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As dificuldades da logística de produtos hospitalares

O setor farmacêutico é bastante regulado no Brasil. A ANVISA exige registro e licença para produtos e também processos produtivos, como tamanho de lote de produção, importações etc, que demoram mais de 1 ano para serem obtidos e precisam ser renovados periodicamente. O que é muito bom sob a ótica do consumidor, pois a agência realiza os controles ao seu alcance para garantir o menor risco de produtos fora de especificação. Por outro lado, muita regulação aumenta a necessidade de controle operacional e custos para a indústria, sendo uma barreira a novos entrantes.

O setor também sofre com a alta tributação em torno de 31%, frente à média mundial de 6,3%, e com a legislação brasileira atual que determina que os medicamentos só podem sofrer reajustes uma vez ao ano.

Dados os custos implícitos às características citadas, as indústrias fabricantes de produtos hospitalares precisam ser eficientes no transporte e na gestão de estoques para serem competitivas, fazendo com que a gestão Logística seja complexa. Ademais, há forte exigência de nível de serviço pelos principais clientes do setor: os hospitais. No Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) do Ministério da Saúde, em agosto deste ano, havia 6.806 hospitais no Brasil (especializados, gerais e hospitais dia), sendo 35% na Região Sudeste.

Um dos produtos mais comprados pelos hospitais são as soluções parenterais (as conhecidas “bolsas de soro”), produto volumoso e de baixo valor agregado. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Soluções Parenterais (ABRASP), em 2016, foram vendidas pelas empresas associadas (em torno de 15 fabricantes) mais de 1,1 bilhões de soluções parenterais, que podem conter apenas água para injeção ou outras soluções como cloreto de sódio, glicose, glicerina etc.

Os hospitais necessitam de “bolsas de soro” em alta quantidade, mas possuem área de estoque extremamente reduzida, pois todo espaço disponível nos hospitais é revertido prioritariamente para sua atividade fim, que são os leitos. Dessa forma, os fabricantes desse tipo de produto e afins necessitam ter um nível de estoque com alto grau de segurança, pois seus produtos são de caráter emergencial para seus clientes e possuem pouca diferenciação. Se houver ruptura de estoque, o concorrente ganha espaço. De acordo com o levantamento realizado pelo ILOS com grandes empresas do setor de Saúde, a cobertura de estoque das indústrias do setor de saúde, fabricantes de produtos correlatos (não medicamentos) está em média em 39 dias, chegando a 180 dias em alguns casos.

logística de produtos hospitalares - cobertura de estoque - blog ILOS

Figura 1 – Cobertura de estoque média nos fabricantes de produtos correlatos (não medicamentos)

Fonte: Panorama ILOS – Supply Chain do Setor de Saúde 2017

A exigência de serviço desses clientes é alta, com pedidos pequenos e curto prazo de entrega, o que faz com que os fabricantes também possuam uma complexidade na gestão do transporte. Dessa forma, é comum no setor observarmos a atuação de distribuidores, que formam um mix de produtos maior e se posicionam mais próximos no mercado consumidor. Eles são mais evidentes para produtos de menor dimensão, mais difíceis de compor carga em um caminhão.

Quando não há atuação de distribuidores, a alternativa mais vantajosa para a indústria em custo e capilaridade é o transporte através de transportadoras de grande abrangência nacional, pois possuem pontos de cross-docking e centros de distribuição avançados que permitem a consolidação dos pedidos em veículos maiores. Porém, para garantir alta disponibilidade do produto, o fabricante ainda fica refém de pontos avançados de estoque, próprios ou nas instalações das transportadoras.

A alta regulação do setor de saúde e as restrições de espaço para estoque nos hospitais fazem com que a melhor saída para as empresas que atuam neste segmento seja investir em uma boa gestão e controle de seus processos e logística, com o apoio de tecnologia. Além disso, é fundamental estar sempre próximo dos clientes, entendendo suas reais necessidades, e adaptando a operação para que não haja perda de vendas e nem custos desnecessários.

