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Starbucks e inteligência artificial: ganhar produtividade para focar na interação com o cliente

O desenvolvimento de competências de inteligência artificial é um dos principais pilares da estratégia digital e da visão de futuro do Starbucks. Kevin Johnson, CEO desde 2017, diz ainda que ambicionam ser referência no assunto, até o ponto em que possam comparar sua própria performance àquela das gigantes de tecnologia.

Diferentemente do McDonalds, que tem realizado aquisições, o Starbucks optou por desenvolver essas habilidades internamente, e em parceria com a Microsoft. A iniciativa de AI (Artificial Intelligence) da empresa foi formada em 2017, e se chama “Deep Brew”. Segundo Johnson, a visão da empresa permitiu que o Starbucks recrutasse alguns dos melhores talentos, atraindo candidatos que, em um passado recente, preferiam se juntar às grandes empresas de tecnologia.

Os principais objetivos são melhorar a experiência do consumidor através de personalização, além de “libertar” a mão-de-obra de tarefas administrativas e de backend, para que possam focar na interação com os clientes. Segundo Johnson, “Não se trata de robôs que substituem baristas. Se trata de uma tecnologia que libera tempo dos baristas, para que possam se conectar melhor com o consumidor.”

Atualmente, a tecnologia é utilizada nos EUA para o dimensionamento da força de trabalho (prever quantas pessoas são necessárias por dia em cada filial), e também para automatizar os pedidos de reposição de estoque nas lojas, de forma que os itens certos sejam disponibilizados nas filiais certas.

No que diz respeito à experiência do cliente, a tecnologia é utilizada para personalizar ofertas e recomendações no aplicativo da empresa, com expansão para os menus digitais nos restaurantes e para os drive thrus. O sistema foi construído de forma interligada com os dados de estoque das lojas, de forma a minimizar a frustração dos consumidores com itens em falta.

O mecanismo de recomendação faz uso de dados “regionais” (itens populares no local, clima, hora do dia, dia da semana, se é feriado ou não, por exemplo), e é aperfeiçoado à medida em que o aplicativo é utilizado. Através da análise dos itens comprados e da reação do usuário às ofertas anteriores, o algoritmo pode “entender” que um cliente é vegetariano, ou que tem uma preferência por produtos sem lactose, por exemplo. Além de considerar os ingredientes e categorias de produto comprados, também é avaliada a sensibilidade do consumidor à itens de maior ou menor preço.

Através de técnicas de aprendizagem por reforço, quanto mais transações o usuário realiza no aplicativo, mais as recomendações se aproximam de suas preferências, tanto no que diz respeito aos ingredientes e categorias de produto quanto à preço. Para mais detalhes, confira a apresentação feita pela empresa no evento Microsoft Build em 2019.

Nos drive-thrus e nos restaurantes, a tecnologia não conta com o histórico individual dos usuários como no aplicativo. Porém, segundo a Microsoft, serão utilizados 400 critérios a nível de cada filial para gerar as recomendações.

A empresa também tem investido em dispositivos IoT (internet of things) em suas filiais. Cada loja do Starbucks possui pelo menos uma dúzia de equipamentos (entre máquinas de café, moedores e liquidificadores), que devem estar em condições operacionais por cerca de 16 horas por dia. Falhas em qualquer um desses equipamentos implicam não só em aumento de custos, mas também podem prejudicar a experiência do consumidor.

Em parceira com a Microsoft, a empresa transformou seus equipamentos em dispositivos IoT, que coletam dados desde o tipo de grão de café utilizado, até a temperatura da bebida, qualidade da água e pressão do equipamento. A empresa tem utilizado os dados para assegurar a padronização dos produtos ao longo das milhares de lojas, além de utilizá-los para criar planos de manutenção preditiva dos equipamentos.

Outro uso encontrado pela empresa foi a distribuição de receitas de café diretamente para as máquinas, o que antes era feito manualmente com pendrives para cada filial (para fins de segurança). “Pense na complexidade – precisamos chegar a 30.000 lojas em quase 80 mercados para atualizar essas receitas”, diz Jeff Wile, VP sênior de retail and core technology services.

O Starbucks é uma empresa que não foge quando o assunto é tecnologia, e o fato de terem conseguido recrutar profissionais e desenvolver competências internamente é um grande diferencial, especialmente quando a mão de obra de profissionais de inteligência artificial é escassa e a concorrência acirrada.

