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A importância de uma logística sustentável durante e após a pandemia


Neste post vamos falar sobre como a pandemia trouxe à tona questões importantes a respeito da sustentabilidade empresarial, como os consumidores ficaram mais exigentes a respeito das medidas socioambientais implantadas pelas empresas, e como a logística pode contribuir para um impacto socioambiental positivo.
A sustentabilidade empresarial vem sendo apontada como um dos focos das empresas no cenário pós-pandemico. Não é à toa, que 85% dos brasileiros opinam que a proteção do meio ambiente deve ser uma prioridade do governo no plano de recuperação do país após a pandemia, e que o banco dos Brics anunciou um financiamento de US$1 bilhão ao governo brasileiro para auxílio a programas sociais de combate ao COVID-19.

Antes da pandemia chegar ao país, a sustentabilidade era vista como uma das tendências para 2020. Um estudo publicado pela IBM em janeiro já indicava que os consumidores estavam dispostos a pagar 35% mais por produtos sustentáveis e transparentes. Porém, com a chegada da crise do COVID-19, os investimentos em sustentabilidade foram deixados de lado.

A crise do coronavírus deu luz a vários problemas socioambientais que podem ser observados ao redor do mundo. Os diferentes níveis de dificuldade no enfrentamento do vírus estão diretamente ligados às alarmantes desigualdades sociais. Por outro lado, durante o isolamento social praticado por grande parte das empresas, e a consequente diminuição do número de veículos nas ruas, foi possível observar um maior equilíbrio dos ecossistemas naturais. Ambos os exemplos deixam claro que a maneira como estamos atuando, em tempos normais, é insustentável.

Outra consequência da crise do coronavírus foi o aumento da quantidade de lixo domiciliar e hospitalar gerado no país. Segundo a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), as medidas de isolamento social devem representar um aumento de 15% a 25% na produção de resíduos sólidos (lixo orgânico e reciclável) nas residências, enquanto que para o lixo hospitalar estimasse um crescimento de 10 a 20 vezes. O aumento do lixo domiciliar é influenciado em parte pelo aumento das compras online e, consequentemente, pelo aumento do número de embalagens que vem com esses produtos. Além disso, a coleta seletiva, que é um dos principais métodos de evitar que o lixo gerado tenha piores consequências para o meio ambiente, teve seus serviços paralisados durante a pandemia em várias cidades por conta do risco de contaminação dos funcionários pelo COVID-19 ao manusear o lixo.

Tendo esse cenário em vista é de extrema importância que as empresas busquem utilizar a menor quantidade de embalagens possível para seus produtos e busquem fazer uso de materiais recicláveis para suas embalagens.

Para o momento pós-pandêmico, vai ser importante que as companhias invistam em logística reversa para diminuir os impactos ambientais causados por seus produtos e suas embalagens. A implementação da logística reversa já é obrigatória para uma série de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, como os dos setores de agrotóxicos e de produtos eletroeletrônicos, porém é importante que inclusive as empresas que não são obrigadas por lei a praticá-la, também invistam nessa prática.

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Figura: A importância da logística reversa no cenário pós-pandêmico. Fonte: eSales

A logística reversa é uma solução para a redução da poluição, estimulo à reciclagem, redução da exploração de matéria-prima virgem (já que os produtos recolhidos podem muitas vezes ser reutilizados como matéria-prima por suas próprias cadeias ou por outra cadeia), diminuição da emissão de CO2, etc. Além de todos esses impactos ambientais positivos que essa prática promove, a logística reversa também traz vantagens sociais, já que ao ser implementada por sistemas que trabalham com cooperativas, contribui para a profissionalização, aumento de renda e promove melhores condições de vida para catadores de materiais recicláveis. Por último, além das vantagens ambientais e sociais, essa prática também contribui para melhorar a imagem da empresa frente ao mercado, representando um diferencial competitivo e, consequentemente, atraindo consumidores cada vez mais preocupados com questões socioambientais.

Existem diversas outras práticas que podem fazer com que a logística da sua empresa seja mais sustentável, como a otimização da roteirização do transporte de carga, utilização de energia solar para os armazéns, contratação de mão de obra local, modernização da frota, etc. Muitas dessas medidas além de sustentáveis, também promovem a redução de custos logísticos no curto ou longo prazo, ou seja, além de representar uma vantagem competitiva, também contribuem para um aumento na margem de lucro da empresa.

O mundo está mudando, e os clientes estão cada vez mais engajados com relação à proteção do meio-ambiente e à diminuição das desigualdades sociais e eles esperam o mesmo engajamento das empresas das quais eles consomem. Portanto, é de extrema importância que a sua empresa comece a investir em práticas mais sustentáveis para provocar um impacto positivo no mundo e também para não perder relevância no mercado. Não fique de fora dessa mudança!

Referências:

– Estadão – Banco do Brics elege a sustentabilidade como foco dos investimentos no pós-pandemia
– Folha de São Paulo – Coronavírus desafia sustentabilidade com maior acúmulo de lixo caseiro e hospitalar
– IBM – Estudo IBM: Consumidores pagarão em média 35% a mais por produtos sustentáveis e de procedência transparente em 2020
– Ipsos – Para 85% dos brasileiros, proteção do meio ambiente deve ser prioridade na retomada pós-pandemia
– POLEN – Sustentabilidade empresarial: a grande tendência pós-COVID

Reuso de embalagens: necessidade latente e oportunidade de negócio


O reuso de embalagens é uma das grandes vertentes da economia circular – modelo econômico que preza pela produção sustentável de bens e serviços, com a otimização do uso de recursos e com a redução dos resíduos gerados. O termo “circular” sugere o conceito de reuso, se opondo ao modelo tradicionalmente linear em que extraímos recursos, produzimos, consumimos e jogamos fora. É claro que podemos reciclar os materiais, e a reciclagem exerce um papel relevante, mas não é suficiente. Mesmo que certos gargalos sejam superados, a quantidade de lixo que geramos é monstruosa. Daí a necessidade de soluções circulares, que cortam o problema pela raiz ao alterar os padrões e formatos atuais de consumo.