Referências:

Panorama ILOS – Supply Chain do Setor de Saúde 2017
Abrasp
Datasus
Volta a valer lei que permite apenas um reajuste por ano no preço de remédios
Setor de equipamentos crescerá com rastreabilidade de remédios
Ainda a carga tributária

Estudos de mercado em alta

O medo da incerteza tem paralisado a maior parte do mercado brasileiro e praticamente todos os negócios do país minguaram. Mas para as empresas que têm fôlego financeiro,visão de futuro e que entendem que a economia sempre funciona em ciclos de altos e baixos, o momento agora é de se preparar para o crescimento que está por vir, cuja data ainda é imprevisível, mas virá.

Os arrojados nunca fizeram tantos estudos de mercado. Quando se trata de prestação de serviços logísticos, enquanto algumas empresas não veem outra saída a não ser fechar suas portas, outras estão antenadas e estudam possíveis fusões e aquisições. O momento é de preços baixos para quem quer comprar outras empresas. E o Real desvalorizado favorece ainda mais a entrada de empresas internacionais no mercado brasileiro. Mas o risco é elevado.

Estudos de mercado podem mostrar quais os segmentos que sofrem menos com a retração econômica do país, assim como aqueles que podem trazer as maiores margens.

A menina dos olhos para grande parte dos operadores logísticos tem sido o segmento farmacêutico. Por ser de mais alto valor agregado e menos suscetível à crise econômica, esta indústria ainda tem muito a se desenvolver em termos de eficiência logística.

A logística do segmento de saúde foi tema de estudo do ILOS em 2015, e está sendo novamente estudada em 2016. Esta cadeia envolve laboratórios, farmácias, hospitais, indústrias de medicamentos, materiais hospitalares, próteses, entre outros. Neste segmento, conforme pesquisa ILOS apresentada no post de Leonardo Julianelli, verifica-se que a ruptura de medicamentos nas farmácias é muito elevada (31%), que a troca de informações entre os elos da cadeia é baixa e que a gestão de estoque tem muito a ser aprimorada.

Um bom estudo de mercado deve incluir análise de dados e estatísticas, que mostrem as tendências históricas de movimentação de cargas, assim como análise de concorrência e entrevistas com possíveis futuros clientes.

As novas perspectivas na gestão econômica brasileira podem trazer uma redução no temor das empresas. Talvez as arrojadas, que investiram em períodos de baixa, tenham a sorte de colher os frutos de suas escolhas em um futuro não muito distante.

Análise de rupturas na cadeia farmacêutica

Este ano, o ILOS realizou uma extensa pesquisa, em parceria e com patrocínio da Aché, ABRAFARMA, BD, Fidelize e Plannera, sobre a gestão da cadeia de suprimentos de fármacos no Brasil. Uma das análises mais interessantes foi sobre o nível de ruptura ao longo da cadeia.

O diagnóstico sobre a falta de produtos nos diferentes elos foi realizado de três formas diferentes:

  • Em primeiro lugar, uma pesquisa com executivos dos diferentes elos avaliou a percepção deles sobre o percentual de rupturas existente na sua empresa, que permitiu capturar uma primeira visão abrangente sobre a falta de produtos na cadeia;
  • Depois, foram realizadas 1.245 simulações de compra de uma lista de medicamentos, de alto e baixo giro, em estabelecimentos das cinco regiões do país, que ofereceu uma visão da ruptura na ponta da cadeia e o quanto esta pode ser diferente da visão dos executivos;
  • Por fim, com apoio da Fidelize e da Plannera, foi possível analisar 3.000.000 de pedidos das farmácias aos distribuidores para medir quantos deles não puderam ser atendidos plenamente por falta de produtos e o quanto esta ruptura representa em receita.

