidos, visando a uma estratégia de mitigação de riscos em suprimentos globais.

Nesse sentido, estamos observando uma reconfiguração de networks globais, muito influenciada pela adoção de estratégias corporativas de mitigação de riscos (ex.: rupturas de suprimentos globais por razões naturais e geopolíticas), fazendo as empresas adotarem redundâncias e contingências em suas redes globais de produção e distribuição. A visão é a construção de integração end-to-end do supply chain. Atualmente, é lugar-comum ler sobre corporações que estão diminuindo sua dependência do fator China, por conta do ambiente de incertezas.

Essa tendência de reconfiguração de cadeias globais está dando força ao já conhecido conceito de “glocalization”, que é a combinação dos termos “globalização” e “localização”, usado para descrever um produto ou serviço que é desenvolvido, produzido e distribuído globalmente, mas que é customizado localmente para atender o mercado de destino, incluindo requisitos específicos, tais como aqueles referentes à legislação ambiental, tributária, sanitária, de conteúdo nacional, bem como à diversidade das preferências dos consumidores locais.

O ambiente competitivo global tem suas raízes básicas em pressões que visam a custos decrescentes na produção e distribuição de produtos, e melhores serviços para atender às crescentes exigências dos consumidores por maior variedade, velocidade e confiabilidade, considerando a diversidade local. Para tal, as corporações capacitadas para se manterem relevantes no mercado tendem a localizar suas plantas de manufatura cada vez mais perto do mercado consumidor, levando-as ao desenvolvimento de fornecedores estratégicos e PSLs locais.

Em estudo recente realizado pela Associação Alemã de Logística (BVL, da sigla em alemão), essas corporações estão sendo compelidas ao desenvolvimento de supply chains eficientes, resilientes e crescentemente puxados pela demanda, por meio da orquestração de sua rede global. A confiabilidade dessas cadeias de suprimentos é sustentada por estratégias de mitigação de riscos e pela capacitação na gestão de networks globais complexos. Para tal, está sendo incorporado um arsenal tecnológico e de processos de planejamento e execução, estruturados e integrados, buscando níveis crescentes de produtividade e de sincronia ao longo da cadeia global, com vista ao atendimento local, da demanda final.

Vale a máxima do nosso saudoso guru em gestão de supply chain, Don Bowersox: “A ideia fundamental é manter-se relevante no mercado, fazendo mais com menos, até que se possa fazer tudo com nada!”. E a tecnologia tem papel fundamental nessa jornada de transformação dos negócios.

 

Conclusão

É nesse contexto que surge a oportunidade de internacionalização para empresas brasileiras, ao considerar sua inserção em networks globais, visando ao alinhamento ao contexto competitivo mundial e ao desenvolvimento de novos mercados. É de fundamental importância estar atento e preparado às inovações tecnológicas e de modelo de negócios que podem ameaçar a competitividade e até a sobrevivência da empresa. Por exemplo, a recente entrada da Amazon no Brasil certamente implicará num choque de competitividade no setor de vendas on-line do país.

Nesse sentido, é comum entre empresas líderes, norte-americanas e europeias, desenvolver alianças estratégicas com centros de excelência (incluindo universidades), além de participar em missões técnicas internacionais, trade shows (como a ProMat e a Automate) e associações internacionais renomadas, como o CSCMP/EUA e a BVL/Alemanha. O foco é buscar a atualização ampla e permanente em termos tecnológicos, assim como sobre tendências, estratégias e abordagens de gestão no supply chain e, assim, manter seus executivos preparados para uma competição cada vez mais globalizada e acirrada!