Em 2017, a primeira análise global sobre a produção de plásticos foi publicada no journal Science Advances. O estudo determinou que até então tínhamos produzido 8,3 bilhões de toneladas de plástico, e que, até 2015, foram geradas 6,3 bilhões de toneladas de resíduos plásticos, sendo que apenas 9% foram reciclados, 12% incinerados, e 79% foram se acumulando em aterros ou no meio ambiente. Se esta tendência for mantida, a estimativa é que o acúmulo chegue a 12 bilhões de toneladas de resíduos plásticos em 2050. Se enchêssemos carretas com esse volume de lixo e colocássemos uma do lado da outra, conseguiríamos dar 200 voltas ao redor da Terra! É tanto lixo que, mesmo tentando colocar em escala, ainda fica difícil de tangibilizar.

Hoje, grande parte das embalagens são utilizadas apenas uma vez antes de serem descartadas. Assim, a problemática do reuso de embalagens é um dos principais pontos que precisa ser atacado para construirmos um mundo mais sustentável. Porém, a temática não é só ambiental. Em 2019, a Ellen McArthur Foundation estimou que converter 20% das embalagens plásticas em modelos reutilizáveis soma uma oportunidade de negócios da ordem de 10 bilhões de dólares.

O assunto, seja pela relevância ambiental, social ou econômica, não é de hoje. Uma das formas que o problema tem sido abordado é através de supermercados sustentáveis, sem embalagens e com vendas a granel. Recentemente, o Henrique Alvarenga falou sobre a alemã Original Unverpakt, criada em 2014. Hoje, há cerca de 500 supermercados no mundo que seguem o conceito de desperdício zero, e você pode consultar a base de dados levantada pela Bepakt.

Nos últimos anos, temos visto muitas iniciativas no mercado. Em 12 de agosto de 2020, a Nivea anunciou o teste de quiosques para refil de sabonetes líquidos para banho. O teste está sendo feito na Alemanha em parceria com uma rede de drogarias, em farmácias selecionadas. O processo envolve uma máquina, a estação de refil e funciona da seguinte maneira: o consumidor pega uma embalagem vazia da estação, a enche com uma das duas opções disponíveis de sabonete, e uma etiqueta é impressa para que se possa fazer o pagamento. Na próxima compra, o consumidor traz a embalagem para reuso, e esse processo de refil pode ser feito até três vezes, por questões sanitárias (há um código de barras especial para garantir que o limite seja respeitado). Quando a embalagem atinge o nível máximo de reuso, o cliente a entrega no caixa e, em troca, recebe uma nova embalagem e ganha um refil gratuito.

reuso de embalagens - refil da Nívea - ILOS-Insights Figura 1: Reuso de embalagens em estação de refil da Nivea. Fonte: Beiersdorf

Também em 2020, no fim de maio, a Nestle começou a testar estações de refil de rações pet e de café solúvel em três lojas da sua marca na Suíça. Em 2019, vimos a parceria da Unilever com a Algramo, startup chilena que vende produtos alimentícios e de higiene através de máquinas de refil e também através de unidades móveis, que circulam por bairros enchendo garrafas reutilizáveis de produtos como OMO. No mesmo ano, a The Body Shop (comprada pela Natura em 2017), também testou uma estação de refil em Londres. O fator sustentabilidade se faz especialmente forte na indústria de beleza e cosméticos, principalmente no relacionamento da marca com as gerações mais novas, que já entraram em mundo no qual a informação é instantânea e todos estão interconectados.

Apesar das diversas iniciativas que temos visto serem animadoras, não podemos deixar de mencionar os desafios que esses novos modelos trazem para o supply chain. Como já mencionado pelo Henrique Alvarenga, o formato de venda a granel poderia exigir a revisão dos formatos de armazenagem nos centros de distribuição, de quais equipamentos são necessários para carga e descarga nos CDs e nos PDVs, do processo de reabastecimento das gôndolas nos supermercados… E isso tudo garantindo o atendimento das normas de vigilância sanitária. No caso das estações de refil, há ainda o próprio supply chain dos equipamentos, que são máquinas pesadas e de grandes dimensões. Repensar as etapas das cadeias de suprimento seria fundamental para que esses formatos de venda se tornem escaláveis.

Há ainda uma consideração muito anterior à adaptação do supply chain, que é o entendimento da jornada do consumidor. A sociedade atual é sim mais consciente e mais exigente quando o assunto é sustentabilidade, mas nenhuma solução ganha adoção em massa se não for conveniente ou se não resolver algum problema deste consumidor. Na verdade, há mais lados nessa equação do que somente as pessoas, pois há também a figura do varejista. Quantas máquinas de refil são suficientes para não gerar filas no supermercado de pessoas esperando para encher as embalagens? Quantos funcionários a mais os supermercados vão precisar para lidar com eventuais problemas com essas máquinas, ou para realizar a venda a granel? Quais varejos efetivamente possuem espaço de loja disponível para ter diversas máquinas?

Uma iniciativa que aborda o problema de outra forma é a plataforma Loop, desenvolvida pela Terracycle em um esforço de quase um ano junto a gigantes de bens de consumo como P&G, Nestle, Pepsico, Unilever, Danone e Mondelez. A plataforma, que começou os pilotos em maio de 2019, fornece um serviço de delivery de produtos em embalagens reutilizáveis, e inclui também a coleta e a limpeza dos recipientes. As embalagens são projetadas para cerca de 100 usos, e o modelo envolve um depósito por parte dos consumidores, o qual é devolvido para a conta dos clientes quando as embalagens são retornadas. Além da sustentabilidade, a plataforma está conquistando os consumidores também pela estética das embalagens. O quesito design tem sido um grande chamariz para atrair clientes.

reuso de embalagens - desodorantes da Unilever - ILOS Insights Figura 2: Desodorantes da Unilever nas embalagens reutilizáveis da plataforma Loop. Fonte: Loopstore

A plataforma está em expansão no varejo e já opera nos EUA com as redes Walgreens e Kroger, na França com o Carrefour e no Reino Unido com a Tesco. Em breve, as operações se iniciarão também no Canadá, Austrália, Alemanha e Japão. O portfólio limitado foi uma das principais reclamações dos clientes no piloto, o que é resolvido com a venda nos grandes varejistas, pois, mesmo que não haja um produto Loop, o cliente pode fazer a compra do item que normalmente faria. A visão da startup é que o modelo escale de forma similar ao que aconteceu com produtos orgânicos nos EUA, que começaram com pequenas seções dentro dos mercados e foram cada vez mais crescendo em categorias e ganhando mais espaço. Nesse modelo de varejo, o consumidor traz as embalagens para o mercado, sem precisar limpá-las, e já compra produtos embalados direto das prateleiras. No que tange ao supply chain, serão desafiadoras a logística reversa das embalagens e a gestão dos estoques na cadeia. Ainda há muitos desafios, mas a perspectiva é promissora.

