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Custo ambiental entrará na conta do consumidor

Em 2010, foi promulgada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que indica a obrigatoriedade do tratamento adequado de todos os resíduos pós-consumo, ou seja, tudo que consumimos deve ser reaproveitado ao máximo, devendo ser a última alternativa o uso de aterros. Segundo a PNRS, essa destinação adequada é responsabilidade compartilhada entre indústria, comércio, governo e consumidor final. Ou seja, assim como na Europa, o entendimento é de que todos os envolvidos com a disponibilização, o uso e a disposição do produto são responsáveis pelo seu impacto ambiental.

custo ambiental - Wikipedia - blog ILOS

Figura 1 – Lixões estão com os dias contados no Brasil

Fonte: Wikipedia

Nesse contexto, as indústrias de vários segmentos estão se organizando para colocar a operação de logística reversa para funcionar. Cada associação de indústrias discutiu alternativas operacionais com o governo, que definiu metas de implantação de infraestrutura de coleta para os 5 primeiros anos e uma meta inicial de volume de retorno a partir do sexto ano de operação.

Em linhas gerais, a maioria dos segmentos está se organizando através de entidades gestoras. As entidades gestoras serão responsáveis por colocar a operação de logística reversa para funcionar, contratando transportadoras, centros de distribuição, recicladoras e alinhando com o comércio a alocação de pontos de coleta. O consumidor, então, deveria levar o resíduo até o ponto de coleta, fechando, assim, o ciclo reverso.

Os custos dessa operação de logística reversa fará parte do custo do produto, dado que cada indústria terá que pagar para as entidades gestoras um valor fixo, chamado de ecovalor, para garantir a destinação adequada. Esse ecovalor pode ser integralmente ou parcialmente repassado para o consumidor final dentro do preço do produto, sendo essa decisão uma opção de cada empresa.

As entidades gestoras mais recentemente criadas foram a Reciclus (Logística Reversa de Lâmpadas) e a Green Eletron (Logística Reversa de computadores e celulares), estando ainda em etapa de organização dos testes operacionais para, em breve, iniciarem a implantação da operação de logística reversa.

Omnichannel e a logística reversa como fatores-chaves de fidelização de clientes

Omni-channel está mudando, e de maneira significativa, a forma como os clientes interagem com os varejistas. Neste ambiente, os consumidores optam livremente pelo canal de compra, assim como pela forma de receber o pedido. Eles esperam ter experiências que superem suas expectativas, independentemente de suas escolhas pelos canais de compra (ex.: compra via computadores, smartphones ou varejo tradicional) e entrega (ex.: entrega via locker, em sua residência ou retirada na loja).

Neste contexto, as altas expectativas se estendem ao processo de retorno do pedido, que, se realizado satisfatoriamente, representa uma oportunidade única para promover a fidelização de clientes. Caso contrário, esta etapa pode se tornar um “convite” para a destruição da reputação de varejistas pelos clientes, agora multiconectados via redes sociais, fomentando as vendas da concorrência.

Em um Webinar da Harvard Business Review (HBR), reproduzido no vídeo abaixo, o Professor Dale Rogers descreve por que o processo de devolução é tão importante para o sucesso de empresas líderes.

Vídeo 1 - HBR (blog ILOS) v3

Vídeo 1 – Omnichannel Retailing: Reverse Logistics and Customer Loyalty

Fonte: HBR

 

Dale Rogers é professor de Supply Chain Management da Arizona State University e líder em práticas de Sustentabilidade e Finanças em Supply Chain Management do ILOS.

CONSTRUÇÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS SUSTENTÁVEL: LOGÍSTICA REVERSA DE EMBALAGENS PÓS-CONSUMO – PARTE 2

Na primeira parte deste artigo, tratou-se do problema dos resíduos sólidos, com um histórico da evolução da preocupação com o seu descarte correto, as diversas discussões internacionais sobre o tema e as políticas e soluções dadas, com os cases alemão e brasileiro. Foi abordado também o surgimento do conceito de responsabilidade compartilhada na cadeia de suprimentos sustentável, com o programa de metas da União Europeia para os seus diferentes países, para a reciclagem desses resíduos. Nesta segunda parte, será tratada a problemática da logística reversa no Brasil.
O DESAFIO DA LOGÍSTICA REVERSA NO BRASIL
Existe uma tendência de que, com a regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – Lei 12.305/2010), parte das associações de empresas brasileiras adote um modelo para a logística reversa similar ao europeu.Os principais desafios do fluxo de valor da cadeia reversa estão associados à geração de um resultado financeiro positivo. No Brasil, as grandes dimensões geográficas e a baixa densidade de cooperativas, empresas de triagem e recicladoras são fatores que colaboram para o aumento dos custos para a coleta. Em contrapartida, diferentemente da Europa, que utiliza serviços de transporte especializado para a coleta de resíduos, no Brasil a inclusão social das cooperativas de catadores pode reduzir esse custo no início do processo.A capacidade instalada atual para triagem e transformação dos resíduos ainda não é suficiente para garantir o fluxo de todo o resíduo gerado em território nacional. A Figura 5 ilustra a distribuição geográfica de cooperativas e recicladoras no Brasil e indica um potencial gap estrutural, que deverá culminar na necessidade de investimentos em unidades industriais tanto para triagem quanto para reciclagem.

De forma aproximada, podemos imaginar que cada cooperativa de catadores é capaz de separar cerca de 1.200 toneladas de resíduos/ano, formando uma capacidade nacional de cerca de 624 mil toneladas anuais. Considerando um volume de resíduos de embalagens pós-consumo da ordem de 17 milhões de toneladas/ano, verificamos que a inclusão das cooperativas no formato atual no processo de coleta e triagem de resíduos não se fará suficiente. Outro ponto que vale ser ressaltado é que a disponibilidade de cooperativas não é uniforme, trazendo grandes gaps para o Norte e o Nordeste do País.

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Figura 5 – Distribuição geográfica de Cooperativas e Recicladoras no Brasil
A solução dessa situação é mais complexa do que pode parecer, pois as cooperativas não são unidades industriais e não têm facilidade de expansão. O esforço para dar escala industrial às cooperativas vai além de investimentos em equipamentos; existe a necessidade de elaboração de um denso plano de inclusão social (veja Quadro 3).2011_08_imagem_02 - parte 2
Quadro 3 – O desafio da inclusão social dos catadores
Além da questão humana, o planejamento da localização adequada para as instalações de triagem, recicladoras e outros locais para disposição de resíduos é fundamental para que o custo de coleta e disposição de resíduos seja o menor possível. Assim como as empresas dimensionam e localizam suas plantas e centros de distribuição para a redução dos custos com distribuição, essa atividade se faz necessária a para redução dos custos com logística reversa.No que diz respeito às receitas a serem geradas com a comercialização do resíduo coletado, temos que estas dependem do desenvolvimento do próprio mercado de produtos reciclados e/ou com base em resíduos. O investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e o processo de conscientização do consumidor quanto ao tema são fatores essenciais para esse crescimento.Através de P&D se torna possível identificar meios de utilização de resíduos em embalagens e produtos, garantindo suas condições de segurança. O eco-design é uma atividade de P&D muito forte nesse aspecto, pois aborda o desenvolvimento da imagem e do produto alinhado com os principais indicadores ambientais. Nesse contexto estão:

• Redução dos volumes de materiais a serem utilizados na constituição do produto e de sua embalagem, de forma a minimizar o uso de recursos naturais e gerar o menor volume de resíduos pós-consumo possível.

• Desenho do produto e embalagens de forma a maximizar o valor do resíduo que será gerado, ou seja, suas partes devem ser desmontáveis, permitindo a triagem adequada de seus resíduos e sua máxima reciclagem ou reaproveitamento. Embalagens do tipo pounch (flexíveis), por exemplo, possuem um mix de camadas de materiais “inseparáveis” que pode inviabilizar sua reciclagem. Embalagens de perfume cujo spray de alumínio esteja montado de forma inseparável do vidro têm o seu potencial de reciclagem reduzido, gerando resíduos que terão de seguir para uma destinação menos nobre.