Percepção dos Executivos

Em resposta à pergunta: “Qual é o percentual de ruptura de estoque em sua empresa?”, os executivos da cadeia de fármacos apresentaram uma visão de que a ruptura aumenta conforme a cadeia se aproxima do consumidor final, chegando a 11,5% no caso de farmácias que são atendidas por distribuidores. Já no caso de grandes redes de farmácias, que possuem CD próprio, a maior ruptura da cadeia encontra-se no CD, que possui na visão dos executivos uma ruptura média de 9%. A Figura 1 ilustra estes resultados.

Figura 1 – Percepção dos executivos sobre a ruptura na cadeia de fármacos no Brasil - ILOS

Figura 1 – Percepção dos executivos sobre a ruptura na cadeia de fármacos no Brasil

Fonte: ILOS

 

Simulação de Compras no Varejo

Nossa equipe passou quase dois meses ligando para 1.245 farmácias, espalhadas por todo o Brasil, para simular a compra de uma lista de 12 medicamentos, 6 de alto giro e 6 de baixo giro, para tentar mensurar a ruptura de estoque no varejo. Os resultados apontam para imensas oportunidades na cadeia de fármacos. O índice de ruptura geral foi de 31%, ou seja, em quase um terço das simulações realizadas não havia pelo menos um produto da lista, conforme figura 2.

rupturas na cadeia farmacêutica

Figura 2 – Análise da ruptura no varejo por simulação de compra

Fonte: ILOS

 

Mesmo quando separamos a ruptura em produtos de alto giro e baixo giro, encontramos uma situação bem pior do que aquela percebida pelos executivos, com 19% de ruptura nos produtos de alto giro e 43% de ruptura nos produtos de baixo giro, conforme figura 3.

 

Figura 3 – Análise da ruptura no varejo por giro de produto - ILOS

Figura 3 – Análise da ruptura no varejo por giro de produto

Fonte: ILOS

 

Análise de 3.000.000 de pedidos das farmácias

A análise dos mais de 3.000.000 de pedidos das farmácias para os distribuidores mostrou que 14% dos pedidos apresentavam algum tipo de ruptura, fazendo com que 8,2% do valor do pedido não fosse faturado, o que gera uma perda anual no faturamento de R$ 2 bilhões, conforme ilustrado na figura 4.

rupturas na cadeia farmacêutica

Figura 4 – Análise de pedidos das farmácias para os distribuidores farmacêuticos

Fonte: ILOS

 

Apesar destes números impressionantes sobre rupturas, quando perguntados sobre “Qual é a cobertura média de estoque de sua empresa (em dias)?, os executivos apontaram uma cobertura total da cadeia de 162 dias, em média, ou seja, quase 6 meses de estoque na cadeia, conforme figura 5.

Figura 5 – Cobertura média de estoque (em dias) da cadeia farmacêutica - ILOS

Figura 5 – Cobertura média de estoque (em dias) da cadeia farmacêutica

Fonte: ILOS

 

Os resultados deste estudo apontam para as enormes oportunidades existentes a partir de uma melhor gestão de estoques na cadeia, sobretudo quando olhamos para medicamentos de baixo giro e para o interior do país, mercado que crescerá em ritmo mais intenso nos próximos anos. Indica, também, que o problema parece ser maior do que o percebido pelos executivos do setor, que devem estar atentos a estas oportunidades.

 

Referências

Pesquisa ILOS 2015 sobre a gestão da cadeia de suprimentos de fármacos no Brasil

LOGÍSTICA NA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA: DESAFIOS E OPORTUNIDADES NA TERCEIRIZAÇÃO

Durante décadas, a indústria farmacêutica foi marcada por altas margens de lucro e taxas de crescimento estáveis, advindas das patentes e produtos inovadores. Ao longo dos últimos anos, no entanto, a dinâmica do mercado vem mudando consideravelmente. A popularização dos medicamentos genéricos e a expiração de patentes impulsionam um cenário competitivo mais agressivo, marcado pela necessidade de reposição de portfólio, ao mesmo tempo em que há crescente pressão sobre a formação de preços no setor.

