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Internet of Things (IoT) e Nanotecnologia: aonde iremos chegar em Supply Chain Management?

Ainda inspirado pela Campus Party Brasil 2016, comecei a divagar e a imaginar possíveis caminhos para o uso da tecnologia em Supply Chain Management no futuro. Obviamente, o uso de tecnologia já é uma realidade em nossa área e a grande maioria das empresas não conseguiria lidar com a complexidade de suas operações sem o uso de ferramentas tecnológicas. No entanto, há indícios suficientes para acreditarmos que estamos muito próximos de uma revolução provocada pela Internet of Things (IoT) e a Nanotecnologia.

Em outro post, já havia comentado sobre os possíveis impactos da IoT em nossa área, apresentando algumas iniciativas já existentes. No entanto, podemos tentar imaginar um futuro ainda mais distante com as ferramentas já disponíveis, incluindo aí a nanotecnologia, que promete revolucionar as atividades de embalagem, postergação e monitoramento e integração.

 

Embalagem

As embalagens são extremamente importantes para a movimentação de mercadorias, garantindo proteção e unitização. Além disso, com o uso de códigos de barras e etiquetas de RFID, é possível controlar os níveis de estoque e rastrear os produtos ao longo da cadeia de suprimentos. No entanto, a viabilidade econômica deste monitoramento só é possível, hoje em dia, a partir de um determinado nível de agrupamento mínimo de produtos, a partir do qual o custo de embalagem e rastreamento se torna factível.

Com a nanotecnologia, começa-se a vislumbrar a possibilidade de criarmos “escudos invisíveis”, formados por partículas microscópicas capazes de proteger os produtos em suas dimensões unitárias. Estas micropartículas podem funcionar também como sensores capazes de detectar e proteger a carga contra variações de temperatura e umidade, além de garantir rastreabilidade em toda a cadeia de suprimentos, inclusive nas casas dos consumidores.

O Vídeo 1 apresenta uma demonstração do funcionamento prático da nanotecnologia. A partir daí, podemos imaginar frutas e legumes “embalados” individualmente, protegidos de bactérias, umidade e calor, com shelf life muito maior, reduzindo desperdícios e custos na cadeia de suprimentos alimentícia, por exemplo.

Vídeo 1 – Uma demosntração muito seca

Fonte: Mark Shaw – TED Talk

 

Postponement

A nanotecnologia também promete revolucionar as práticas de postergação, tão importantes para a redução de estoques ao longo da cadeia de suprimentos. Hoje, a postergação é limitada a setores onde o prazo de entrega para o cliente permite a finalização do produto após a colocação do pedido, como na indústria automobilística. Também, em alguns casos mais raros, os armazéns podem funcionar como centros de finalização de embalagens e preparação de kits promocionais.

Em um futuro ainda distante, as nano partículas permitirão a customização do produto, como mudança de cor e mesmo de sabor, até mesmo para indústrias de fast-moving consumer goods (FMCG). A finalização poderá ocorrer durante o transporte e, sonhando mais alto, na própria casa do consumidor.

Integrado com o avanço da IoT, podemos imaginar que robôs de reposição de gôndolas (ou mesmo gôndolas “inteligentes e conectadas”) se comunicarão com o fornecedor para informar que determinada fragrância de sabão em pó está sendo consumida com maior velocidade, fazendo com que micropartículas sejam “ativadas” dentro das caixas de sabão em pó que já saíram do centro de distribuição.

 

Monitoramento e Integração

Sem dúvida alguma, é neste tema que mais podemos “viajar” quando pensamos no futuro do Supply Chain Management. Já é possível sonhar, fundamentados na tecnologia existente de IoT e Nanotecnologia, com a intercomunicação entre os diferentes “atores” da cadeia de suprimentos, que se auto coordenarão através de cloud computing e inteligência artificial.

É possível vislumbrar as informações de consumo fluindo diretamente dos produtos para drones e veículos autônomos, robôs de armazenagem e impressoras 3D. Rotas calculadas com precisão a partir de outros produtos que estão em trânsito. Reposição dos estoques com base no consumo real, não mais em previsões. Problemas operacionais, quebras e necessidade de manutenção informados diretamente pelos equipamentos e veículos. Preços ajustados automaticamente pela demanda e a capacidade disponível informada pelos recursos e produtos disponíveis.

Ficção científica? Vale a pena ver a entrevista com o professor Marcelo Zuffo, do departamento de engenharia de sistemas eletrônicos da escola politécnica da USP, no programa Roda Viva desta semana sobre as mudanças que o avanço da tecnologia trará para a vida das pessoas.

Vídeo 2 – Entrevista com o Professor Marcelo Zuffo

Fonte: TV Cultura – Roda Viva 25/01/2016

 

Referências

<https://www.ifama.org/files/20120066.pdf>

<https://www.ted.com/talks/mark_shaw_one_very_dry_demo>

<https://youtu.be/km7xL4IgR7k>

<https://www.ilos.com.br/web/internet-das-coisas-iot/>

<https://www.ilos.com.br/web/vamos-imprimir-mais/>

<https://www.ilos.com.br/web/postponement-como-mecanismo-de-reducao-de-estoques/>

<https://www.ilos.com.br/web/demand-driven-supply-chain/>

 

Postponement como mecanismo de redução de estoques

Há algumas semanas, o consultor Gabriel Cruz comentou sobre os efeitos da crise econômica brasileira no custo de estoque das empresas. Fatores como a queda da demanda, o aumento do erro na previsão de vendas e a elevação da taxa de juros básica fizeram com que o custo de oportunidade associado a guarda de estoques aumentasse consideravelmente, tornando-se mais uma preocupação para as empresas nesse momento difícil que o país vive. Neste cenário, uma prática de otimização do fluxo do processo logístico pode ajudar as empresas a reduzir a necessidade de estoques e enfrentar esse desafio. Trata-se do Postponement ou, como é conhecido em português, postergação.