• Escolha dos materiais não somente pela capacidade de atender aos critérios de performance do produto, mas de forma a minimizar impactos ambientais no seu ciclo de vida, como uso de água e energia, geração de CO2, grau de reciclabilidade, podendo-se também incluir impactos de aspecto social (pode-se preferir utilizar um material que irá gerar renda a uma comunidade carente e proporcionar o crescimento de um novo setor econômico a utilizar um já produzido por grandes indústrias, além, é claro, de escolher fornecedores que não estejam envolvidos com trabalho escravo ou infantil e que não proporcionem o contato de seres vivos a substâncias tóxicas).

De forma geral, o eco-design deve gerar produtos e embalagens de menor custo econômico, ambiental e também social. No entanto, as decisões de eco-design estão ainda dentro de uma esfera estratégica, pois proporcionam inovações em termos de aparência dos produtos, gerando a necessidade de elaboração de processos de comunicação mais afinados com os consumidores.

Além do eco-design, na Europa diversas empresas já buscam a certificação cradle-to-cradle (do berço ao berço), oferecido pela consultoria MBDC – McDonough Braungart Design Chemistry, através da qual se tem orientações para o desenvolvimento de produtos dentro de um contexto sustentável. Cada nível dessa certificação refere-se a um diferente conjunto de exigências que orientam os esforços de P&D e que, ao definir metas para o uso de resíduos pós-consumo no desenvolvimento do produto, gera mercado para os mesmos (veja Quadro 4 sobre as exigências gerais para obtenção de cada nível da certificação cradle-to-cradle).

No contexto de pesquisa e desenvolvimento entram também todos os esforços para a viabilização de tecnologias para o uso de materiais reciclados como matéria-prima e para reciclagem e transformação dos resíduos.

Voltando-se para a conscientização do consumidor, podemos dizer que este é fator primordial para a alavancagem do mercado de produtos sustentáveis. Tendo o consumidor conhecimento sobre as questões envolvidas, ele deve poder escolher entre um produto mais ou menos sustentável. Essa possibilidade de escolha, no entanto, não depende somente do conhecimento do consumidor, sendo necessária uma comunicação confiável e isenta no produto como base para comparação.

Essa comunicação pode ser realizada através da disposição de informações nos rótulos dos produtos, podendo estar associada tanto aos processos que envolvem o produto quanto a atitudes tomadas pela empresa. A rotulagem de selos verdes, certificação cradle-to-cradle ou mesmo a participação da empresa no programa de logística reversa de resíduos, como o Ponto Verde, já são comuns na Europa.

Levando-se em consideração os investimentos em P&D e custos adicionais necessários para a oferta de produtos sustentáveis no mercado, em um primeiro momento, seus preços tendem a ser maiores que os dos demais produtos. Essa diferenciação nos preços, no entanto, tende a se reduzir, tanto porque os esforços de P&D devem gerar produtos com menos necessidade de material quanto pela tendência de redução de preços da matéria-prima reciclada, com o ganho de escala na produção que ocorrerá devido ao estabelecimento das metas de reciclagem.

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Quadro 4 – Certificação Cradle-to-Cardle: triple-bottom-line
A manutenção de preços premium para produtos sustentáveis pode ser uma forte barreira para a massificação de suas vendas, principalmente em países em desenvolvimento. Nesses casos, o rápido aumento da oferta de materiais reciclados torna-se ainda mais importante, pois o ganho de escala na produção de reciclados pode trazer redução nos custos desse tipo de matéria-prima, evitando a necessidade de repasse do custo para o preço..SOLUÇÕES DE LOGÍSTICA REVERSA NO MUNDOFrente a todas as questões que envolvem a transformação da cadeia de suprimentos em uma cadeia sustentável, vários são os passos a serem dados.O Brasil está agora na etapa pós-regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, na qual os setores devem apresentar para o Governo uma proposta de metas e um plano que mostre sua viabilidade. Essa etapa deve conter diversos levantamentos e análises a fim de garantir que o problema seja entendido e a mudança possa então ser efetiva:

