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Quando centralizar e quando descentralizar o estoque?


Já escrevi aqui neste mesmo espaço sobre o dilema das empresas em produzir contra-pedido (make to order) ou produzir para estoque (make to stock). Mas, uma vez que a empresa entenda que esta última é a melhor alternativa para o seu negócio, onde esse estoque deve ficar localizado? É melhor manter o estoque disperso geograficamente e mais próximo aos clientes potenciais ou mantê-lo centralizado, reduzindo a necessidade de estoque?

Normalmente, quando as empresas decidem sobre a centralização ou a descentralização dos estoques, o seguinte paradigma permeia o processo de tomada de decisão: ao centralizar, os estoques de segurança são reduzidos porque a empresa ganha com a compensação da flutuação da demanda em diferentes regiões de mercado. Quando a demanda aquece em uma região e desaquece em outra, uma localização central permite a empresa “ganhar pela média”. Se os estoques estão descentralizados, a empresa corre o risco do desbalanceamento de estoques e de gastos adicionais com transferência de produtos.

Por outro lado, além da descentralização reduzir o tempo de resposta e a variabilidade do lead-time para o cliente, também são reduzidos os custos de transporte, uma vez que a empresa reduz a distância percorrida na última milha, que é a etapa mais cara de transporte.

E então, como tomar a melhor decisão? Para definir onde localizar o estoque, é importante que a empresa se atente a algumas características da demanda e do produto, além das exigências de serviço do cliente.

Características da Demanda

As características da demanda abrangem o giro e a variabilidade das vendas. Quanto maior for o giro do produto, ou seja, quanto menor for a cobertura do estoque de um lote de médio compra/produção, maior será a propensão para descentralização dos estoques, pois os riscos associados à obsolescência, perda ou encalhe de produtos são minimizados. Já os produtos com alto grau de variabilidade da demanda tendem a ser centralizados, pois quanto maior a variabilidade, maiores são as necessidades de estoques de segurança e a descentralização aumentaria ainda mais esta necessidade. Normalmente, produtos com ciclos de vida mais longos e pequeno número de substitutos apresentam um perfil de demanda mais previsível, tendendo a ter seus estoques descentralizados, pois seus riscos de encalhe de produtos são reduzidos.

Características do Produto

As características do produto abrangem o valor agregado e grau de obsolescência dos produtos. Quanto maior for o valor agregado, maior será a propensão para centralização dos estoques em uma única instalação, a fim de reduzir a duplicidade de custos associados à manutenção de estoques de segurança em diversas localidades. O mesmo acontece para o fator obsolescência: quanto maior for o grau de obsolescência, maior será a propensão para centralização dos estoques, a fim de reduzir os riscos de encalhe decorrentes de decisões equivocadas como, por exemplo, o envio de um produto específico para o armazém de uma região que não demanda aquele item. Por motivos como esse, é comum empresas de varejo centralizarem a armazenagem de aparelhos celulares em poucos Centros de Distribuição, uma vez que se trata de produtos de elevado valor agregado e algo grau de obsolescência.

Exigência de serviço

O nível de exigência do mercado também afeta a localização dos estoques, sendo caracterizado por duas dimensões básicas: prazo de entrega e disponibilidade do produto. Prazos de entrega mais curtos e consistentes são alcançados mais facilmente através da descentralização física, isto é, da localização dos estoques mais próxima ao cliente final. A descentralização, no entanto, pode afetar a disponibilidade, pois aumenta a dificuldade de gerir os estoques em diversos pontos. Quando os estoques estão descentralizados, variações locais afetam o estoque diretamente, enquanto os estoques centralizados absorvem melhor as variações, pois elas se compensam entre si. Assim, para garantir um mesmo nível de disponibilidade de produtos através de uma rede descentralizada é necessário um nível de estoque superior, o que demanda um maior dispêndio financeiro da companhia.

A imagem a seguir sintetiza como cada atributo impacta na decisão de localização do estoque de um produto:

Imagem: Atributos a serem consideradas no momento de posicionamento do estoque
Fonte: ILOS

 

Em resumo, não existe uma resposta certa. Cada empresa possui uma realidade e dentro da uma própria empresa cada produto tem suas características, que vão levar a decisões diferentes. Inclusive um mesmo produto vai ter características que irão sugerir a centralização e outras irão direcionar para a descentralização. Neste caso, a empresa deve pesar cada uma e entender quais são aquelas mais importantes.

 

Referências:

Curso Online ILOS – Gestão de Estoques

Crise econômica e logística: é hora de reavaliar os ativos, as equipes, indicadores e a malha!

A partir do início dos anos 2000, aproveitando um cenário externo favorável, vimos a economia brasileira crescer, expandindo seu mercado interno e aumentando o faturamento das empresas de diversos setores. Este período de relativa bonança econômica parece ter chegado ao fim, advindo uma crise econômica severa e prolongada, como sinalizam todos os indicadores divulgados diuturnamente pela imprensa.

