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Benefícios que a cabotagem pode trazer para o país

Para algumas pessoas, o termo cabotagem ainda é desconhecido. De fato, não é uma palavra que faz parte do dia a dia da maioria dos brasileiros. E o fato de não possuir a terminação “via” não permite a suposição de que tal termo se refere a um modal de transporte.

Em suma, a cabotagem configura o transporte marítimo de produtos ao longo da costa. É um modal estabelecido em nosso país há décadas, e realizado por empresas conhecidas como armadores, que possuem, afretam e operam os navios. O Brasil possui quase 8 mil km de costa e 80% da população se encontra a uma distância de até 200 km da orla. Isto explicita como nosso país tem uma forte vocação pelo modal.

No Brasil, a cabotagem representa 11% da matriz de transporte brasileira, bem abaixo de alguns países e regiões importantes como Japão (44%), União Europeia (32%) e China (31%). Destes 11%, mais da metade é relacionado à movimentação de petróleo e derivados. Se quisermos de fato solucionar o problema da alta dependência do modal rodoviário, o Brasil precisa desenvolver políticas de estado para acelerar o crescimento de modais alternativos. Muito se fala sobre o modal ferroviário, mas é a cabotagem que apresenta maior retorno sobre o investimento, vista a não necessidade de investimentos em vias. O desbalanceamento da Matriz de Transportes pode causar distorções e problemas, como o desabastecimento e os grandes prejuízos que ocorreram em 2018 por conta da greve dos caminhoneiros.

Nos últimos anos, a cabotagem tem crescido muito, principalmente a cabotagem de contêiner, que possui grande potencial de retirar cargas das rodovias. Entre 2010 e 2018, a cabotagem de contêiner cresceu, em média, 12,5% ao ano no Brasil. Para que o país retome o crescimento e esteja alinhado com as metas do novo governo, será necessário desenvolver mecanismos para que este crescimento seja acelerado.

crescimento da cabotagem_blog ILOS

Figura 1 – Crescimento da cabotagem de contêiner nos últimos anos.
Fonte: ILOS/ANTAQ. Nota: Volume estimado para dez/2018.

 

Além de balancear a Matriz de Transportes e garantir o abastecimento do país, a cabotagem fornece uma série de outros benefícios. Ela traz impactos positivos em termos ambientais, sociais, econômicos e no que tange a soberania nacional. Ambientalmente, é um modal mais sustentável, pois emite quatro vezes menos Gases do Efeito Estufa do que o modal rodoviário.

A cabotagem também traz benefícios em termos sociais, pois na medida em que se retiram caminhões nas rodovias para o transporte de longas distâncias, se reduz a quantidade de acidentes e mortes no trânsito. Em termos econômicos, a cabotagem é vantajosa, visto que o transporte rodoviário é, na média, 20% mais caro que o transporte marítimo ao longo da costa, além de menores riscos de acidentes e roubos. Por fim, em termos de soberania nacional, traz benefícios visto que a legislação brasileira define que a cabotagem só é realizada por Empresa Brasileira de Navegação, o que garante vínculo e compromisso da marinha mercante brasileira com o país.

crescimento da cabotagem_blog ILOS

Figura 2 – Cabotagem de contêiner compete diretamente com cargas que, hoje, são transportadas no modal rodoviário.

O governo que se inicia terá grandes desafios para fazer com que o país torne a crescer e se desenvolver. O teto de gastos, as limitações para novos investimentos e os compromissos que o país possui, como o Acordo de Paris e o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito apontam para o desenvolvimento da cabotagem como excelente alternativa. Cabe ao governo desenvolver mecanismos e medidas para atender aos anseios das empresas armadoras e dos embarcadores.

Referências:

Anuário Estatístico da Antaq

IPEA

Governo lança plano com metas para reduzir mortes no trânsito pela metade

Crescimento sustentável com o apoio de todos os modais

Como dito há alguns posts, para o Brasil crescer de forma estruturada, será preciso o desenvolvimento dos modais alternativos ao rodoviário para evitar um possível colapso do sistema de transportes ou aumento significativo dos custos logísticos. Caso a expectativa de crescimento econômico na casa dos 4,5% ao ano se confirme, acredita-se que mais de 2 trilhões de TKU serão movimentados no País. Seria um crescimento de quase 20% em relação à carga transportada em 2018, o qual só seria sustentável com o aumento na participação de modais típicos para o transporte de grandes volumes a longas distâncias, como ferroviário, hidroviário, cabotagem e dutoviário.

Desses quatro modais, o que atualmente exigiria menos investimentos por parte do governo seria a cabotagem. Explico. Dos quatro, a cabotagem é o único que, para ampliar a sua capacidade de transporte de carga, seria necessária apenas a ampliação da frota, com pouco ou quase nenhum investimento em infraestrutura. Afinal, ela já compartilha os portos com a navegação de longo curso, o mar não tem barreiras como em alguns rios, nem precisa ser asfaltado como na rodovia e nem precisa de novas estruturas para a criação de novas rotas como nas ferrovias e dutovias. Ou seja, os investimentos, praticamente, ficariam a cargo apenas das Empresas Brasileiras de Navegação (EBNs).

Evidentemente que os portos brasileiros precisam adequar melhor a sua integração com os modais rodoviário e ferroviário, mas a estrutura básica já existe e a ampliação de capacidade só dependeria do aumento na frota. Por parte das EBNs, o desejo de ampliar a frota existe, mas estas, atualmente, esbarram nos altos custos de operação no Brasil, os quais acabam afetando a sua competitividade com o modal rodoviário. A função do governo seria garantir um ambiente mais competitivo para as EBNs, sendo que algumas medidas já estão no papel, mas nunca foram postas em prática em sua plenitude.