Uma das falas do CEO da TerraCycle na Conferência Anual da Personal Care Products Council, realizada em março de 2020, ilustra de forma muito clara o porquê de o programa parecer tão promissor: “Precisa ser o mais próximo possível de um sistema descartável. É preciso parecer descartável, mas ser reutilizável. Então, quando você termina, não tem que limpar, não tem que separar, você joga no lixo e ele é coletado, mas ao invés de ir para um aterro sanitário ou para reciclagem, é reutilizado”. Para efetivamente fazer a diferença, as iniciativas de sustentabilidade precisam ser escaláveis, e é perfeitamente possível, mas não trivial, construir modelos de negócio que sejam rentáveis e sustentáveis. Porém, para ser escalável, é preciso olhar para a jornada do consumidor e tentar resolver seus problemas, do mesmo modo como construímos nossos produtos e serviços para o mercado no mundo empresarial.

Não deixe de participar do 26º Fórum Internacional Supply Chain, que acontecerá de 13 a 15 de outubro e será 100% online. Lá serão debatidos quatro temas que também vêm agitando o dia a dia dos executivos de logística no Brasil: Reinventando o Supply Chain, a Transformação Digital do Supply Chain, Transporte e Infraestrutura e E-commerce e o Novo Varejo.

Impactos do decreto 10.388 de logística reversa de medicamentos


Após 10 anos de discussão, foi assinado no dia 5 de junho de 2020 o decreto nº 10.388, o qual institui o sistema de logística reversa de medicamentos vencidos ou em desuso e suas embalagens após o descarte pelos consumidores. O documento inclui toda a cadeia logística do setor farmacêutico, impactando fabricantes, importadores, distribuidores e consumidores, segundo os termos do decreto nº 7.404 de 2010. A medida visa redução de danos ao meio ambiente, pois cada quilograma despejado incorretamente pode contaminar até 450 mil litros de água, segundo o Preservômetro, responsável por medir os resultados do Plano de Logística Reversa da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa).
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Figura – Após 10 anos de discussão, decreto de logística reversa de medicamentos é assinado. Foto: Pexels

Se as empresas do ramo farmacêutico já sofriam prejuízos em relação ao custo da perda do produto (valor despendido em sua fabricação, embalagem e distribuição), pois a logística reversa desse setor não permite a realocação e revenda dos medicamentos devido a suas características químicas e biológicas, a aplicação desse decreto pode trazer alguns outros impactos financeiros para as empresas do ramo farmacêutico. O primeiro deles seria em relação aos custos de transporte, necessários para retornar os itens dos pontos de coleta para as fábricas. Além disso, é preciso considerar os valores gastos tanto com a mão-de-obra como para a destinação final desses materiais, que podem ser por incineração, por coprocessadores ou por aterros sanitários de classe I, segundo determinado pelo decreto. Esses custos, se não forem controlados, podem provocar a diminuição das margens de lucro das farmacêuticas.

Antes de sua assinatura, não existia um acordo setorial com validade em todo o país sobre esse assunto, mas algumas medidas já eram seguidas. Em São Paulo, por exemplo, as fábricas instaladas precisam, até 2021, atingir a meta de 3,03 kg de medicamentos por ponto de coleta e ter 80% dos municípios com mais de 100 mil habitantes com pelo menos um ponto de entrega para cada 20 mil habitantes, com risco de não renovação ou não emissão das licenças ambientais caso não seja cumprido. Em conjunto, outro projeto que ocorria em paralelo era o Programa Descarte Consciente, da Brasil Health Service (BHS), que coletou e destinou corretamente 500 toneladas em 10 anos de atuação (até junho de 2019), sendo o maior projeto de coleta de medicamentos vencidos ou em desuso do Brasil.

O decreto estabelece sua aplicação em 2 fases. Na primeira delas, iniciada no dia de vigor do documento, serão instituídos grupos de performance, responsáveis por implementar os sistemas de logística reversa e estruturar sistemas de monitoramento através relatórios anuais sobre o volume de medicamentos retornados e destinados de maneira ambientalmente correta. Já na segunda fase, que deve iniciar 120 dias após a conclusão da primeira fase, serão habilitados os prestadores de serviço, planos de comunicação e a instalação de pontos fixos de coleta nas farmácias e drogarias, nos quais caberá aos consumidores realizar o descarte.

As entidades do mercado farmacêutico, como a Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abrandilan), demonstraram apoio a essa medida, considerado um passo importante para cuidar da agenda ambiental urbana. Segundo o presidente executivo da Associação Brasileira do Atacado Farmacêutico (Abafarma), Oscar Yazbek Filho, conseguiu-se chegar a uma solução técnica e economicamente viável, que processa os melhores ganhos para o meio ambiente. Segundo ele, o modelo é eficiente, pois o medicamento deve percorrer o mesmo caminho feito para chegar até a destinação final, diminuindo os impactos ao meio ambiente. Foi um trabalho em conjunto das entidades para mitigar os impactos provocados pela proposta original.

 

Referências:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Decreto/D10388.htm

https://www.newcastlesys.com/blog/the-hidden-costs-of-reverse-logistics#:~:text=In%20addition%20to%20providing%20a,company’s%20bottom%20line%20as%20well.

https://pfarma.com.br/noticia-setor-farmaceutico/mercado/5707-logistica-reversa-medicamentos.html

https://panoramafarmaceutico.com.br/2020/06/09/decreto-de-logistica-reversa-e-publicado-e-bhs-celebra-500-toneladas-de-medicamentos-ja-coletados/

https://panoramafarmaceutico.com.br/2019/09/05/logistica-reversa-de-medicamentos-e-oportunidade-para-varejo-prestar-servico-a-consumidor/

Pode trocar? As soluções e práticas das empresas para a logística reversa

Hoje já é comum encontrar pessoas buscando produtos em lojas de varejo tradicional, mas realizando a compra em ambiente virtual e vice e versa. Esse novo comportamento do consumidor tem desafiado as empresas a integrar, efetivamente, o físico com o virtual para gerar uma experiência fluída para o cliente final. Empresas de todo o mundo introduzem novos modelos de negócio e tecnologias para apoiar as operações e cumprir a promessa da disponibilidade de produtos a fretes baixos independente do canal. Casos de novas soluções não faltam, Amazon com seu recente Amazon Flex (leia mais no post da Thatiana Nomi), transformação de lojas em mini hubs, como a Target e a Magazine Luiza, o surgimento de inúmeros aplicativos que conectam empresas, entregadores e consumidores, e até casos como a FedEx que anunciou testes com o SameDay Bot, robôs autônomos para entregas de curta distância.