• Mapeamento da capacidade atual (em toneladas) de cada elemento necessário para o direcionamento dos resíduos dentro da hierarquia definida na legislação (coleta, triagem, reciclagem, compostagem, incineração e disposição de resíduos em aterros sanitários);

• Avaliação do gap de capacidades e estruturação de solução específica para cada área, identificando e explicitando responsabilidades;

• Plano de incentivo à implantação das novas unidades necessárias (cartas de crédito);

• Elaboração de proposta para inclusão social dos catadores no contexto da logística reversa de resíduos;

• Identificação dos melhores locais para posicionamento de cada elemento necessário para direcionamento dos resíduos (Rede Reversa – Resíduos Sólidos), de forma a minimizar os custos de movimentação;

• Definição e divulgação das responsabilidades de cada um dos atores envolvidos no processo (indústria produtora, consumidores, etc.);

• Plano de investimentos em P&D para cada um dos atores envolvidos;

• Definição das cartas de crédito para os investimentos necessários em P&D;

• Plano de comunicação das responsabilidades (coleta seletiva);

• Padronização e comunicação de rotulagens ambientais e sustentáveis de empresas e produtos;

• Caracterização do mercado atual de resíduos (preços, formas de comercialização, relacionamentos na cadeia, etc.) e projeções para os próximos dez anos;

• Revisão dos impostos e taxações aplicáveis à comercialização de resíduos, reciclados e produtos com uso de reciclados pós-consumo.

CONCLUSÃO
São inúmeras as mudanças no processo de transformação da cadeia de suprimentos, porém a mais relevante é a mudança de visão. Sair de uma visão unilateral, focada apenas no desenvolvimento econômico independente, e ir para uma visão triple-bottom-line, onde as questões sociais e ambientais ganham grande relevância, é, de fato, o maior desafio.A velocidade dessa mudança na cadeia é o que a faz assustadora, pois este não é um processo de adequação gradual do mercado, mas sim uma mudança puxada pelo vislumbre de problemas com a qualidade de vida das gerações futuras. O engajamento das empresas não é uma opção, é uma decisão global.As companhias que conseguirem se engajar no processo de transformação mais rapidamente se tornarão cada vez mais competitivas, conseguindo reduzir custos e ganhar mercado.Em países em desenvolvimento, a mudança na cadeia de suprimentos tem maior grau de complexidade que nos países desenvolvidos, principalmente porque o tamanho dos problemas de ordem social são maiores.Esses problemas sociais impactam diretamente na distribuição dos custos associados às mudanças iniciais, pois estes não conseguem ser repassados totalmente para os consumidores. Nesse contexto, o trabalho para minimização dos custos associados ao processo deve ser fonte de um esforço maior.No caso específico do Brasil, além da necessidade de um grande projeto para desenho da rede reversa e seu alinhamento com o processo de inclusão de catadores, é necessário ainda organizar as formas de comunicação junto ao consumidor, não somente sobre a relevância de seu papel dentro do processo de logística reversa (coleta seletiva e disposição de resíduo por material), mas também sobre como os produtos e embalagens podem ser comparados quanto a suas características ambientais e sociais.A sociedade, de forma geral, está envolvida nesse desafio, sendo o governo, as indústrias produtoras e os cidadãos os principais atores para a mudança.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abracelpe, Caderno Especial – Panorama de Resíduos Sólidos, 2007.
Europen, Packaging and packaging waste statistics 1998 – 2006, 2009.
NEYMAN, Monika T. The Environmental Law System of the Federal Republic of Germany. Annual Survey of International & Comparative Law, 1996.

CONSTRUÇÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS SUSTENTÁVEL: LOGÍSTICA REVERSA DE EMBALAGENS PÓS-CONSUMO – PARTE 1

Levantamentos apontam que o Brasil gera, anualmente, cerca de 57 milhões de toneladasde resíduos sólidos urbanos, dos quais cerca de 30% (17 milhões) são embalagens pós-consumo, o que traz grandes impactos ao meio ambiente. Esta é uma realidade que se observa no mundo inteiro e que justifica uma preocupação cada vez maior da sociedade com a questão da sustentabilidade.O conceito de sustentabilidade nos traz novos desafios, não somente ambientais, mas principalmente políticos e econômicos, estando associado à necessidade de mudança de comportamentos sociais e, consequentemente, empresariais.Nesse contexto estão as alterações nas exigências de consumo e a formação de cadeias de suprimentos sustentáveis.O presente artigo visa explicitar a abrangência e impactos das mudanças necessárias na cadeia de suprimentos, com foco na logística reversa de embalagens pós-consumo.