Com isso, o segmento busca novas maneiras de aumentar a margem melhorando a eficiência em toda a supply chain. Neste contexto, o operador logístico assume um papel importante para atender todas as demandas deste setor, que tem exigências próprias e requer alto nível de serviço.

O artigo tem o objetivo de apresentar a oportunidade de terceirização da logística na indústria farmacêutica e os desafios encontrados na seleção de parceiros para a operação. O conteúdo do artigo reúne experiências do ILOS, advindas de projetos e pesquisas realizados pelo subsegmento de consultoria do instituto voltado exclusivamente para o setor de saúde.

 

Panorama Geral Da Indústria Farmacêutica No Brasil


A indústria farmacêutica brasileira vem sendo influenciada por dois principais fatores: importantes marcos regulatórios, a partir da segunda metade de década de 1990, e o elevado crescimento da demanda doméstica, a partir de 2004.

Com a criação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 1999, as exigências por regulação em todos os processos da cadeia se intensificaram, aumentando a complexidade das operações e promovendo significativas mudanças.

O crescimento da demanda doméstica impulsionou a indústria farmacêutica e os motivadores foram:

  • Aumento do poder de compra da população durante a última década;
  • Maior conscientização, por parte dos indivíduos, de que devem se cuidar melhor;
  • Maior disponibilidade de recursos tecnológicos;
  • Elevação da expectativa de vida;
  • Investimentos do governo.

Segundo o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), a indústria farmacêutica deve finalizar o ano de 2014 com um índice de crescimento de 10% a 12%, próximo às taxas dos anos anteriores.

Somando-se a isso, a expiração de patentes de medicamentos de referência e a participação dos medicamentos genéricos são fatores que pressionam a indústria farmacêutica por reduções de custos. O novo cenário de concorrência e as altas exigências de nível de serviço trazem a necessidade de evolução da cadeia de suprimentos de maneira integrada, a fim de que a indústria possa obter ganhos de eficiência das operações.

O histórico desapego da indústria farmacêutica para com a logística cria oportunidades para os operadores logísticos, que despontam como detentores do know-how logístico de que o setor necessita no curto prazo.

 

Terceirização Na Indústria Farmacêutica


A indústria farmacêutica exerce um papel importante na cadeia de suprimentos do setor de saúde. A relação com os elos da cadeia envolve alta complexidade, que decorre de fatores como o grande fracionamento e a quantidade de SKUs.

Busca por atuação de forma integrada na cadeia, exigências de elevado nível de serviço e presença de questões regulatórias são as principais características atuais do setor, que também trabalha com produtos de alto valor agregado, estoques de produtos acabados elevados e mal posicionados nos canais de distribuição, além de dar significativa atenção aos lead times de transporte.

A Figura 1 apresenta, de maneira simplificada, a localização da indústria farmacêutica na cadeia logística do setor de saúde.

Figura 1 – Localização da indústria farmacêutica na cadeia logística do setor de saúde

Figura 1 – Localização da indústria farmacêutica na cadeia logística do setor de saúde

Fonte: Logística Reversa para o Setor de Medicamentos – Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial – ABDI

 

Como podemos observar na Figura 1, a cadeia de suprimentos do setor abrange diversos players. Em geral, os distribuidores atuam com estrutura logística própria, de forma que há pouco espaço neste mercado para a atuação de operadores logísticos. Em contrapartida, os hospitais e planos de saúde mostram um movimento de introdução do conceito de logística nas suas operações, potencializando oportunidades de mercado para os prestadores de serviços logísticos (PSL).

A indústria farmacêutica ainda possui gaps operacionais quanto à automação e às soluções de armazenagem, além de restrições específicas no que diz respeito à movimentação e ao transporte de medicamentos. Tais buscas por melhorias e desenvolvimento abrem um grande potencial para a terceirização.

Além da possibilidade de redução de custos, os principais motivadores para a terceirização na indústria farmacêutica estão ligados a:

  • Know-how para otimização das operações;
  • Dificuldades em equilibrar as exigências específicas: carga delicada, rastreabilidade, rapidez e controle de temperatura;
  • Visibilidade no inventário (localização, movimentação e controle);
  • Ambiente regulatório complexo; e outros.