Entretanto, todas essas tecnologias e novidades pouco endereçam um dos grandes desafios das empresas que trabalham com esse mundo omnichannel: a questão dos retornos e troca de produto. Apesar de o transporte da famosa last mile ser uma das etapas mais custosas da operação, a devolução crescente de produtos impulsionada pelo crescimento do e-commerce, apesar de não ser um tema novo, torna-se um desafio cada vez mais relevante.

Estima-se que o custo anual nos Estados Unidos com logística reversa seja de cerca de US$ 200 bilhões¹ e que represente aproximadamente 5% do faturamento de empresas brasileiras².

Apesar disso, no Brasil há poucas operações maduras quando se fala em logística reversa. Em geral as empresas fazem acordos com os Correios no caso de retorno B2C ou contratam transportadoras para retornar os produtos em casos de B2B, em ambos os casos são geradas perturbações nas operações de armazenagem e gestão de estoque, resultando em retrabalho e custos altos envolvidos.

Internacionalmente, as práticas relacionadas ao fluxo reverso, seja do varejo tradicional seja do comercio online, já estão mais consolidadas, com novas soluções sendo propostas.

Uma prática comum nos Estados Unidos são as empresas de recolocação de produtos no mercado. São produtos de fora da estação ou de devolução de diferentes lojas, muitas de marca, que são revendidos a preços mais baixos em redes de varejo especializadas na reposição de produtos. Esse é o modelo de lojas como a Ross, Marshalls e a Century21.

Também é comum observar na Europa e nos Estados Unidos armazéns centralizados dedicados à logística reversa, onde há grandes volumes de compras online e o fluxo de retorno é representativo o suficiente para justificar a construção de instalações dedicadas a essa operação.

Um ponto importante para se atentar são as características do produto. Para o caso de produtos de linha branca, em geral empresas preferem enviar técnicos para tentar resolver o problema sinalizado pelo cliente. Produtos de baixíssimo valor agregado, em geral, não são recolhidos pois o custo de recolher supera o valor do produto, preferindo reembolso ou envio de um novo produto. Essa política de envio de um novo produto em caso de defeito para evitar os custos da logística reversa, entretanto, tem seus riscos. Essa foi a lição aprendida pela Amazon em 2018, quando foi descoberto um esquema de fraude nos retornos, no qual clientes, alegando mercadoria defeituosa, recebiam novas remessas e as revendiam em mercados paralelos. Esse esquema resultou em uma perda de mais de US$ 1.2 milhões para empresa, um maior rigor em sua política de retorno e seis anos de prisão para os fraudadores³.

Outra alternativa é o uso de pontos de retorno no qual o cliente leva o produto que deseja trocar e que posteriormente será recolhido, gerando pontos fixos para coleta e maior volume. Essa é a estratégia proposta pelo Walmart com suas lojas nos Estados Unidos e da Amazon com a parceria com a rede Whole Foods. Esse é o serviço que empresas como a Happy Returns oferecem. São pontos independentes instalados em locais estratégicos e de fácil acesso para o cliente em que diferentes empresas podem usar como ponto de retorno, e a Happy Returns faz a etapa de recolha pois ganha escala juntando o volume reverso de diferentes empresas.

Todas essas alternativas, entretanto, ainda são pouco exploradas no Brasil, existindo um grande gap de eficiência do fluxo reverso e de visibilidade do mesmo. Apresenta-se na gestão da logística reversa, portanto diversas oportunidades de geração de diferencial competitivo para as empresas e de novos negócios para start-ups e incumbentes que podem explorar nesse fluxo uma fonte de renda e de fidelização.

Referências

¹ Delloite https://www2.deloitte.com/content/dam/Deloitte/be/Documents/process-and-operations/BE_POV_Supply-chain-strategy_20140109.pdf acessado em 12/07 às 11:37
² http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/gastos-com-retorno-de-produtos-chegam-a-5-do-faturamento,d1ee438af1c92410VgnVCM100000b272010aRCRD
³ https://www.engadget.com/2018/06/06/amazon-return-policy-abusers-sentenced-six-years-prison/

Logística Reversa em Hospitais: o caso do Hospital Moinhos de Vento

No mês de setembro ocorreu o XXIII Fórum Internacional de Supply Chain em São Paulo, reunindo os principais especialistas e empresas do setor. Ao longo dos três dias, ocorreram palestras, workshops e cases sobre os mais variados temas, desde empreendedorismo com as start-ups mais inovadoras do mercado até a execução de estratégias omnichannel com líderes de suas indústrias.

Uma das palestras que mais chamou a atenção foi sobre o setor de saúde, mais especificamente sobre a logística reversa em hospitais. Ela foi apresentada pelo Hospital Moinhos de Vento, que fica em Porto Alegre e é um dos principais hospitais privados do país. Em um setor que movimentou, em 2014, R$ 496 bilhões, representa 10% do consumo de energia do país e gerou mais de 10 mil toneladas de resíduos em 2015, o HMV promoveu algumas iniciativas inovadoras para reciclagem e reaproveitamento dos resíduos hospitalares.

Quando se fala em responsabilidade social e ambiental corporativa, o primeiro ponto que devemos ter atenção é o chamado Triple Bottom Line, que aponta os três pilares que as empresas devem sempre buscar: i) o social, entendendo que a sociedade, seja ela representada pela população do entorno da empresa, clientes ou funcionários, devem ser respeitados; ii) o ambiental, dado que os recursos naturais não são infinitos e são fundamentais para as operações das empresas; e iii) econômico, pois as empresas e projetos devem fundamentalmente gerar lucros. Tendo em vista estas três prerrogativas, é sempre um desafio buscar iniciativas que tenham objetivos ambientais e sociais, mas que também sejam viáveis economicamente.

Figura 1 – Triple Bottom Line

Fonte: ILOS

 

O HMV conseguiu, em seu projeto de criação de uma Central de Transformação de Resíduos, atender ao Triple Bottom Line através da criação de processos de coleta, triagem, tratamento, armazenamento e geração de valor, que investiu R$ 1,5 milhão e tem capacidade de tratar 2 mil toneladas de resíduos por ano.

