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Entregadores: heróis anônimos da quarentena

As medidas de restrição de deslocamento são essenciais para a contenção do crescimento descontrolado da pandemia, o que superlotaria o sistema de saúde. No entanto, existe um grupo de setores e pessoas que precisam manter-se em movimento agora mais do que nunca. Profissionais de saúde, operações logísticas, fornecedores de materiais hospitalares, higiene, medicamentos e alimentos são alguns exemplos mais evidentes.

Gostaria, porém, de destacar um grupo de profissionais, geralmente liberais, que estão fazendo um grande papel para evitar o deslocamento daqueles cujo isolamento é recomendado. Os entregadores são fundamentais para manter a quarentena da maior parte da população. No entanto, apesar de importantes para a redução das transmissões cruzadas, eles também podem ser um meio de transporte muito eficiente do novo coronavírus entre grupos isolados, configurando uma ameaça de contaminação mesmo para aqueles que não saem de casa.

heróis anônimos quarentena - ILOS Insights Figura: Os heróis anônimos na quarentena: os entregadores. Fonte: Maarten van den Heuvel em Unsplash

Apesar do risco, os entregadores continuam sendo os heróis anônimos da quarentena e cabe aos gestores, consumidores e aos próprios entregadores implementarem práticas que minimizem os riscos de contaminação no last mile.

Na China, os varejistas online de alimentos acalmaram o país oferecendo para a população uma forma de comprar alimentos a preços razoáveis mesmo sem poder sair de casa. Mas muitos dos consumidores isolados queriam ter a certeza de que apenas suas comidas estavam quentes e não as pessoas envolvidas no preparo e entrega dos seus pedidos. Assim, alguns restaurantes passaram a medir a temperatura dos seus cozinheiros, embaladores e entregadores a cada pedido, informando por meio de um bilhete as medidas de higiene tomadas e as temperaturas das pessoas envolvidas no processo de preparo e entrega do pedido.

No Brasil, farmácias, mercados, restaurantes e aplicativos de entrega não param de registrar crescimento nos seus serviços de delivery. E os entregadores, que estão na linha de frente desses serviços, enfrentam muitas vezes condições de trabalho que aumentam ainda mais sua exposição. Grande parte não possui outra opção de sustento e, por serem, em sua maioria, autônomos, a responsabilidade sobre sua segurança e saúde acaba caindo sobre eles mesmos tornando sua realidade ainda mais dura.

Algumas iniciativas estão sendo colocadas em prática pelas empresas para proteger os entregadores e consumidores. A Loggi, por exemplo, investiu em comunicação e orientação, distribuiu álcool gel e luvas em suas principais agências e implementou uma triagem na entrada dos seus CDs com medição de temperatura corporal e questionamento sobre a saúde dos colaboradores. Já o iFood criou dois fundos para os entregadores que somam R$2 milhões. O primeiro fundo, no valor de R$1 milhão, financia um mês de inatividade para os entregadores que pertencem ao grupo de risco e o segundo será para dar suporte àqueles que precisam permanecer em quarentena em razão do Covid-19.

Para a segurança dos consumidores as práticas mais recorrentes são o incentivo ao pagamento via aplicativo e a criação da opção de entrega “sem contato”, ambas implementadas pelo iFood, Rappi e Uber Eats.

Apesar da rápida reação dos aplicativos de entrega com a implementação de práticas para evitar a contaminação de entregadores e consumidores, estas iniciativas ainda não são suficientes para garantir a não transmissão em domicílio. No entanto, o risco de contaminação reduz muito se compararmos a existência deste serviço com a não existência dele, tornando os entregadores essenciais soldados do last mile na batalha contra a Covid-19.

Referências:

China’s food delivery workers are lifeline in coronavirus outbreak

Coronavírus muda rotina nas empresas de entrega e transporte por app

iFood – Nossa Entrega

 

Transporte Last Mile – ontem, hoje e amanhã

Nunca estivemos tão dependentes do transporte last mile. A última milha de entrega, aquela que conecta as empresas aos consumidores finais, já vinha se ampliando e ganhando novos desenvolvimentos tecnológicos antes da COVID-19. Até então, o e-commerce, que subiu cerca de 25% no mundo, era o fator que mais impulsionava o crescimento das entregas a pessoas físicas. Mas agora, em um mundo em pandemia, a necessidade de entregas a consumidores mudou de dimensão. O last mile passou a ser o serviço mais imprescindível para que a estratégia de amenização do impacto do vírus funcione: a estratégia de deixar as pessoas em casa.