Referências:

Mobile Marketer – How Starbucks uses AI to counter mobile’s isolating effect. https://www.mobilemarketer.com/news/how-starbucks-uses-ai-to-counter-mobiles-isolating-effect/570384/

QSR Magazine – Why AI is a ‘Differentiator for the Future’ at Starbucks. https://www.qsrmagazine.com/fast-food/why-ai-differentiator-future-starbucks

Big Data Beard – I’ll take my Starbucks with a shot of AI. https://bigdatabeard.com/ill-take-my-starbucks-with-a-shot-of-ai/

Microsoft – Starbucks turns to technology to brew up a more personal connection with its customers. https://news.microsoft.com/transform/starbucks-turns-to-technology-to-brew-up-a-more-personal-connection-with-its-customers/

CIO Dive – Starbucks’ AI project is turning past investments into data insights. https://www.ciodive.com/news/starbucks-ai-project-is-turning-past-investments-into-data-insights/566362/

Transformação digital no supply chain do McDonalds: machine learning para entender, antecipar e influenciar a demanda

Em março de 2019 o McDonalds comprou a Dynamic Yield – startup israelense que desenvolve tecnologias voltadas para personalização da experiência do cliente – por 300 milhões de dólares. A empresa desenvolve inteligências de recomendação com base em machine learning, que está sendo utilizada pelo McDonalds nos displays digitais dos drive-thrus para alterar recomendações de acordo com o horário do dia, clima ou itens populares no momento, por exemplo.

Em 2018 a empresa testou a tecnologia em algumas filias nos EUA, com o objetivo de expansão para todas as lojas norte americanas, seguida pelos principais mercados internacionais. A iniciativa vai além da implementação apenas nos drive-thrus, visando todos os canais digitais, como os quiosques de auto-atendimento e o aplicativo global da empresa.

Sete meses depois da compra da Dynamic Yield, em outubro de 2019, a tecnologia já tinha sido aplicada em 9.500 drive-thrus norte americanos, com a meta de finalizar a implementação em todas as filiais dos EUA e da Austrália no fim do mesmo ano.

O McDonalds espera alavancar vendas ao melhorar a experiência de compra do consumidor. A técnica de upselling é algo bem comum na indústria de fast food. Quem nunca foi ao McDonalds e ouviu “Gostaria de aumentar a batata por mais X reais?”. A tecnologia da Dynamic Yield permite que a empresa faça justamente isso, porém de maneira mais inteligente, eficiente e, principalmente, personalizada. Ao possuir dados em tempo real da operação, a empresa pode não somente reagir melhor às necessidades dos consumidores, como também as prever ou influenciá-las.

Além de incremento em receita, a tecnologia também tem o potencial de beneficiar a cadeia de suprimentos da empresa. Se os sistemas e dados da cadeia forem integrados, os principais impactos estão no planejamento da demanda e na possível redução de stock out nos restaurantes. Imagine que uma loja está com níveis muito baixos de estoque do filé de frango do McChicken, seja por erro de previsão ou por problemas de abastecimento. A empresa pode então remover o item temporariamente dos displays, desincentivando a demanda para reduzir o risco de ruptura. Dessa forma, a tecnologia dá ao McDonalds o poder de influenciar a demanda em cada ponto de venda, seja para melhorar a experiência do consumidor e alavancar vendas, ou para cobrir falhas operacionais ou de planejamento.

A possibilidade de reduzir o stock out é especialmente relevante no caso de novos produtos ou de itens sazonais (como os sanduíches da Copa do Mundo), uma vez que é muito difícil prever esse tipo de demanda, ainda mais no nível de filial.

A compra da Dynamic Yield foi uma das grandes ações da empresa de investimento em tecnologia, mas não foi a única. Outras incluem a aquisição de 9,9% (3,7 milhões de dólares) da Plexure (startup de software mobile) em abril de 2019, e a compra da Apprente (avaliada entre 10 e 50 milhões de dólares em 2018) em setembro de 2019 (startup que desenvolve tecnologias de voz com inteligência artificial – o objetivo é automatizar a tomada de pedido nas lojas).

Junto a esses investimentos, o McDonalds também está se transformando do ponto de vista organizacional. Em 2019 a empresa formou o McD Tech Labs (um laboratório tecnológico no Vale do Silício, composto por parte da equipe da Apprente), e no começo de 2020 começou a formar um time focado em engajamento do cliente para os canais digitais, o qual será responsável pelos temas de tomada de pedido, personalização, pagamentos, fidelidade e delivery. As equipes já existentes de tecnologia de marketing e global delivery se juntarão a esse novo time, que será liderado por Lucy Brady, VP sênior de corporate strategy e business development que passará a atuar como chief digital customer engagement officer.

Referências:

CNBC – McDonalds creates digital customer engagement team as part of its tech push. https://www.cnbc.com/2020/01/08/mcdonalds-creates-digital-customer-engagement-team-as-part-of-its-tech-push.html

McDonalds – Q3 2019 earnings call. https://s22.q4cdn.com/972634687/files/doc_downloads/2019/10/CORRECTED-TRANSCRIPT-McDonald’s-Corp.(MCD-US)-Q3-2019-Earnings-Call-22-October-2019-11-00-AM-ET.pdf

Restaurant Dive – McDonald’s buys Dynamic Yield for $300M to improve drive-thru experience. https://www.restaurantdive.com/news/mcdonalds-buys-dynamic-yield-for-300m-to-improve-drive-thru-experience/551316/

Restaurant Dive – McDonald’s acquires AI tech company Apprente. https://www.restaurantdive.com/news/mcdonalds-acquires-ai-tech-company-apprente/562595/

Supply Chain Dive – How McDonald’s super sizes its data for an optimized supply chain. https://www.supplychaindive.com/news/mcdonalds-AI-demand-planning-supply-chain-optimization/553185/