O processo de descarte, que antigamente era majoritariamente direcionado para aterros sanitários, hoje é diferenciado para cada tipo de resíduo. Os papéis, por exemplo, que são usados em abundância em hospitais, estão sendo coletados nas diversas áreas administrativas, para depois serem levados a um parceiro, que os transforma em papel higiênico para serem utilizados nas próprias áreas administrativas do hospital. Materiais plásticos, como polipropileno e pet, são triturados e acondicionados para depois serem transformados em vassouras e sacos plásticos, também com auxílio de parceiros. Os restos de alimentos se transformam em adubos usados na horta do próprio hospital, criando um ciclo fechado de reaproveitamento. Por fim, os resíduos mais críticos, chamados de grupo A ou infectantes: primeiro são esterilizados, em seguida triturados e processados para geração de células de energia, que são posteriormente utilizadas na geração de gás para o aquecimento da água do hospital.

Além dos benefícios ambientais e sociais advindos do direcionamento e processamento dos resíduos, o hospital já economizou mais de R$ 300 mil em seis meses. Dado os investimentos, os gestores do hospital informaram que o payback deste projeto é de menos de um ano, o que aponta para a viabilidade econômica da iniciativa.

A criação de um método que agregasse valor aos resíduos hospitalares configura uma interessante inovação no setor de saúde, que poderia ser replicado em outros players do setor. Para mais informações sobre logística reversa, indico o post da Gisela sobre o custo ambiental e a Política Nacional de Resíduos Sólidos, e também os Panoramas da coleção ILOS: Logística Reversa e Logística Verde.

 

Referências:

Apresentação Hospital Moinhos de Vento no XXIII Fórum Internacional de Supply Chain

Custo ambiental entrará na conta do consumidor

Em 2010, foi promulgada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que indica a obrigatoriedade do tratamento adequado de todos os resíduos pós-consumo, ou seja, tudo que consumimos deve ser reaproveitado ao máximo, devendo ser a última alternativa o uso de aterros. Segundo a PNRS, essa destinação adequada é responsabilidade compartilhada entre indústria, comércio, governo e consumidor final. Ou seja, assim como na Europa, o entendimento é de que todos os envolvidos com a disponibilização, o uso e a disposição do produto são responsáveis pelo seu impacto ambiental.

custo ambiental - Wikipedia - blog ILOS

Figura 1 – Lixões estão com os dias contados no Brasil

Fonte: Wikipedia

Nesse contexto, as indústrias de vários segmentos estão se organizando para colocar a operação de logística reversa para funcionar. Cada associação de indústrias discutiu alternativas operacionais com o governo, que definiu metas de implantação de infraestrutura de coleta para os 5 primeiros anos e uma meta inicial de volume de retorno a partir do sexto ano de operação.

Em linhas gerais, a maioria dos segmentos está se organizando através de entidades gestoras. As entidades gestoras serão responsáveis por colocar a operação de logística reversa para funcionar, contratando transportadoras, centros de distribuição, recicladoras e alinhando com o comércio a alocação de pontos de coleta. O consumidor, então, deveria levar o resíduo até o ponto de coleta, fechando, assim, o ciclo reverso.

Os custos dessa operação de logística reversa fará parte do custo do produto, dado que cada indústria terá que pagar para as entidades gestoras um valor fixo, chamado de ecovalor, para garantir a destinação adequada. Esse ecovalor pode ser integralmente ou parcialmente repassado para o consumidor final dentro do preço do produto, sendo essa decisão uma opção de cada empresa.

As entidades gestoras mais recentemente criadas foram a Reciclus (Logística Reversa de Lâmpadas) e a Green Eletron (Logística Reversa de computadores e celulares), estando ainda em etapa de organização dos testes operacionais para, em breve, iniciarem a implantação da operação de logística reversa.

Distribuição Cinematográfica: Como um filme chega a um cinema perto de você

A logística e a sétima arte – Trilogia / Parte 1

No próximo domingo, dia 28, ocorrerá a mais famosa cerimônia de premiação de produções cinematográficas, o Oscar. Você provavelmente conhece um pouco do processo de produção e pós-produção de um filme, que pode custar centenas de milhões de dólares. Porém, os filmes só existem para serem assistidos e para que isso aconteça, as imagens devem chegar de algum modo às pessoas que queiram vê-lo, seja na telona do cinema ou em suas TVs, sentadas no conforto do sofá de suas salas. Enquanto não tivermos o tele transporte como o da Enterprise, é a logística que cumpre esse papel fundamental.

Os estúdios, responsáveis por toda a produção, devem mandar o filme pronto à distribuidora, que irá divulgar, comercializar e distribuir o longa para cinemas do mundo todo. Após o término da produção, são feitas as cópias de projeção, que podem ser os tradicionais filmes de 35 mm, bem raros hoje em dia (mas que ainda foi usado para distribuir filmes como Interestelar), ou versões digitais, que são cada vez mais comuns no cinema moderno.

A distribuição em filme tradicional costuma ser um processo difícil e relativamente caro. Em uma produção de larga escala (com média de duas horas de duração), o custo de cada cópia pode chegar a U$ 2.000 e este valor é ainda maior quando colocadas as legendas para exibição em outros idiomas. Os rolos armazenam cerca de 20 minutos de projeção, o que significa que longas-metragens podem ter de 5 a 10 tiras de película. O peso total do filme e a fragilidade do papel também dificultam e encarecem a distribuição.

Senhor dos Anéis

Figura 1 – Os 558 minutos e vários rolos da trilogia O Senhor dos Anéis (2001 -2003) deram muito trabalho às transportadoras

Fonte: New Line Cinema

 

A partir do fim do século XX, começou a transição para a projeção digital. A produção de uma cópia nesse formato, que consiste em um HDD contendo o filme, é quase 50 vezes mais barata que as cópias fílmicas, fazendo com que o transporte e a armazenagem também se tornem muito mais baratos, graças principalmente às reduções de volume e peso. Além disso, os discos rígidos podem ser reutilizados para outros filmes.