De repente, sem que nenhum planejamento histórico pudesse prever, a demanda por entregas em casa explodiu em alguns setores e sumiu em outros. Os varejistas, principal elo de contato com os consumidores, se viram em um desafio inimaginável. O pequeno restaurante, que nunca havia embalado refeições para viagem, não recebeu mais clientes em seus locais físicos. Por outro lado, as grandes redes supermercadistas e de serviços de entrega em casa, como GPA e iFood, explodiram em demanda.

Enquanto um exército de pequenos entregadores de documentos, motoristas de taxi e Uber viram sua demanda de transporte despencar, os entregadores de comida e produtos farmacêuticos não conseguiam mais atender a enxurrada de pedidos.

Para sobreviver, os pequenos precisam se reinventar. E para conseguir atender a todos, os grandes precisam se reestruturar. E rápido.

Não é difícil imaginar o futuro. Muitos pequenos, infelizmente, fecharão suas portas, e outros se manterão plugados e dependerão do desempenho das grandes plataformas de marketplace. Já os grandes varejos que atuam com produtos essenciais, no curto prazo farão muitas ações de ajuste de capacidade, incluirão novos procedimentos para evitar contaminações de equipes, perderão em produtividade, reduzirão suas margens de lucro, mas ganharão em volume e absorverão grande parte da demanda não atendida pelos pequenos.

Serão muitas tentativas e erros e ajustes pelo meio do caminho, pois a famosa expressão “trocar o pneu com o carro andando” está acontecendo agora.

A última pesquisa realizada pelo ILOS sobre o transporte last mile foi em meados de 2019, pouco antes da explosão do coronavirus. O levantamento apontou que o avanço de estoques para áreas de grande concentração urbana poderia trazer redução significativa dos prazos de entrega: uso de pequenos armazéns urbanos, aproveitamento de lojas físicas como pontos de estocagem do e-commerce e estruturação de dark stores são formas de avanço dos produtos para ficarem mais próximos aos clientes finais. Esses formatos, que poderiam trazer aumento de custos nas operações, hoje são um dos mais apontados como opção para se atender as necessidades de entrega rápida às famílias.

Observa-se no Brasil iniciativas de aumento das entregas a partir de loja, como é o caso da Lojas Americanas, que passou a divulgar fortemente em seu canal virtual o serviço de entrega no mesmo dia, com as lojas passando a levar os produtos na casa dos consumidores. O Mercado Livre também alterou procedimentos no last mile como a retirada da obrigação de assinatura no celular por exemplo, agilizando entregas e diminuindo o risco de contaminação. As duas empresas vêm reforçando o incentivo a pequenos comerciantes a se plugarem em seus marketplaces. GPA, que está na crista da demanda do e-commerce, pois é focado em produtos essenciais, alcançou rapidamente o seu limite de capacidade de entrega em casa, e precisou aumentar seus prazos até conseguir se reestruturar.

No ano passado, antes do surto de coronavirus, o maior problema identificado pelas empresas no transporte last mile era o trânsito e a falta de estacionamento para veículos de carga nos centros urbanos. Quem diria que agora esse seria o menor dos problemas? Existem hoje algumas restrições de circulação de veículos em estradas e dificuldades de movimentação de times devido a imposições dos governos, mas de forma contornável.

Mas para aqueles que conseguem pensar também no amanhã, e não apenas no hoje, é preciso estar atento. As pessoas não ficarão para sempre reclusas em suas residências e, portanto, teremos novamente trânsito. Ao mesmo tempo, muitos dos consumidores que estão experimentado receber produtos em suas casas, passarão a adotar esse novo padrão de compra. Isso significa que o last mile é essencial agora, e também o será no futuro.

Se considerarmos a China como uma antecipação do que está por vir, podemos usar isso a nosso favor. Se é assim, é possível visualizar no gráfico a seguir que a China está voltando a se movimentar (produtos e pessoas), visto que os índices de congestionamento de 2020 começam a se aproximar novamente dos índices de 2019.

transporte last mile - ILOS Insights Figura: Pessoas e cargas estão começando a se mover novamente na China. Fonte: Harvard Business Review (HBR), BCG Center for Macroeconomic

Se os congestionamentos estão voltando na China, quer dizer que os desafios do passado chegarão novamente no futuro, só que com muito mais intensidade. Pois o mundo terá mais e-commerce e mais exigências de entrega. E o transporte last mile, que será maior do que no passado, enfrentará mais trânsito, mais dificuldades de estacionamento, mais problemas de descarregamento de carga…

O que fazer? Estruturar, planejar, usar tecnologia. Profissionais de logística, de planejamento, de TI, de robótica, engenheiros, urbanistas… Empresas privadas e governos. O mundo precisará se reorganizar para uma nova fase da distribuição urbana que está por vir.