 


O PROBLEMA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

Histórico do conceito de desenvolvimento sustentável

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A Figura 1 mostra uma série de eventos e movimentos ambientalistas surgindo a partir da década de 1960, no período pós-industrial, causados pela percepção da degradação ambiental provocada pelo crescimento nas produções industriais.A degradação provinha da busca industrial por fontes energéticas e matérias-primas, e pela disposição inadequada dos resíduos industriais, poluindo solos e águas para atendimento da crescente demanda por produtos.As discussões sobre o meio ambiente no âmbito da política internacional cresceram, culminando, em 1983, na criação da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Organização das Nações Unidas – ONU. Em 1987, o relatório O Nosso Futuro Comum, originado pela Comissão de Brundland, trouxe notoriedade para o termo “sustentabilidade”, incluindo-o nas discussões políticas: “Desenvolvimento Sustentável é a capacidade das atuais gerações de atender às suas necessidades sem comprometer o atendimento das necessidades das gerações futuras.”Esse conceito foi trabalhado em diversas discussões científicas e políticas, sendo introduzido em 2002 sobre uma base triple-bottom-line, que indica que sustentabilidade é uma condição que considera inexoravelmente as dimensões econômica, social e ambiental ao mesmo tempo: “A proteção do meio ambiente e o desenvolvimento social e econômico são fundamentais para o desenvolvimento sustentável.”

Em paralelo às discussões internacionais sobre Desenvolvimento Sustentável, cada país buscou desenvolver soluções internas para problemas ambientais com impacto local, como poluição de águas, solos e ar.

O CASE ALEMÃO

Na Europa, a Alemanha é um país de destaque no desenvolvimento de legislação e implantação de soluções associadas ao meio ambiente. Em 1974, estabeleceu-se naquele país a Agência Federal do Meio Ambiente com o objetivo de financiar e apoiar pesquisas na área, de forma a suportar o desenvolvimento de conceitos para formação de um ministério federal. Em 1986, após o acidente nuclear de Chernobyl, formou-se o Ministério Federal do Meio Ambiente, Conservação Ambiental e Segurança Nuclear. A partir de então, se estabeleceram legislações específicas para cada tema ambiental, como Água, Conservação da Natureza, Energia Atômica e Controle Federal da Poluição, entre outros.

No que diz respeito à política para resíduos sólidos, estabeleceu-se na Alemanha, em 1986, a Lei de Redução e Eliminação de Resíduos, com base na qual foram editados vários regulamentos como o de redução de Vasilhames e Embalagens, em 1991; Óleos Usados, em 1987; e Solventes, em 1989 (NEYMAN, 1996).

Em 1994, foi editada a Lei de Economia de Ciclo Integral e Gestão de Resíduos, em substituição à lei de 1986, ampliando a responsabilidade do fabricante para todo o ciclo de vida de seu produto. Nesse contexto, já está a criação de uma hierarquia de ações sobre resíduos, entre as quais evitar a geração é o primeiro passo, seguido pela necessidade de valorizá-los, sob a forma de reciclagem, reuso ou geração de energia, ou, em última instância, provendo a disposição ambientalmente adequada para os resíduos não valorizáveis.

Mesmo com esse longo histórico de iniciativas de sustentabilidade na Alemanha, as metas de coleta foram introduzidas gradualmente, de acordo com a definição de metas europeias, tendo-se que chegar a uma coleta seletiva de 50% dos resíduos até o final de 2001 e 60% até 2008. Veja as tabelas com as metas europeias para o primeiro e segundo estágios.