Essa economia obviamente foi muito sedutora às grandes distribuidoras e às transportadoras do ramo, mas muitos cinemas se recusavam a instalar equipamentos de projeção digital pelo seu alto custo. Para distribuir a economia gerada pelo novo modelo, foi criada uma taxa que é paga semanalmente pelas distribuidoras às redes de cinema para exibição em formato digital. É uma análise interessante de como funciona uma cadeia de suprimentos bem integrada, com as novas tecnologias sendo benéficas a todos os elos.

Isso não significa que o processo em si ficou simples. O volume transportado e armazenado ainda é bastante grande, principalmente para grandes produções. Há ainda a questão da confidencialidade do material, pois um vazamento do conteúdo pode causar grandes perdas na venda de ingressos por conta da pirataria. Em apresentações para imprensa e outras exibições antes do lançamento, o transportador da película chega a ficar parado em um único cinema esperando a projeção acabar para levar o filme de volta, de forma minimizar o risco de roubo do material, um procedimento conhecido como “wait and watch” feito por operadores logísticos especializados na área.

pallets

Figura 2 – Nada ilustra melhor a logística do cinema que um pallet com filmes

Fonte: National Film Transport

 

Por esse mesmo motivo, e pelo já mencionado reaproveitamento dos HDDs, após as exibições nos cinemas, é realizada uma operação reversa de devolução do filme às distribuidoras após a janela de exibição nos cinemas. A figura abaixo mostra um esquema simplificado da operação de distribuição da cadeia cinematográfica:

cadeia cinematografica

Figura 3 – Esquema da cadeia logística cinematográfica

Fonte: ILOS

 

Apesar dessas inovações, algumas questões de marketing causaram mudanças no processo de distribuição dos filmes ao longo das décadas e também recentemente. Os cineastas e grandes estúdios têm uma pressão cada vez maior para levar seus filmes a mais mercados e em um tempo menor. Na segunda parte desta trilogia, discutiremos alguns dos desafios que o mercado apresenta à distribuição cinematográfica.

 

Referências

<http://entertainment.howstuffworks.com/movie-distribution.htm>

<https://stephenfollows.com/how-much-does-it-cost-to-release-a-film/>

<http://www.nftlogistics.co.uk/?t=WaitAndWatch>

<http://www.telegraph.co.uk/culture/culturevideo/filmvideo/11206259/Interstellar-on-an-Imax-projector-how-it-works.html>

Saindo do armário

Há algumas semanas atrás escrevi sobre algumas iniciativas de omni-channel realizadas no Brasil, que, mesmo sendo praticadas de forma isolada, sinalizavam que o país estava olhando nesta direção. Pois bem, uma matéria publicada na última edição na Revista Tecnologística indicou que mais uma prática chegará por aqui neste ano que se inicia: os lockers, uma evolução tecnológica das antigas caixas postais.

Também conhecidos como terminais inteligentes, os lockers são equipamentos de autoatendimento nos quais os consumidores podem retirar as compras realizadas online de forma prática e segura, além de poderem realizar serviços agregados como compra de ingressos e pagamento de contas. Estas máquinas, que já fazem sucesso em países como Polônia, Lituânia e Alemanha, tornaram-se ainda mais famosas com a incorporação do serviço pela gigante do varejo virtual Amazon.

O serviço conhecido como Amazon Locker existe desde 2011 nos Estados Unidos e está presente hoje em 13 grandes cidades do país. Dependendo do produto comprado, o cliente pode solicitar que o pedido seja entregue em um locker da Amazon de sua escolha. Selecionando essa opção, ele receberá um e-mail de notificação quando o produto estiver disponível no terminal, informando o horário de funcionando do locker e o código que ele deverá inserir na máquina para desbloquear o pedido. O cliente tem até 3 dias úteis para retirar o seu pacote, caso contrário o produto será recolhido pela Amazon e o valor pago reembolsado para o cliente.

Amazon Locker

Figura 1 – Amazon Locker localizado em uma loja de conveniência em Nova York

Fonte: Wikipédia

 

Até o momento não existe nenhum serviço do tipo no Brasil, mas duas empresas já se mobilizaram para iniciar as suas operações ainda em 2016 no país: a ThinPost e a InPost. O objetivo de ambas é alugar as máquinas através de pacotes flexíveis de negócio para operadores logísticos, distribuidores, varejistas e empresas de comércio eletrônico que desejam ter presença física em locais estratégicos da cidade e de grande circulação de pessoas, como shoppings, aeroportos, rodoviárias, estações de metrô e lojas de conveniência.

Uma das principais vantagens dos lockers é a comodidade que eles oferecem para os consumidores que desejam comprar online, mas não tem pessoas que fiquem em casa para receber as encomendas. No Brasil, a figura do porteiro 24h nos edifícios e condomínios ainda é muito presente, o que reduz este problema. Entretanto, fora do país isto não é tão comum. Prova disso é que na França, 60% das compras online são retiradas pelos clientes em lojas físicas.

Além disso, quando olhamos para a tendência omni-channel do varejo, os terminais inteligentes oferecem ainda um outro enorme benefício: através deles, os clientes podem devolver produtos que compraram online, mas que não gostaram ou compraram errado. Um caso interessante nesse sentido é o da varejista de moda feminina inglesa Asos, que acoplou um provador ao locker, permitindo às clientes experimentarem os modelos no momento seguinte ao recebimento dos pedidos e devolverem na hora os itens que não gostaram. Esta iniciativa permitiu à empresa reduzir os custos de logística de reversa e também o tempo de produto indisponível para venda.

Neste momento em que os consumidores buscam serviços cada vez mais completos e um maior leque de opções para facilitar a sua vida, a adoção dos lockers pode se tornar um grande diferencial para os varejistas do Brasil. Além de garantir maior satisfação para o cliente, os lockers também ajudam na otimização da operação de distribuição, pois várias entregas que antes seriam distribuídas para diferentes lugares, passam a ser entregues em um único ponto. As vantagens parecem muitas, mas será que a caixa postal 2.0 irá fazer mesmo sucesso por aqui? É esperar pra ver!

 

Referências

GIURLANI, S. A reinvenção da caixa postal. Revista Tecnologística, São Paulo, Ano XXI, n. 241, p. 52-54, dez.2015/jan. 2016

<https://www.vertexsmb.com/insights/amazon-locker-delivery-triggers-sales-tax/>

<www.amazon.com/locker>

 

Omnichannel e a logística reversa como fatores-chaves de fidelização de clientes

Omni-channel está mudando, e de maneira significativa, a forma como os clientes interagem com os varejistas. Neste ambiente, os consumidores optam livremente pelo canal de compra, assim como pela forma de receber o pedido. Eles esperam ter experiências que superem suas expectativas, independentemente de suas escolhas pelos canais de compra (ex.: compra via computadores, smartphones ou varejo tradicional) e entrega (ex.: entrega via locker, em sua residência ou retirada na loja).