Referências:

ILOS Report “Desafios e Soluções do Last Mile Urbano”

HBR – How chinese companies have responded to coronavirus

ILOS Insights

Desafios do last mile: vagas e trânsito

Ações para minimização da contaminação em operações fundamentais

Ações para minimização da contaminação em operações fundamentais

Nas últimas semanas, muitos de nós, seguindo a recomendação das autoridades, estamos nos mantendo em isolamento social e tentando trabalhar em home office, da maneira mais produtiva possível com o apoio da tecnologia, no intuito de evitarmos a disseminação do coronavírus.

Neste momento, operações industriais e logísticas também começam a sofrer interrupções por conta da epidemia e, logicamente, pela natural diminuição no consumo de determinadas categorias.

No entanto, algumas operações são essenciais para a sociedade e não podem parar, como a indústria farmacêutica, de alimentos e bebidas, além, obviamente, das operações hospitalares e de segurança pública. Também operações de varejo, sobretudo de comércio eletrônico e delivery, têm sido desafiadas pelo incremento de demanda resultante da recomendação de isolamento social.

Um dos grandes desafios para estas operações é minimizar a possibilidade de contágio entre funcionários, uma vez que estes podem contrair a virose fora do ambiente de trabalho e disseminá-la antes de apresentar os primeiros sintomas, afetando muitas vezes a continuidade operacional de uma fábrica ou centro de distribuição.

Para além das medidas já adotadas de proteção individual, como uso de máscaras, luvas e demais EPIs, e higienização frequente com álcool gel, que outras medidas poderiam ser adotadas por empresas que precisam manter suas operações em funcionamento, garantindo a continuidade em um cenário de prolongamento da crise?

Minimização da contaminação - ILOS Insights Figura: A logística precisa continuar trabalhando para que não falte produto aos brasileiros. Fonte: Terri Sharp por Pixabay

Para responder a esta pergunta, podemos buscar inspiração em operações diferenciadas, que precisam adotar medidas de continuidade e proteção das equipes em situação de insalubridade e/ou periculosidade, como equipes embarcadas, ações militares e hospitais de campanha.
Parte das medidas apresentadas abaixo são contrárias às boas práticas de produtividade operacional, mas visam, mesmo que a um custo mais alto, evitar a descontinuidade de uma operação neste momento de crise.

Constituição de Equipes “Isoladas”

Na China, foram usados mecanismos tecnológicos sofisticados, a partir da geolocalização dos celulares e mecanismos de IA, para classificar o risco de contágio das pessoas a partir de suas movimentações e contatos com outras pessoas potencialmente infectadas, permitindo ações de afastamento e isolamento mais precisas e impedindo impactos maiores nas operações das empresas.

Na impossibilidade tecnológica e legal de realizar este rastreio nos times operacionais, uma das formas para evitar a rápida disseminação da doença em uma operação é a formação de equipes de trabalho que não tenham contato com outras, permitindo uma quarentena seletiva em caso de suspeita de contaminação de algum membro. Por exemplo, os times de entrega, formados por motorista e ajudantes, não devem sofrer modificações e permanecer sempre os mesmos.

Este mesmo conceito pode ser expandido para operações fabris, formando equipes fixas por linhas de produção, e de armazenagem, quando possível for separar linhas de picking ou as atividades de recebimento, movimentação e expedição. O ideal é que as equipes isoladas sejam compostas por pequenos grupos de 5 a 8 pessoas, facilitando o rastreio de suspeitos e evitando um impacto significativo na operação. Um exemplo de como fazer isto é definir o time da “linha de produção 3 do turno 1”, com operador de máquina, supervisor de linha, abastecedores e técnico de manutenção, que será sempre o mesmo e não terá contato com as demais equipes.

Naturalmente, esta “especialização” forçada retira flexibilidade da operação e leva a um aumento dos recursos necessários para realizá-la. Algumas vezes, não é possível a formação de grupos tão pequenos, nem útil pela natureza da operação, que obriga o contato entre os diferentes times. Nestes casos, seria possível expandir o conceito de grupos “isolados” para toda equipe operacional de um turno, jamais misturando pessoas entre turnos.