 

Seleção Dos Psls Na Indústria Farmacêutica


Diante da decisão de terceirizar as operações logísticas, a primeira dificuldade surge para montar a equipe do projeto de Strategic Sourcing. Em alguns casos, consultorias especializadas apoiam a empresa com processos estruturados e com benchmarking. Dadas as características singulares do setor, alguns pontos importantes devem ser abordados:

  • Critérios para a seleção de PSL;
  • Forma de remuneração dos serviços de transporte (R$/kg, % da Nota Fiscal ou R$/viagem), e de armazenagem (R$/palete, R$/unidade, R$/atividade, e outros);
  • Requisitos contratuais quanto à melhoria da operação, preço e nível de serviço.

O processo de seleção é extremamente estratégico e crítico para a indústria. As principais etapas envolvidas no processo de Strategic Sourcing são mostradas na Figura 2.

Figura 2 – Processo de Strategic Sourcing

Figura 2 – Processo de Strategic Sourcing

Fonte: ILOS

 

A etapa de RFI (Request for Information) tem um papel fundamental, principalmente na seleção de operadores para a indústria farmacêutica, uma vez que levanta características importantes para a identificação da capacidade do prestador logístico na operação de medicamentos. Há, inclusive, a possibilidade de visitas técnicas aos operadores para validar a capacidade de realização e confirmação dos pontos mencionados na RFI.

Dentre os pontos que se podem identificar nesta etapa e que são impactantes no processo da indústria farmacêutica, temos:

  • Experiência na atividade com operações nos setores de higiene, saúde e farmacêutico;
  • Capacidade de investimento dos operadores, dado que há empresas com medicamentos refrigerados e controlados, que exigem uma infraestrutura específica. Além disso, há um movimento grande em questões de aumento de nível de automação, ciclo do pedido e sistemas de controle, o que requer investimento de ambas as partes;
  • A percepção e satisfação dos atuais clientes dos operadores.

O processo de avaliação dos PSL abre discussão para uma série de dúvidas específicas sobre a operação da empresa farmacêutica em questão. As mais recorrentes estão ligadas a:

  • Detalhamento de responsabilidades da contratante e da contratada, no que diz respeito a seguro, condições financeiras, investimentos, licenças e pagamentos dos serviços de transporte e armazenagem;
  • Informações sobre os produtos comercializados pela empresa que são classificados como controlados e perigosos;
  • Restrições na manipulação de produtos perecíveis, dado que cada empresa farmacêutica pode ter procedimentos específicos, além dos padrões exigidos;
  • Perfil, pontos e frequência das entregas e canais de atendimento;
  • Quantidade de SKUs e volumetria detalhadas;
  • Detalhamento das etapas das operações de transporte e/ou armazenagem;
  • Características da operação, no que diz respeito à alocação de mão de obra, turnos de funcionamento, processo de carregamento das coletas e processo de devolução;
  • Autorizações e procedimentos da empresa contratante;
  • Informações sobre os fluxos fiscais da empresa;
  • Interfaces de sistema e informações que devem ser geradas;
  • Prazo de contratação dos serviços;
  • Detalhes sobre equipamentos de rastreamento do veículo e envio de informações necessárias de transporte;
  • Detalhamento dos SLAs e KPIs envolvidos.

As exigências e particularidades do mercado farmacêutico fazem com que as indústrias sejam conservadoras e cuidadosas na terceirização. Assim, testes operacionais, transparência na relação e qualidade do serviço são essenciais para a criação de um relacionamento de confiança e segurança de ambas as partes.

Além disso, as eventuais ineficiências na operação devem ser de conhecimento de ambas as partes e planos de ação para preencher estas lacunas devem ser construídos de comum acordo, a fim de garantir a confiança, o bom relacionamento e o sucesso na terceirização.