O Postponement consiste em adiar o máximo possível qualquer deslocamento e/ou configuração final dos produtos e serviços na cadeia de suprimentos, ou seja, a ordem é aguardar a finalização do produto/serviço até o momento exato da definição do pedido do cliente. A ideia que sustenta este princípio é a de evitar a geração de estoques para uma grande variedade de produtos, postergando as atividades que criam variedade até o momento mais tarde possível.

A prática é conhecida na literatura acadêmica desde os anos 50, mas os relatos de casos de sucesso surgiram com maior intensidade na década de 90. Um dos mais famosos cases de sucesso vem da Dell. A fabricante de computadores pessoais sob encomenda pratica a postergação ao configurar sistemas de microcomputadores de acordo com as variações dos pedidos dos clientes sobre os modelos disponíveis. Assim, ela mantém estoque de poucos modelos e configura o sistema após o pedido do cliente, ofertando uma grande variedade de opções para o mercado, sem afetar seus estoques.

Outro exemplo vem da marca de roupas italiana Benetton. Mundialmente conhecida pelas cores fortes e contrastantes da sua linha de roupas, a Benetton não tinge seus produtos na hora de fabricá-los. Os produtos são, na verdade, transportados e armazenados na cor cinza (fundo neutro), recebendo o tingimento final pouco antes de serem levados às lojas. Tal procedimento permite a empresa reduzir custos e melhorar o nível de serviço percebido pelo cliente, uma vez que a probabilidade de haver peças sobrando em cores indesejadas ou faltando naquelas que são demandas a cada semana pelos clientes é consideravelmente reduzida.

Figura 1 - Propaganda Benetton

Figura 1 – Marca Benetton é famosa pelas suas roupas de cores chamativas

Fonte: Design Scene

 

A Suvinil, empresa nacional fabricante de tintas, pode ser apontada como uma das primeiras aplicações do postponement no Brasil. O processo da empresa é baseado na produção de 3 a 5 bases de tinta na fábrica e a composição de cores é feita no ponto de venda, através da máquina eletroeletrônica tintométrica, onde é programada a fórmula com a dosagem perfeita de corantes de acordo com a cor especificada pelo consumidor. Com 16 pigmentos é possível chegar a cerca de 2.000 cores. Este procedimento permite a Suvinil obter previsões de venda muito mais acuradas, uma vez a empresa precisa apenas prever a quantidade de latas de tintas vendidas no mês para cada uma das cerca de 5 bases e não de cada uma das 2.000 cores diferentes oferecidas.

Em pesquisa promovida pelo ILOS com empresas brasileiras e publicada no Panorama ILOS – Planejamento no Supply Chain 2015, foi possível perceber a adesão das empresas de diferentes segmentos à prática do Postponement. Empresas do setor químico e petroquímico se destacaram como as maiores adeptas da prática (83%) no país, seguidas do segmento eletroeletrônico e automotivo. Dentre todas as empresas perguntadas na pesquisa, apenas 46% afirmaram incorporar a postergação à estratégia de produção.

Figura 2 - ILOS

Figura 2 – Empresas que incorporam o postponement à estratégia de produção

Fonte: Panorama ILOS – Planejamento no Supply Chain 2015

 

Como indica a pesquisa, o postponement ainda tem muito espaço para crescer no país. A utilização da estratégia de postergação permite às empresas aumentar a acuracidade das suas previsões de venda, uma vez que a modularização de produtos possibilita a previsão de séries consolidadas, mais fáceis de serem previstas. Além disso, a empresa pode manter um estoque de produtos muito menor, sem que isso implique em redução do nível de serviço. Pelo contrário, o postponement muitas vezes permite que as empresas ofereçam ainda mais opções para o cliente e, principalmente, maior disponibilidade dos produtos que ele realmente deseja, evitando o encalhe de itens causado por vendas aquém do planejado de um determinado produto.

Com o aumento crescente da demanda por customização em massa, é esperado que cada vez mais empresas adotem o postponement em seu processo de negócios, chegando ao ponto das organizações utilizarem impressoras 3D para fabricar o produto no momento em que ocorre a demanda pelo cliente. Este é o postponement levado ao limite, e que parece ser a realidade do futuro. Para o presente, reduzir os níveis de estoque e os custos logísticos já é uma vantagem e tanto!

 

Referências

<https://www.ilos.com.br/web/juros-e-recessao-inimigos-do-custo-de-estoques/>

<https://www.ilos.com.br/web/analise-de-mercado/relatorios-de-pesquisa/planejamento-no-supply-chain/>

SAMPAIO, M. O poder estratégico do postponement. Tese (Doutorado em Administração) – Escola de Administração do Estado de São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, São Paulo. 2003. <http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/2536/86624.pdf?sequence=2&isAllowed=>

Curso Online ILOS de Gestão de Estoques

Gestão da cadeia de suprimentos / Eduardo Magalhães… [et al.] – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013.