Cuidados nas Trocas de Turnos

Não adianta o isolamento das equipes durante suas atividades sem o devido cuidado em momentos de possível contato, como a troca de turno. É necessário fazer um escalonamento para a saída/entrada de cada equipe em um horário diferente, com intervalos de 10 a 15 minutos entre saídas e entradas, de forma que seja possível a higienização e sanitização de banheiros e vestiários.

Obviamente, este processo torna a troca de turnos muito mais longa e, por isso, é necessário um planejamento prévio e ajuste nos horários de trabalho. Para empresas que organizam o transporte para seus funcionários, é importante a manutenção do isolamento das equipes nesta operação, podendo obrigar uma troca dos ônibus por veículos menores, como micro ônibus e furgões, todos devidamente higienizados quando da entrada de uma nova equipe no veículo. Se mantidos os ônibus maiores, convém alternar os assentos, garantindo o distanciamento dos funcionários, o que resultará na necessidade de veículos adicionais.

Supervisão e Reuniões com Times Operacionais

Outro momento de possível contato e disseminação da virose são as reuniões de supervisão e orientação, que precisam ser repensadas. Novamente, tanto quanto possível, os times “isolados” precisam ser orientados individualmente, sem grandes reuniões matinais/vespertinas com todos na mesma sala. Algumas empresas estão realizando as reuniões em áreas abertas, como pátios e estacionamentos, com distanciamento entre as equipes.

No entanto, é necessário reconhecer a figura do supervisor/coordenador de operações e/ou linha de produção como um importante vetor de disseminação, uma vez que potencialmente tem contato com as várias equipes e poderia servir de “ponte” de contaminação entre elas.
Assim, esta figura passa a ser crítica para a continuidade operacional, devendo estar sempre com todos os EPIs necessários para a sua proteção e de suas equipes, como luvas, óculos, máscara e capote, evitando sistematicamente o contato físico e sendo transportado, sempre que possível, individualmente para sua residência com veículos da frota e/ou alugados.

Equipes de Venda e Entrega

As estruturas mais vulneráveis da operação, sem dúvida alguma, são as equipes externas, seja de vendas ou entregas e, por isso, a necessidade de cuidado redobrado com elas. Como entram em contato com outras operações e/ou com o consumidor final, a exposição ao vírus é muito maior e a chance de contaminação da unidade operacional em que estão baseados é relativamente grande. Além da responsabilidade social para não disseminação da doença na população isolada.

Por isso, entregadores e motoristas devem estar equipados com todos os EPIs, ter as cabines dos veículos higienizadas frequentemente e usar álcool gel para higienização das mãos a cada entrega, valendo o mesmo cuidado para entrega comercial ou residencial, inclusive para entregadores de pequenos comércios locais e de empresas de entrega urbana, como Loggi, iFood e outras.

Além disso, estas equipes não devem ser modificadas entre turnos e dias de trabalho e precisam ser isoladas das equipes de operação interna de fábricas e centros de distribuição. Entregadores individuais devem ser orientados a não terem contato uns com os outros.

Dark Store/Dark Kitchens

Falando agora de operações de lojas e restaurantes, em grande parte já sofrendo restrições de funcionamento, as medidas acima de isolamento e proteção das equipes também são benvindas. Mesmo os que mantêm as portas abertas ao público sofrem com a redução das vendas presenciais, compensada em parte pelo aumento das operações de delivery.

Neste cenário, pode ser interessante, ou mesmo vital, experimentar operações conhecidas como dark store e dark kitchen, quando lojas e restaurantes estão fechados para o público, operando como um mini centro de distribuição/produção de alimentos para a entrega.

O custo operacional de manter as lojas abertas não compensa para o volume de vendas presenciais e as operações de separação de mercadoria para entrega residencial tornam-se muito ineficientes. Ou seja, não ocorrem quase vendas presenciais e não é possível dar um bom atendimento, ou mesmo atender a demanda, do cliente que solicita a entrega dos produtos em sua residência.

As operações fechadas, ou “escuras” do termo em inglês, permitem um incremento excepcional de produtividade na separação e envio dos produtos para os clientes, viabilizando o atendimento da maior demanda, sem gerar perdas significativas neste momento. Além disso, preserva as equipes de contato com o público externo e evita a contaminação.