 

Desafios Aos Operadores Logísticos


A abertura do mercado farmacêutico para a terceirização e a atratividade dos preços no transporte de remédios está mobilizando os prestadores de serviços logísticos a cumprir as exigências necessárias para entrar neste mercado, como a aquisição de licenças e certificados. Todavia, estas legalizações são o ponto de partida para outras exigências que são determinantes para a operação.

Algumas das principais especificações da indústria farmacêutica são:

 

Nível de serviço

  • Cumprimento dos lead times acordados;
  • Pessoas treinadas e aptas para a manipulação de medicamentos
  • Flexibilidade e agilidade;
  • Alta performance operacional.

 

Qualidade

  • Elevados padrões de qualidade, que são controlados;
  • Atendimento às licenças e certificados exigidos: Anvisa, agências regionais, conselhos de farmácia (Federal e Regionais); autorização para produtos controlados, seguindo portarias e resoluções instituídas pela lei, certificado do Exército, das Polícias Civil e Federal, licenças da Cetesb e do Ibama (quando aplicáveis), responsável técnico com registro no Conselho Regional de Farmácia e adoção das “Boas Práticas de Transporte e Armazenagem”;
  • Baixo nível de não conformidades;
  • Áreas segregadas/climatizadas para acondicionamento de produtos com esta exigência específica, como refrigerados e vacinas;
  • Áreas higienizadas que atendam às normas e procedimentos da indústria, com locais climatizados e exigências de higienização adequadas;
  • Áreas segregadas de quarentena para os produtos;
  • Áreas segregadas para produtos de natureza controlada.

 

Serviços

  • Experiência em operações do setor de higiene, saúde e farmacêutico e/ou boas recomendações dos atuais clientes;
  • Sistema de WMS para armazéns;
  • Boa saúde financeira;
  • Conhecimento fiscal e tributário, importante para algumas especificidades da operação com outros elos da cadeia do setor de saúde.

 

Infraestrutura

  • Investimento em infraestrutura, como câmaras frias, climatização de ambientes, sistemas de gerenciamento do armazém, sistemas para roteirização e equipamentos necessários para movimentação dos produtos;
  • Informações via EDI;
  • Veículos com controle e monitoramento da temperatura;
  • Rastreamento 24 horas;
  • Planos de Gerenciamento de Risco mais complexos e críticos no processo.

A entrada em vigor da Resolução nº 54, de 10 de dezembro de 2013, da Anvisa, traz uma nova sistemática para a padronização do sistema de rastreamento de todos os medicamentos produzidos. Medida inovadora que gera impactos na maneira como cada unidade é produzida, controlada e rastreada, com vantagens de ganhos em redução do número de desvios e maior controle unitário de cada medicamento produzido, a resolução legislativa aumenta a complexidade de especificações do setor.

A gama de exigências, muitas delas particulares do setor farmacêutico, é um desafio para os operadores logísticos e transportadoras de médio a grande porte, dificultando a aproximação da indústria farmacêutica com o mercado de autônomos, os quais têm a maior representatividade no transporte brasileiro.

Por muito tempo, houve um grupo de operadores logísticos muito seleto atuante no setor. Trata-se de renomados operadores que atendiam às exigências do mercado farmacêutico, aptos a operar com excelência e qualidade. Havia, assim, uma tendência das empresas de buscar operadores logísticos que já tinham know-how e estrutura capazes de responder às expectativas da armazenagem e transporte de medicamentos. Entretanto, nos últimos anos, houve um movimento de adequação de operadores e transportadoras que estão em busca de ganhar espaço neste mercado. Dentre os transportadores e operadores logísticos registrados no Brasil, estima-se que 30% possuam licenças e certificados perante a Anvisa para o transporte de medicamentos. Este número ilustra que já existe uma mobilização do mercado na legalização sanitária, mesmo que predomine o número de transportadoras que não estão habilitadas ao transporte de medicamentos.