Além do claro desafio de lidar com uma queda acentuada na demanda, as empresas precisam também “calibrar” suas estruturas operacionais para este novo cenário. É natural que, em períodos de rápida expansão da demanda, as empresas tenham que tomar decisões de contratação, aquisição de ativos e ampliação de malha logística com uma preocupação menor em relação aos custos. No desafiador cenário que se apresenta, entretanto, é fundamental revisar algumas destas escolhas.

Ativos

Muitas empresas, frente ao desafio de atender a um número maior de clientes, com aumento dos volumes e com a farta oferta de crédito do BNDES e isenções fiscais para compra de veículos automotores, aumentaram e modificaram o perfil de suas frotas. Este movimento, aparentemente adequado para enfrentar o desafio de manter o nível de serviço e diminuir o impacto do aumento do frete ocasionado pelo crescimento da demanda sem um crescimento proporcional da capacidade de distribuição do país, pode significar uma perda de eficiência fundamental no cenário de crise.

O aumento do custo de capital, resultante da escalada das taxas de juros, é outro fator crítico que potencialmente muda a decisão sobre a propriedade dos ativos. Além disso, o excesso de capacidade é um perigoso indutor de ineficiências, na medida em que cria a ilusão de que os planos de curto prazo podem ser “acomodados” pela capacidade ociosa existente, como se o replanejamento não tivesse custo algum, uma vez que os ativos já estão disponíveis. Um grave erro!

Equipes

Em um cenário de competição por recursos humanos, as empresas costumam aumentar o pacote de valor para atrair e reter seus funcionários, como também diminuem o nível de exigência na qualificação de seus quadros mais operacionais. É notório, também, que a velocidade de qualificação profissional no Brasil ficou aquém do necessário para acompanhar o crescimento do mercado. Não à toa, figuramos nas últimas colocações nos rankings internacionais de produtividade da mão-de-obra, que piorou ao longo da primeira década dos anos 2000, período de maior crescimento da economia brasileira.

É natural, neste momento de crise, que ocorra algum enxugamento do quadro de funcionários da área de operações das empresas, privilegiando-se os recursos mais capacitados e “produtivos”. Será possível também observar uma “dança das cadeiras” nos níveis executivos, com enxugamento dos benefícios e salários oferecidos. No entanto, ao invés de simplesmente demitir seus colaboradores, tendo elevados custos trabalhistas para o desligamento e posterior recontratação, as empresas deveriam avaliar com seriedade a possibilidade de aproveitar este momento para qualificação de seus quadros.

Indicadores

Os indicadores de desempenho são importantes para mensurar o desempenho da operação e apontar os rumos e correções necessárias. No entanto, indicadores que são adequados para um cenário podem não fazer sentido quando mudanças significativas ocorrem. Por exemplo, em um cenário de expansão da demanda, a empresa poderia medir o percentual de pedidos completos que consegue atender no prazo acordado com o cliente ou, reconhecendo uma grave limitação de capacidade, o volume total vendido ou o número de pedidos. Com isso, comunicaria para suas equipes que o importante é a eficácia do processo, buscando o máximo de sua capacidade, mesmo que de forma ineficiente.

Com a crise, o balanceamento entre capacidade e demanda é invertido, e talvez não seja difícil atender os pedidos no prazo com os recursos disponíveis. Mas isto indica que está tudo bem? Assim, ao invés de medir a eficácia, é mais importante medir a eficiência do processo de atendimento, medindo o custo por pedido ou cliente atendido. A palavra passa a ser eficiência!

Malha Logística

O aumento da demanda obrigou muitas empresas a ampliarem suas malhas logísticas, sobretudo porque o crescimento não foi uniforme em todas as regiões do país. Historicamente, a demanda sempre foi muito concentrada nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, onde as empresas construíram a maior parte de suas instalações fabris e de distribuição. Com o crescimento mais acentuado nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, houve a necessidade de abrir novas instalações mais próximas destes clientes, que se tornaram representativos.

O problema é que o crescimento da malha logística se dá, muitas vezes, de forma orgânica, sem o devido cuidado na elaboração dos projetos e orientado apenas pela obtenção de benefícios tributários. Obviamente, a questão tributária deve fazer parte de qualquer estudo sério de malha logística no Brasil, mas a decisão não deve ser casuística. Assim, este período de crise exige uma revisão no número, tamanho e localização das instalações para validar, ou alterar, as decisões tomadas no cenário de crescimento. É provável que a alteração de algumas premissas estruturais do modelo possa alterar significativamente a solução ótima.

Assim, a crise nos empurra inexoravelmente para uma revisão da estrutura e práticas na área de logística, exigindo soluções criativas e uma busca ainda mais intensa pelo aumento da produtividade e eficiência de nossas operações. Não é tempo apenas de esperar, é tempo de agir e tomar boas decisões para superar este momento e construir um caminho de crescimento!