Farmácias, mercearias, restaurantes e mesmo lojas de grandes cadeias varejistas podem se beneficiar imensamente desta prática enquanto durar o isolamento forçado pela Covid-19.

Esperamos que as práticas aqui sugeridas possam ajudá-los na manutenção de operações fundamentais, garantindo a saúde de nossos heróis da operação e o abastecimento da população isolada.

A logística não pode parar


Na crise no qual o mundo e o Brasil se encontram devido ao novo coronavírus, não são só os profissionais de saúde que não podem parar. Outros exemplos são: operários das linhas de produção, motoboys, motoristas, portuários, ferroviários, almoxarifes e demais profissionais envolvidos na movimentação dos produtos.

Aliás, a LOGÍSTICA não pode parar.

Isso vale desde o transporte das pessoas, afinal, sem transporte público, boa parte desses profissionais que precisam continuar indo e vindo para seus locais de trabalho não conseguiriam chegar, até o transporte de mercadorias. Não adianta ter produtos disponíveis nas fábricas ou nos centros de distribuição se não há como levá-los até o destino final. EPIs, remédios e demais produtos hospitalares e farmacêuticos precisam estar disponíveis para consumo nos hospitais e farmácias, assim como os alimentos precisam estar nos mercados.

logística coronavírus - ILOS Insights Figura 1: A logística precisa continuar trabalhando para que não falte produto aos brasileiros. Fonte: Marcin Jozwiak em Unsplash

Para garantir que não falte produtos aos brasileiros, cada empresa vem adotando uma estratégia diferente.

Empresas de bens de consumo de primeira necessidade, como alimentos, bebidas, higiene e limpeza, assim como as indústrias farmacêuticas, estão operando “a todo vapor”. Essas empresas estão produzindo o máximo agora e empurrando os estoques para a frente na cadeia logística, com objetivo de garantir o abastecimento. Conversando com algumas empresas do setor, o principal receio é ter que diminuir o ritmo de produção ou entrega devido à falta dos funcionários que tenham contraído ou estejam com suspeita de estar com o Covid-19.

Já o varejo, seja alimentar ou farmacêutico, precisa ficar de portas abertas e ser capaz de atender o aumento da demanda online. Os principais desafios segundo essas empresas são: primeiro, dar todo o suporte necessário aos seus colaboradores, seja de EPIs e/ou psicológico, para que se sintam seguros e continuem indo diariamente ao trabalho e, segundo, conseguir repor as gôndolas o mais rápido possível. Com a evolução da epidemia, muitos consumidores foram às compras simultaneamente, comprando acima do padrão normal. Para evitar a falta de produtos, o abastecimento das lojas vem sendo feito mais frequentemente.

Outras medidas como alterar turnos ou reduzir a quantidade de pessoas trabalhando ao mesmo tempo estão sendo usadas por algumas indústrias. E tem sempre aqueles setores que decidem parar totalmente a produção, como é o caso do setor automobilístico.

Enfim, cada empresa está se adaptando a essa nova realidade. O que todas têm em comum é o direcionamento em minimizar ao máximo o impacto para seus colaboradores e para a sociedade. Até porque, sem pessoas, não existe empresa.

Da mesma forma, sem logística, o mundo para.

Diariamente, estamos acompanhando os impactos do coronavírus na logística e no supply chain e reunindo esse material para você. Acompanhe!

Impactos da Covid-19 nos lançamentos e estratégias de canais – a indústria audiovisual

A pandemia do novo coronavírus tem tido diversos impactos na sociedade e nas cadeias de suprimentos globais, como temos abordado aqui nos ILOS Insights. A restrição à circulação de pessoas vem causando grandes mudanças de hábitos e uma série de problemas para diversas indústrias e campos econômicos. Tais conjecturas exigem um esforço de replanejamento por parte dos gestores de supply chain, sobretudo sobre a estratégia de lançamentos e como distribuí-los.