A Figura 3 mostra dados levantados em pesquisa realizada pelo Instituto de Logística e Supply Chain com transportadores de médio a grande porte, atuantes no segmento de saúde, com relação às tecnologias empregadas no transporte para o setor.

Figura 3 - Tecnologia empregada pelos transportadores no segmento de saúde

Figura 3 – Tecnologia empregada pelos transportadores no segmento de saúde

Fonte: ILOS

 

É possível observar que as transportadoras deste segmento são cada vez mais exigidas no que se refere às tecnologias, principalmente as de rastreamento dos veículos e das cargas. Mesmo assim, há necessidade de investimentos e melhorias por parte das transportadoras já atuantes no setor.

O aumento, ainda que tímido, dos players neste segmento permitiu que a indústria começasse a questionar a própria forma com que os contratos com os PSL são firmados. O modelo de contratação de fretes é um exemplo claro disso.

Muitas empresas do setor de saúde adotam um modelo de pagamento de fretes por percentual da nota fiscal. Neste modelo, não há ganho algum em produtividade ou eficiência da operação, já que o frete cobrado independe do tipo de transporte (fracionado ou frechado) e das distâncias percorridas. Há um movimento da indústria farmacêutica visando alterar a forma de contratação para um formato em R$/kg, R$/t ou R$/m3.

Outra tendência do segmento é o desenvolvimento interno da inteligência do transporte. A criação de uma área própria de gerenciamento de transporte abre espaço na indústria para um modelo de contratação de várias transportadoras para realizar o transporte, prática atualmente bem desenvolvida no setor de bens de consumo, mas que, para o de saúde, é algo novo e que vem sendo visto como oportunidade de redução de custos e aprimoramento das operações de transporte.

 

Conclusões


Anteriormente, a indústria farmacêutica, dotada de altas margens de lucro, não era impactada pelas questões logísticas. As mudanças e a evolução do mercado, porém, foram motivadores para o surgimento da preocupação com operações logísticas interligadas, eficientes e otimizadas no setor.

As mudanças no ambiente regulatório envolvem restrições importantes e frequentes, com crescentes requerimentos tecnológicos e de rastreabilidade da cadeia de medicamentos. A Resolução 54/2013 é um exemplo claro do desafio da indústria farmacêutica. Neste contexto, os prestadores de serviços logísticos surgem como opção de suporte e provedores de soluções diante de um cenário turbulento de mudanças.

A abertura do mercado farmacêutico para a terceirização provocou uma movimentação por parte de operadores e transportadoras na direção da adequação no transporte de medicamentos. O mercado tem se especializado e houve um aumento de opções de operadores aptos a transportar medicamentos.

Ainda assim, é um desafio tanto para a indústria quanto para os prestadores de serviços logísticos garantir que a parceria seja benéfica para ambos os lados e marcada por uma relação ganha-ganha nos serviços prestados. A confiança e o conhecimento do serviço prestado fazem com que, hoje, ainda haja predominância de parcerias entre grandes operadores com a indústria farmacêutica.

À medida que novos PSL se especializam e oferecem um serviço de qualidade e transparência, eles despontam como fortes concorrentes dos players tradicionalmente estabelecidos no setor farmacêutico.

O sucesso da empresa na terceirização depende da relação entre custo e qualidade e da eficiência da cadeia de fornecimento, além da estratégia definida para lidar com o trade-off entre oportunidades de terceirização, seja em estoques e/ou transporte, levando em consideração a complexidade do setor.

 

Referências bibliográficas

 http://portal.anvisa.gov.br/

– Logística Reversa para o Setor de Medicamentos – 2013 – Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial – ABDI

http://bvsms.saude.gov.br/

http://www.sindusfarma.org.br/

http://conselho.saude.gov.br/

– Panorama ILOS 2014

Para referenciar o artigo em sua publicação, utilize:

SETEM, J. Logística na indústria farmacêutica: desafios e oportunidades na terceirização. Revista Tecnologística, São Paulo, Ano XX, n. 230, p. 36-40, jan. 2015.