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(EUROPEN, 2009)
O CASE BRASILEIRO
No Brasil, em 1981 concebeu-se a lei 6.938, denominada Política Nacional de Meio Ambiente. A partir dessa lei iniciaram-se diversas discussões que culminaram na formulação da Lei das Águas em 1997, além da revisão, pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente – Conama –, dos critérios utilizados para licenciamentos ambientais. Em 2000, regulamentou-se a lei sobre recolhimento e destinação de resíduos de embalagens de agrotóxicos e, em 2010, foi estabelecida a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que está ainda em processo de regulamentação e já contempla os conceitos de hierarquia de ações para a gestão de resíduos e de responsabilidade compartilhada.As metas brasileiras para o volume de resíduos que deve ser coletado e reciclado ainda estão em processo de definição. A regulamentação da PNRS indicou prazo para que cada setor ou empresa apresentasse uma proposta de metas, que será avaliada por um comitê técnico do governo e então validada. Imagina-se que, até o final de 2011, já se tenham as metas e planos de ação de cada setor envolvido com a geração e comercialização de embalagens..RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA: CADEIA DE SUPRIMENTOS SUSTENTÁVELA proposição do desenvolvimento de uma hierarquia de ações para minimizar os problemas associados à disposição de resíduos sólidos traz associada a necessidade de organização de planos e metas em diferentes esferas, de forma a influenciar a readequação das cadeias de suprimentos em cadeias ambientalmente adequadas e, por fim, sustentáveis.
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A cadeia de suprimentos sustentável é aquela que atende às três dimensões da sustentabilidade:• Ambiental: buscar reduzir os impactos ambientais gerados pelo ciclo de vida de cada produto. Esses impactos estão alocados nas diferentes etapas da cadeia de suprimentos e podem ser medidos através de diversos indicadores, como: consumo de energia, água, emissão de CO2, geração de resíduos, percentual de resíduos retornados e de resíduos com destinação adequada.• Social: atuar de forma a manter e promover um relacionamento social saudável entre todos os envolvidos nas atividades da cadeia de suprimentos, minimizando danos às pessoas e comunidades. A qualidade dos relacionamentos de uma cadeia pode ser avaliada através de indicadores como número de acidentes, horas de treinamento e total de renda gerada, além de atitudes empresariais que proporcionem inclusão social, redução dos índices de acidentes de trabalho e exploração sexual infantil, entre outras.• Econômica: essa é a dimensão tradicional de avaliação dos negócios através da qual se busca maximizar faturamento e lucratividade. Em uma cadeia de suprimentos sustentável, os fatores econômicos não se prendem a cada empresa individualmente, sendo o resultado conjunto. O esforço para garantir a qualidade econômico-financeira de toda a cadeia de suprimentos é uma grande tarefa.Um dos principais desafios para a construção de uma cadeia de suprimentos sustentável é o conhecimento que cada elo deve ter da cadeia como um todo, de forma a garantir, através do relacionamento e compartilhamento de responsabilidades, que o melhor está sendo feito nas três diferentes dimensões ao longo de todo o processo, da extração da matéria-prima à disposição dos resíduos.O investimento nesse processo de transformação é o que garantirá a possibilidade das empresas de permanecerem e crescerem em mercados futuros, onde os consumidores e a sociedade exigirão uma postura sustentável, seja através da mudança em seus hábitos de consumo, seja através de legislações.
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A Figura 2 ilustra a transformação necessária nas cadeias de suprimentos para torná-las ambientalmente adequadas, segundo a hierarquia de ações proposta na legislação da União Europeia (UE) e agora na Política Nacional de Resíduos Sólidos (veja Quadro 2).Pode-se observar o surgimento de novas atividades (Coleta, Triagem e Transformação dos Resíduos) e, potencialmente, novos atores e relacionamentos. Essa situação cria um novo fluxo de valores e, consequentemente, novos negócios.Parte do que era até então entendido como gerenciamento de resíduos sólidos, e tinha gestão governamental, começa a dar forma a um novo setor econômico, responsável pela transformação de resíduos em matérias-primas e/ou novos produtos.Um exemplo de iniciativa desenvolvida para fortalecer essa cadeia é o conceito Cradle-to-Cradle, que trata do desenho de produtos e dos respectivos processos produtivos, de forma a garantir, entre outras coisas, que as substâncias químicas presentes no produto são as mais seguras, que os produtos podem ser desmontados no final de sua vida útil para reciclagem e que os materiais contêm itens reciclados e recicláveis na sua composição.Dessa forma, é possível manter uma cadeia de suprimentos eco-eficiente, reduzindo a extração de matérias-primas virgens e reduzindo a disposição de materiais de forma inadequada, ou seja, tratando materiais que podem ser aproveitados como rejeito. 