Para ilustrar o ponto, um dos primeiros setores a tomar medidas extremas em função da escalada viral foi o cinematográfico. Muitas grandes produções, como o novo filme do espião 007, “Sem Tempo para Morrer”, e o remake de “Mulan”, foram adiadas a poucas semanas do lançamento nos cinemas, que estariam vazios. O filme “Velozes e Furiosos 9” teve sua data de estreia alterada de maio deste ano para abril de 2021. Dado que todo o investimento já foi feito na produção, é equivalente a segurar um produto quase um ano inteiro no estoque, com o custo associado a essa imobilização. Muitos dos filmes adiados nem têm data nova para estreia. A complexidade é grande porque toda a calendarização dos lançamentos é feita de forma a maximizar a receita dos estúdios, mas só um punhado de títulos podem ocupar o mesmo espaço temporal, e por isso é feita com anos de antecedência. As produções em andamento também foram impactadas, por conta das restrições de deslocamentos, e essas paradas também geram atrasos e prejuízos financeiros.

impactos da covid-19 Figura 1: Vários lançamentos cinematográficos foram adiados por conta da pandemia. Fontes: Paramount, Eon, Disney

No entanto, além do adiamento das obras, outras medidas mais ativas vêm sendo tomadas pelos produtores para reduzir os impactos. Algumas produções tiveram roteiros alterados para evitar filmagens em localizações de maior risco, como a Itália. Dessa forma, diminui-se a demora e os riscos para o término da produção (e para a saúde dos envolvidos, claro), minimizando o efeito do capital empatado. Outra ação adotada foi mudar a maneira de distribuir o conteúdo. A Universal, por exemplo, lançou todo o catálogo que estava em cartaz nos cinemas por canais digitais, disponibilizando-os para assistir em casa, para minimizar os prejuízos com a falta de espectadores. A Disney antecipou em três meses o lançamento de Frozen II em seu serviço de streaming, o Disney +, também para aproveitar o aumento da demanda por conteúdo para o lar.

impactos da covid-19 Figura 2: Filmes da Universal foram disponibilizados On-Demand por conta do novo Coronavírus. Fonte: Comcast

Esses casos e ações do mundo audiovisual servem de reflexão para empresas de outros setores. Pense no seu plano de lançamento de novos produtos. Ele ainda está apropriado dada a situação atual? E os produtos futuros, como serão impactados pelos adiamentos de agora? Assim como as salas de cinema, as linhas de produção e armazéns também possuem limites, afinal, e os planos operacionais devem ser adaptados de acordo. Com a mudança de rotina, pode-se pensar também em alteração de portfólio e estratégias de distribuição em canais que melhor atendam aos hábitos mais caseiros dos consumidores, além de planos para reduzir o estoque que tenha ficado parado em função da queda de demanda. Tal como está fazendo a indústria cinematográfica, é preciso apagar os incêndios e pensar na saúde das pessoas, mas também é necessário enxergar onde se encontram as oportunidades para evitar os piores caminhos.

Referências:

A vulnerable film industry feels the impact from coronavirus

Disney Plus now streaming Frozen 2 in a coronavirus coping surprise

Universal’s movies currently in theaters will be made available on demand this week

COVID-19 e a tecnologia como resposta


Em março de 2020, a pandemia do COVID-19, o novo coronavírus, é a principal notícia que circula nas manchetes dos jornais e redes sociais. Impossível não se preocupar com os impactos que isto causa no dia-a-dia das pessoas, que devem se precaver para não contrair e espalhar a doença. Desde o início do ano, já temos reportado aqui no Insights ILOS sobre os impactos do vírus na cadeia de suprimentos, no post do Alexandre Lobo e da Monica Barros. O coronavirus afetou indústrias e serviços, reduzindo as projeções de crescimento e criando forte desvalorização nas bolsas de valores. Esta crise tem gerado, em vários países, a necessidade de fechamento de fábricas, escritórios e comércio, devido ao alto grau de transmissão que o vírus apresenta. Por conseguinte, existe uma grande preocupação a respeito do isolamento dos pacientes, para conter o avanço de novos casos. Neste cenário, alguns países do mundo, principalmente a China, têm utilizado tecnologias, como drones e robôs autônomos, para inúmeras atividades, desde entregas de medicamentos em hospitais à vigilância de pessoas nas ruas.

covid-19 e a tecnologia - ILOS Insights

Figura 1 – Drone utilizado para vigilância na China. Fonte: CNN

A entrega comercial de drones já é uma realidade em alguns países do mundo, como citei neste artigo, porém na crise do coronavírus pudemos observar o desdobramento de setor de tecnologia chinês: em uma reportagem do Wall Street Journal, é possível verificar a utilização de drones para vigiar pessoas que estejam praticando algum comportamento de risco, como andar sem máscara ou estar junto com um grupo de pessoas próximas. Equipados com câmeras térmicas e alto-falantes, os drones têm sido utilizado em várias regiões da China. Em alguns casos, em que há câmera de alta resolução, é possível implementar reconhecimento facial que, integrado aos sistemas de big data do governo chinês, permite acompanhar de perto o comportamento dos cidadãos chineses.