Neste contexto, as altas expectativas se estendem ao processo de retorno do pedido, que, se realizado satisfatoriamente, representa uma oportunidade única para promover a fidelização de clientes. Caso contrário, esta etapa pode se tornar um “convite” para a destruição da reputação de varejistas pelos clientes, agora multiconectados via redes sociais, fomentando as vendas da concorrência.

Em um Webinar da Harvard Business Review (HBR), reproduzido no vídeo abaixo, o Professor Dale Rogers descreve por que o processo de devolução é tão importante para o sucesso de empresas líderes.

Vídeo 1 - HBR (blog ILOS) v3

Vídeo 1 – Omnichannel Retailing: Reverse Logistics and Customer Loyalty

Fonte: HBR

 

Dale Rogers é professor de Supply Chain Management da Arizona State University e líder em práticas de Sustentabilidade e Finanças em Supply Chain Management do ILOS.

DESENVOLVIMENTO DO MERCADO SECUNDÁRIO NO BRASIL E AS OPERAÇÕES DE LOGÍSTICA REVERSA

 

Além das atividades de coleta e transporte, faz parte do contexto das operações de logística reversa a destinação dos produtos.

Existem várias alternativas para destinação, dentre as quais: Outlets, leilões, intermediários, lojas de R$1.99, multimarcas, mercados de pulgas, penhor, remanufaturas/reformas e reciclagem.

O presente artigo tem com objetivo trazer uma visão geral do mercado secundário no Brasil, comparando-o com os EUA.

 

LOGÍSTICA REVERSA

Segundo Dale Rogers e Tibben-Lembke, a logística reversa pode ser organizada em 2 tipos: logística reversa de produtos e de embalagens.

 

Cada indústria tem um perfil e um volume diferente de retornos a ser tratado dentro do âmbito da logística reversa. A Tabela 1 ilustra diferenças no percentual de retorno de produtos por indústria levantadas com base em entrevistas com as empresas nos EUA (Dale Rogers e Tibben-Lembke).

 

Tabela 1 – Percentual de retorno por indústria

Tabela 1 – Percentual de retorno por indústria

 

Cada indústria tem diferentes origens para operação logística reversa, podendo ser estas:

  • Sobra de produto no estoque próprio ou de parceiros (itens não vendidos)
  • Retornos de marketing
  • Retorno referente ao fim do ciclo de vida do produto/Fim da “temporada”/”estação”
  • Retorno devido a danos de transporte
  • Retorno do consumidor/cliente devido a defeito
  • Retorno do consumidor/cliente devido às políticas de garantia de retorno
  • Recall
  • Questões ambientais de eliminação e destinação

O tratamento escolhido para cada qual dessas diferentes origens de retorno é definido com base em diferentes motivadores. Ou seja, cada empresa, a depender da percepção de impacto dos seus retornos para o negócio podem tomar diferentes decisões quanto a sua operação reversa.

A Tabela 2 ilustra os principais motivadores para logística reversa citados pelas empresas entrevistadas em pesquisa realizada nos EUA (Dale Rogers e Tibben-Lembke).

Tabela 2 – Motivadores para Logística Reversa

Tabela 2 – Motivadores para Logística Reversa

Para uma empresa de vestuário de baixo preço que tenha um volume significativo de produtos não vendidos nas lojas, pode ser uma boa alternativa colocar preços promocionais nas peças que sobraram para tentar vende-las, mesmo que a um menor preço, aproveitando que estas peças estão nas lojas, evitando assim logística reversa.

No entanto, para uma outra empresa do ramo de vestuário cujo produto seja de alto valor agregado, colocar preços promocionais muito baixos para liquidar o item não vendido na própria loja pode não ser uma boa alternativa de marketing. Muitas empresas nessas condições preferem direcionar suas sobras para canais de venda secundários, como outlets ou multimarcas, de forma a não canibalizar a venda dos demais produtos da loja ou não gerar a percepção no cliente de que o valor dos produtos da loja são muito inferiores ao preço praticado.

Nesse contexto, vale ainda indicar que em linhas gerais, os volumes de retorno são proporcionais aos volumes de venda ou, melhor, aos volumes pretendidos de venda. Nesse contexto, quanto maiores esses volumes, mas relevante é a organização das operações de logística reversa.

Observando o desenvolvimento do tema de logística reversa nos EUA, verifica-se que sua organização começou a se dar de forma mais forte há cerca de 1980. Nessa época, começaram a se formar grande operadores logísticos focados nesse tipo de operação, como a GENCO, por exemplo, assim como, começaram a surgir os outlets como forte canal secundário.

Em uma comparação simplificada, verificamos através da Figura 1 que os volumes comercializados nos EUA na década de 80 são similares aos volumes praticados no Brasil atualmente. Isso nos indica que estamos entrando em um momento econômico onde as discussões e direcionamentos das operações reversas das empresas atuantes no Brasil estão chegando em momentos relevantes.

Dentre essas discussões encontra-se a busca por alternativas para coleta, transporte e direcionamento dos volumes de retorno.

Figura 1 – Comparação do PIB Brasil, EUA e União Européia

Figura 1 – Comparação do PIB Brasil, EUA e União Européia

 

O direcionamento das sobras/retornos pode ser feito para o chamado “Mercado Secundário”.

 

MERCADO SECUNDÁRIO: Brasil vs EUA

Mercado secundário é composto por canais secundários, ou seja, por um conjunto de canais de venda alternativos para o direcionamento de retornos/sobras de forma a minimizar a canibalização das vendas nos canais primários da empresa e a viabilizar a máxima recuperação de valor dos itens retornados.

Figura 1 – Comparação do PIB Brasil, EUA e União Européia

Figura 2 – Canais do mercado secundário

 

Com base em pesquisa realizada nos EUA pelo professor Dale Rogers da Universidade de Rutgers em New Jersey e no Brasil em pesquisa realizada pelo ILOS, verificamos que a representatividade do mercado secundário nos EUA é de cerca de 2,6% do PIB enquanto que no Brasil é ainda de cerca de 0,3% do PIB.