SOLUÇÕES DE LOGÍSTICA REVERSA NO MUNDO

Estima-se foram coletados mundialmente, em 2007, entre 2,5 e quatro bilhões de toneladas de resíduos, dos quais 1,2 bilhão eram resíduos sólidos urbanos (RSU). A disposição desses RSUs movimentou, aproximadamente, US$ 125 bilhões através da remuneração das atividades de coleta, aterro sanitário, incineração, compostagem, reciclagem e outros métodos complementares de tratamento, além dos valores referentes à comercialização das 600 milhões de toneladas de material reciclado gerado (veja Figura 3).

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(Abrelpe, 2007)
A forma através da qual cada país distribui as responsabilidades dentro desse processo de transformação afeta diretamente o fluxo de valores da cadeia e a postura de cada elo frente aos investimentos e decisões a serem tomadas. A Figura 3 ilustra diferentes formas de distribuição de responsabilidades.O Fluxo 1 é similar ao processo europeu atual, no qual existe uma entidade sem fins lucrativos responsável por gerenciar o processo de coleta e triagem dos resíduos. Essa entidade possui o seu custo financiado por associações de empresas, além de gerenciar o processo de coleta e triagem, e também comercializa esses resíduos com as indústrias transformadoras. O conceito do processo é que essa operação seja autofinanciável, ou seja, a receita gerada pela venda dos resíduos deve remunerar os custos da operação.Um exemplo deste tipo de operação é o Ponto Verde (Green Dot), entidade sediada em Portugal relacionada à indústria que é responsável pelo planejamento e operação da logística reversa dos resíduos de embalagens e sua comercialização. O resultado financeiro do Ponto Verde em 2008 foi positivo. Como esta é uma entidade sem fins lucrativos, os resultados do exercício são reinvestidos ou utilizados na própria atividade de logística reversa de resíduos ou em atividades conexas (Ponto Verde, 2008). Porém, esse resultado expressa o desenvolvimento do mercado de resíduos e as possibilidades de se obterem ganhos econômico-financeiros para a cadeia de suprimentos.O Fluxo 2 representa uma alternativa na qual o governo atua na coleta dos resíduos. A priori, o governo não se envolveria na sua comercialização, sendo essa responsabilidade da empresa de coleta ou triagem. Em algumas localidades brasileiras temos uma situação similar, em que o município (por exemplo, São Paulo) arca com parte dos custos de coleta, deixando o custo da triagem e comercialização dos resíduos com as cooperativas.
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Outra situação comum no Brasil está ilustrada no Fluxo 3, no qual a coleta e a triagem são realizadas por cooperativas sem apoio financeiro de um setor ou entidade governamental específica. Neste caso, as cooperativas suportam os seus custos operacionais através da receita obtida pela venda de resíduos para as recicladoras.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abracelpe, Caderno Especial – Panorama de Resíduos Sólidos, 2007.
Europen, Packaging and packaging waste statistics, 1998 – 2006, 2009.
NEYMAN, Monika T. The Environmental Law System of the Federal Republic of Germany, Annual Survey of International & Comparative Law, 1996
Gisela Mangabeira Souza é consultora sênior do ILOS – Instituto de Logística e Supply Chain
gisela.sousa@ilos.com.br
Tel: (11) 3847-1909Leonardo Pozes
Gerente de Planejamento Estratégico do Grupo AndinaVeja a segunda e última parte deste artigo na edição de agosto (no 189) da Tecnologística ou em www.ilos.com.br
Autores: Gisela Mangabeira de Sousa e Leonardo Pozes