Vídeo 1 – Utilização de drones e big data na vigilância dos cidadãos chineses, no intuito de coibir comportamentos de riscos e a propagação do vírus.

Outro uso de tecnologia que tem sido implementado pelos chineses é o uso de robôs autônomos. Em um restaurante, é utilizado um robô para entrega de comida nas mesas, evitando o contato de um garçom com os inúmeros clientes. Em um caso similar, é utilizado um robô para entregar comida a pessoas em isolamento em um hospital.

Vídeo 2 – Robôs autônomos entregam comida nos quartos dos pacientes.

Pensando nas operações envolvendo centros de distribuição, recentemente a Boston Dynamics desenvolveu um robô que realiza as atividades de descarregamento, picking e palletização que, em conjunto com os robôs autônomos de movimentação da Otto Motors, transforma as atividades de armazenagem em um ambiente cada vez mais independente de mão-de-obra humana. O HandleTM é um robô equipado com software de visão deep-learning, que o permite identificar e localizar o carregamento, possui capacidade de picking de 360 caixas por hora, suportando cargas de até 15 kg. Sua utilização em CDs surge como uma interessante alternativa neste cenário de necessidade de evitar aglomerações e o contágio do COVID-19, além dos outros benefícios relacionados à automação em geral.

Vídeo 3 – Novo robô para armazéns da Boston Dynamics, em parceria com a Otto Motors. Fonte: Boston Dynamics

Algumas atitudes do governo chinês têm causado polêmica em questões da privacidade e do respeito à liberdade de seus cidadãos. Porém, essa vigilância que tem sido implementada, em conjunto com outras medidas que o governo tomou, tem surtido efeito visto que o número de novos casos na China caiu ao longo do mês de março. Enquanto isso, percebe-se que as atividades da indústria e de supply chain poderiam ser menos impactadas, caso a robotização e a automação das operações já estivesse amplamente implementada.

E você, é a favor da implementação maciça da automação e robotização? Quais outras polêmicas poderão surgir no futuro próximo?

Referências:

Wall Street Journal
Boston Dynamics
World Meters
CNN

Coronavírus e a gestão de fornecedores


As primeiras notícias sobre o coronavírus na China foram no início de dezembro de 2019 e, junto com as informações sobre o vírus, vieram também as preocupações com o quê, além das pessoas, o vírus poderia afetar. Não tardou muito para que ficasse claro que a produção mundial e o comércio com a China seriam impactados.

Já em dezembro uma luz amarela acendeu para muitas companhias ao redor do mundo, afinal, boa parte do comércio internacional tem a China como parceiro principal, seja como fornecedor ou comprador de produtos acabados ou matéria-prima.

Entretanto, o comércio entre países, que não a China, também acabou sofrendo consequências. Isso acontece porque a produção mundial ao ser afetada, faz com que fluxos indiretos também sejam impactados. Para citar apenas um exemplo, a produção automobilística da Europa para abastecer o mercado interno europeu, depende de peças da China. Como essas peças tiveram atrasos, muito acima do padrão, e as indústrias têm estoque de segurança apenas para cobrir o tempo de trânsito além de pequenas variações na produção, algumas fábricas foram forçadas a reduzir o horário de trabalho e, com isso, produzir menos.

gestão de fornecedores - ILOS Insights Figura 1: Correta gestão de fornecedores pode evitar problemas maiores mesmo durante grandes crises. Fonte: Campaign Creators em Unsplash

Nesse contexto, vale ressaltar que uma boa estratégia de compras e suprimento tem entre outras etapas a classificação dos produtos e insumos de acordo com o “Valor Comprado” e o “Risco de Fornecimento”. E foi exatamente o “Risco de Fornecimento” que fez com que muitas empresas acionassem seu plano B à medida que foi ficando cada vez mais claro quais seriam as proporções do até então desconhecido COVID-19.

Na teoria, ao realizar o planejamento da cadeia de suprimentos, as empresas devem pensar na gestão de fornecedores e mapear, pelo menos até o segundo nível de fornecedores, quem são os parceiros mais críticos, quais têm substitutos de fácil acesso e quais são os riscos associados a cada decisão.

