Posts

O Globo: Entenda a verdadeira dimensão dos leilões de infraestrutura esta semana

Fonte: O Globo – Coluna da Miriam Leitão
Por Alvaro Gribel

O governo fará esta semana uma série de leilões de infraestrutura para repassar à iniciativa privada 22 aeroportos, cinco terminais portuários e uma ferrovia. São ativos que em sua maioria já estão construídos, mas que precisam de melhorias e ampliação. Isso ocorrerá por meio dessas concessões. As empresas pagarão um valor que irá para o caixa do governo – outorga – ao mesmo tempo em que serão obrigadas a realizar investimentos, melhorando a produtividade da economia e gerando empregos.

A primeira coisa que é preciso entender nesse assunto é a dimensão desses leilões. Eles são importantes, mas não têm força para reverter o quadro atual de fraqueza da economia brasileira. O governo espera contratar investimentos de R$ 10 bilhões em 30 anos com esses projetos. Isso é uma gota no oceano diante das necessidades que o país tem na área. Para se ter uma ideia, o Instituto Ilos calcula que o déficit de investimento em infraestrutura está na casa de R$ 1 trilhão. Ou seja, o que está sendo chamado de Infra Week, em uma estratégia de marketing para alavancar a imagem do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, representa apenas 1% desse valor. Outra forma de enxergar esse investimento é convertê-lo em dólares. Os R$ 10 bilhões que parecem um número grande se transformam em menos de US$ 2 bilhões. Quase nada perto do PIB brasileiro, em torno de US$ 1,84 trilhão.

A especialista em logística Maria Fernanda Hijjar, sócia-executiva do Instituto Ilos, explica que o governo foi obrigado a reduzir o valor da outorga para aumentar a atratividade dos projetos por causa do contexto ruim da pandemia. Especialmente o setor aéreo está sendo atingido pela retração na demanda, por isso a estratégia foi abrir mão de arrecadação para tentar alavancar os ativos. A venda também ocorrerá em blocos, para diminuir o risco de leilões vazios. O investidor terá que comprar de uma só vez vários aeroportos, uns mais atrativos, outros, menos, separados em três regiões: Norte, Sul e Centro-Oeste.

– O governo espera que esses investimentos gerem crescimento econômico, e por isso opta por arrecadar menos, reduzindo a outorga, na expectativa que isso ajude a movimentar a economia – explicou Hijjar.

No caso dos aeroportos, a outorga total caiu de R$ 609 milhões para R$ 189 milhões. Já os investimentos exigidos foram reduzidos de R$ 6,9 bilhões para R$ 6,1 bi. Segundo Hijjar, os aeroportos do Sul devem atrair investidores pelo turismo e os negócios da região. Os destaques são os aeroportos de Curitiba e Foz do Iguaçu. Na região Norte, o atrativo é a movimentação de cargas, principalmente em Manaus. A dúvida está nos aeroportos do Centro-Oeste, que têm uma característica mais regional.

– Como o governo reduziu as outorgas, isso pode garantir os investimentos. Apesar da pandemia, os investidores em infraestrutura buscam retorno no longo prazo – disse Hijjar.

Na Bahia, haverá a concessão de um trecho de 537 quilômetros da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol). Ele ligará uma mina em Caetité, no oeste do estado, até Ilhéus, no litoral, onde o minério de ferro poderá ser exportado. Como os preços do produto estão em alta no mercado internacional, o momento pode ser bom para essa venda, embora Hijjar entenda que o principal interessado nesse trecho possa ser a própria empresa que explora a mina de Caetité. Em conversa na B3 nesta terça-feira, o ministro Tarcísio disse que a expectativa é que a ferrovia também possa, futuramente, ajudar no escoamento de grãos, com novos trechos que irão se conectar à ferrovia Norte e Sul.

Dos cinco terminais portuários que irão à venda, quatro ficam em Itaqui, no Maranhão, para transporte de granéis líquidos, especialmente combustíveis. Mesmo com a pandemia e a redução no consumo, o momento é favorável também pelos bons preços internacionais. O outro fica em Pelotas, para transporte de cargas em geral, especialmente toras de madeira.

Maria Fernanda Hijjar conta que a expectativa para os leilões, que ocorrerão de quarta a sexta-feira desta semana, é positiva. Mas ela teme que a instabilidade política neste momento possa afastar investidores.

– O investidor consegue precificar a redução de demanda provocada pela pandemia. Mas ele não consegue colocar no preço a instabilidade política. E este é um governo que tem a sua problemática. Isso pode assustar bastante – ponderou.

Com o governo em crise fiscal, é preciso atrair a iniciativa privada para os investimentos em infraestrutura. Os leilões vão na direção correta, mas são significam um ponto de virada, como quer fazer crer a equipe econômica.