A Figura 3 ilustra a representatividade dos canais secundários nos EUA e Brasil, excluindo os canais de remanufatura/reforma, reciclagem e disposição final.

Figura 3 – Representatividade dos Canais Secundários nos EUA e Brasil

Figura 3 – Representatividade dos Canais Secundários nos EUA e Brasil

 

INTERMEDIÁRIOS

Verificamos que a participação dos “intermediários” no mercado secundário brasileiro ainda é muito pequena.Os intermediários são as empresas que compram da indústria e/ou varejo em grandes quantidades para depois revender os produtos para canais específicos. Ou seja, em grande parte das vezes é o intermediário que faz o processo de triagem e direcionamento dos produtos para os demais canais secundários. Isso simplifica a operação para a indústria e varejo que vendem todo o volume para uma única empresa, limpando rapidamente seu canal primário e liberando espaço em seus centros de distribuição.

No entanto, nem todas as empresas direcionam seus volumes para intermediários. Algumas empresas organizam internamente seu processo de triagem e direcionamento de produtos. Em diversos casos, essa atividade é realizada por um operador logístico especializado aumentando o valor recuperado pelo direcionamento direto dos produtos.

 

LEILÃO

Um canal muito relevante no mercado secundário é o leilão. São, tradicionalmente, sites através do qual a empresa coloca o item a venda por um valor mínimo e então recebe lances pelo produto. Atualmente, em muitos desses sites de leilão, como o Mercado Livre por exemplo, as negociações baseadas em preço fixo estão crescendo mais rápido que as baseadas em preço variável (lances), já descaracterizando o título de “leilão”.

Os leilões tem sido muito utilizados, não somente para logística reversa de ativos já depreciados, mas em muitos casos de produtos com pequenos defeitos. É comum encontrar a venda conjuntos de aparelhos de microondas ou máquinas de lavar que retornaram ao varejista ou indústria devido a pequenos defeitos como riscos em sua lataria.

No Brasil o maior site de “leilão” é o Mercado Livre, cujo faturamento chega a US$1,9 bilhão. Além do C2C, o Mercado Livre diversas empresas utilizam o mercado livre como canal secundário e as vezes até como canal primário.

Sites como a Amazon também são considerados canais secundários, pois viabilizam a venda de produtos usados ou de coleções antigas, apesar de hoje já ser um espaço utilizado fortemente para hospedagem de pequenas lojas e lojas de departamentos.

 

MULTIMARCAS

 No que diz respeito ao uso de lojas multimarcas n o mercado secundário verificamos que os EUA tem, além de pequenas lojas, grandes redes como, por exemplo, a Ross Dress for Less, Marshalls e a Century 21. Essas redes trabalham com a venda de vestuário e acessórios para casa majoritariamente de coleções antigas (coleções de 2 ou mais anos atrás) para grandes marcas do mundo (Dior, Jean Paul Gaultier, Armani, etc).

Para se ter ideia do tamanho desses negócios nos EUA, vamos citar o exemplo da Ross Dress for Less que faturou em 2013 US$10,2 bilhões e tem 1.146 lojas físicas. A empresa surgiu em 1986 em São Francisco e teve crescimento acelerado entre 2001 e 2010.

A Marshalls assim como a T.J. Maxx e outras grandes lojas de descontos fazem parte do grupo TJX Companies que em 2012 já tinha mais de 900 lojas nos EUA, 3.000 lojas no mundo, chegando a um faturamento da ordem de US$26 bilhões. Para manter o link com a situação no Brasil, vale a pena citar que a T.J.Maxx, primeira loja do grupo, surgiu na década de 70, época cujo volume comercializado nos EUA era próximo do atual volume brasileiro.

No Brasil, temos ainda pequenas lojas multimarcas independentes e o início da participação de grandes players com atuação online, como o Privalia ou o Westwing. Muitas marcas ainda utilizam as lojas multimarcas quase que exclusivamente como canal primário para acesso ao consumidor de cidades pequenas, onde não valeria a pena manter uma loja própria.

 

OUTLET

Outro canal secundário muito comum nos EUA, para itens de vestuário são os Outlet Malls. Os outlets malls são shopping centers cujas lojas tem como foco a venda de coleções antigas (até 2 coleções atrás). Nesse caso, diferente dos ambientes multimarcas, o outlet possui lojas exclusivas por marca. Os EUA possuem mais de 200 outlet malls enquanto que no Brasil temos cerca de 5 atualmente.

Segundo os grandes grupos de shopping centers instalados no Brasil há previsão de crescimento de 100% no número de outlets no país nos próximos 5 anos.

 

PENHOR

Um outro canal secundário onde se verifica grande diferença entre EUA e Brasil é o penhor. Enquanto nos EUA é um canal muito comum, a relevância do penhor como mercado secundário no Brasil é pequena, principalmente, devido às restrições legais. No país, apenas a Caixa Econômica Federal é autorizada a realizar operações de penhor e só se pode penhorar jóias ou itens de alto valor. Nos EUA é possível penhorar qualquer tipo de item e há diversas lojas autorizadas a realizar o procedimento. De toda forma, o penhor é um canal reverso de uso mais comum do consumidor, havendo poucas empresas que utilizem esse canal.

 

CONCLUSÕES

O mercado secundário no Brasil está em início de desenvolvimento, podendo-se fazer um paralelo ao contexto americano da década de 80.

Devido ao aumento nos volumes de comercialização, a representatividade dos retornos/sobras deve aumentar gerando a necessidade de maior organização e esforço nas operações de logística reversa.

Com o crescimento das operações reversas um desafio mais forte começa a existe e a fomentar o mercado secundário: a necessidade de alternativas para direcionamento dos retornos/sobras de forma a recuperar o máximo de valor possível sem canibalizar os canais primários.

No âmbito desse mercado, verificou-se o desenvolvimento de seus diversos canais, sendo os mais os leilões e outlets os com maiores tendências de crescimento.

As redes de multimarcas, principalmente as online, também demonstram potencial de crescimento no país, mas acabam por depender do desenvolvimento de bons intermediários para se estabelecer com bom posicionamento e não se encontra grandes intermediários no Brasil nesse momento.

Em linhas gerais, pode-se imaginar, o desenvolvimento do mercado secundário brasileiro em linha com o histórico americano o que traz grandes desafios e oportunidades para os profissionais e empresas envolvidos com o tema.