Isso significa que aquelas empresas que tinham isso sob gestão e acompanhamento, nas primeiras semanas de janeiro de 2020, já sabiam quais produtos, peças ou matérias-primas eram originárias das áreas afetadas e, portanto, puderam se preparar melhor para o que viria.

O fato é que todas as empresas que exportam ou importam da China sofreram ou sofrerão em maior ou menor escala. Uma conta simples demostra que o transporte marítimo da China para os EUA, a Europa ou Brasil leva, em média, 30 dias. Isso significa que, com o fechamento das fábricas chinesas antes do início do feriado chinês em 25 de janeiro, os últimos navios que saíram de lá chegaram aos seus destinos na última semana de fevereiro. E como a logística ainda não foi normalizada, teremos impactos na produção de algumas indústrias a partir de meados de março.

O governo chinês vem fazendo sua parte, mas alguns portos ainda estão engargalados. Muitos navios não saíram, os terminais estão lotados, cobrando inclusive sobretaxas. Há fila de caminhões e congestionamento nas ferrovias que chegam aos portos. A logística está prejudicada, e deve demorar um pouco a voltar à normalidade dado que o mundo começou a sofrer mais o impacto do vírus a partir de março.

A nova epidemia nos ensina, mais uma vez, a importância de um sistema robusto de monitoramento e gestão de fornecedores, e como isso é um requisito básico na hora da gestão de crise.

Não espere a próxima crise, a sua empresa está preparada? O ILOS oferece treinamentos sobre “Gestão Estratégica de Suprimentos” e “Processos de Suprimentos”.

 

Vírus se espalha na cadeia de suprimentos global

A China é o maior mercado consumidor com seus quase 1,4 bilhões de habitantes e também é uma espécie de fábrica do mundo, totalmente inserida na cadeia de suprimentos global. Em 2018, o país asiático exportou mais de US$2,5 trilhões, quase o dobro do segundo colocado, os Estados Unidos (US$1,7 trilhões). Naturalmente, sendo o maior mercado consumidor e o maior exportador, seus portos estão entre os principais em movimentação de contêineres no planeta, ocupando 7 das 10 primeiras posições, com o porto de Xangai tendo movimentado em 2018 mais de 40 milhões de TEUs.

cadeia de suprimentos global - coronavírus - ILOS

Mas um organismo com tamanho microscópico começa a afetar essa máquina produtiva e, consequentemente, já causa problemas em boa parte das cadeias de suprimentos globais. Em busca de conter a epidemia de coronavírus, o governo chinês, e as próprias indústrias, estão interrompendo operações para evitar a concentração de grandes grupos de pessoas e um possível contágio. O resultado é que já falta matéria-prima para alguns setores e a contratação de navios nos principais portos chineses caiu 20% em janeiro segundo matéria do jornal Valor Econômico.

Esse é um dos riscos de investir em uma cadeia logística global. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, a produção de uma empresa pode ser seriamente afetada por um problema que, a princípio, seria apenas local e irrelevante para ela. A mais de 16 mil quilômetros da província de Wuhan, na China, a Motorola no Brasil informou a possibilidade de parar sua fábrica em São Paulo por falta de matéria prima, o mesmo podendo acontecer com a Samsung. Nos Estados Unidos e na Europa, fabricantes de veículos também admitem a possibilidade de fechar plantas.

No caso brasileiro, a menor eficiência da logística no país até tem sido benéfica, pois acaba levando as empresas a contarem com estoques maiores, o que tem adiado os possíveis efeitos da falta de matéria prima.

Por outro lado, em países com infraestrutura de transportes eficiente e menor burocracia, cadeias de fornecimento just-in-time correm sério risco de ruptura. A falta de previsibilidade em relação ao tempo de duração dessa crise acaba levando as empresas a repensarem as datas para futuros lançamentos. Embora não tenha anunciado oficialmente, existia a possibilidade de a Apple lançar um modelo de iPhone mais barato nesse primeiro trimestre, lançamento este que pode ser adiado por conta das paralisações na produção.

Aliás, essa não é a primeira vez que a Apple, cuja sede é na Califórnia (EUA), sofre com problemas originários de sua cadeia de suprimentos globalizada. A crise comercial entre Estados Unidos e China trouxe algum impacto nos custos dos seus itens produzidos no país asiático, o que tem levado a empresa norte-americana a avaliar a possibilidade de levar parte de sua produção para fábricas em outros países.

E você, a operação da sua empresa foi prejudicada pelo coronavírus?