Após anos de crise, naturalmente, a entrada de um novo governo renova as expectativas por um futuro melhor da economia. Entretanto, é fundamental evitar que os erros do passado sejam cometidos novamente. O uso de modais de transporte inadequados ao perfil de movimentação de cargas gera improdutividade ao Brasil, com aumento nos custos de frete e superutilização desnecessária das rodovias. O crescimento do País passa pelo crescimento dos modais com vocação natural para o transporte de grandes volumes de cargas a longas distâncias. E a cabotagem pode ser uma rápida alternativa enquanto se investe em novas ferrovias, hidrovias e dutovias.

Novo governo e as novas perspectivas para a área de transportes

A chegada de 2019 traz com ela a expectativa por novos ares para o setor de Transportes. Nas promessas do agora presidente está a retomada dos investimentos em infraestrutura de transportes, que vêm cambaleando e perdendo força após registrar, em 2010, o pico dos últimos 30 anos. Já há o aceno de atrair investimentos de até R$ 7 bilhões com concessões para a iniciativa privada de ferrovia (operação do trecho sul da Norte-Sul), 12 aeroportos e 4 terminais portuários, todos previstos no Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) do governo Temer.

Entretanto, é preciso mais. O agronegócio busca uma solução para ampliar o escoamento da sua produção pelos portos da região Norte, e as apostas recaem sobre a Ferrogrão, cujo edital para construção está previsto para o segundo trimestre deste ano. Outro projeto que precisa ser destravado é o da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), cujas obras já começaram em alguns trechos, mas estão longe de terminar. Por fim, cabe ao novo governo também dar andamento às prorrogações dos contratos ferroviários, que podem trazer novos investimentos para o setor, e acelerar as concessões portuárias.

O lado positivo é que todas essas ações estão no radar do novo Ministro da Infraestrutura, com a promessa de que sairão do papel o mais rápido possível. Mas, para suportar o tão esperado crescimento econômico com taxas a 5% ao ano, o Brasil vai precisar também de maior integração entre os diferentes modais, além do incentivo ao uso de modais mais eficientes para longas distâncias, como a cabotagem e o ferroviário. Afinal, trajetos de mais de 2 mil km percorridos por caminhão são ineficientes e só trazem prejuízos para transportadores, embarcadores de carga e a sociedade em geral, a qual acaba pagando preços mais caros e ainda padece em congestionamentos nas estradas.

E como incentivar o uso de modais alternativos ao rodoviário? Primeiro, é através de uma política integrada de transportes, planejada para aproveitar o melhor de cada modal em benefício de embarcadores de carga, transportadores e consumidor final. Esse passo já foi dado no ano passado, com o lançamento da Política Nacional de Transportes, que traz um caderno com estratégias para todos os modais visando justamente essa integração. Essas estratégias, porém, precisam sair do papel para realmente trazerem benefícios.

O segundo passo para ampliar o uso de modais alternativos ao rodoviário é incentivar o transporte multimodal, viabilizando a figura do Operador de Transporte Multimodal (OTM). Atualmente, as dificuldades fiscais e tributárias e o excesso de burocracia trazem insegurança aos operadores logísticos e embarcadores de carga, que acabam optando por usar apenas um modal, invariavelmente, o rodoviário. Para que o transporte multimodal seja usado em sua plenitude, é fundamental que este seja visto realmente como uma atividade única de transporte e não um somatório de uso de modais como acontece no momento.

Por fim, o governo precisa ser bastante criterioso na concessão de benefícios ou subsídios no setor de Transportes. Esses benefícios devem ser concedidos em cima de um planejamento integrado de transportes e não para aliviar um ou outro modal. Eles devem acontecer de forma que o governo garanta que não haja mais distorções como as que acontecem atualmente, em que uma carga pode sair de São Paulo e ir para o Belém de caminhão, em vez de usar o transporte por cabotagem.

Referências:

Política Nacional de Transportes

Produtores buscam alternativa aos caminhões

Após greve e tabelamento do frete, pesquisa mostra que caiu de 87% para 79% parcela de empresas que pretendem ter cargas transportadas por rodovias nos próximos anos

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O primeiro navio-porto do mundo

Um dos principais desafios à competitividade do polo industrial de Manaus (PIM) é a logística, consequência do posicionalmente geográfico desfavorável da região e da infraestrutura precária do seu entorno. Para reduzir os custos logísticos dos produtos fabricados pelas empresas da região, uma solução vem sendo desenvolvida há 4 anos pela empresa IV PartnerShip. Trata-se do Atlas HVS, o primeiro navio-porto do mundo, projetado para ser um hub de carga em alto-mar.

A empresa mantém oito projetos como esse no mundo: três previstos para o Brasil e outros cinco sendo desenhados para Angola, Açores, Mediterrâneo, Bacia do Plata e Estados Unidos (Figura 1). O mais adiantado, entretanto, é o navio-porto projetado para atender a região Norte do Brasil.

Figura 1 – Projetos de navio-porto da IV PartnerShip

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=8D0qc0540Es

 

Ao todo são cerca de 40 empresas especializadas em navegação, entre nacionais e estrangeiras, organizadas no consórcio para viabilizar a operação, com investimento estimado em 400 milhões de dólares. A estrutura flutuante ficaria localizada a 24 milhas da costa (cerca de 40 km), entre os Estados do Amapá e Pará. A esta distância, a plataforma ficaria na Zona Econômica Exclusiva (ZEE) e fora da legislação brasileira, o que dispensaria mais de 15 documentos para a chegada da carga e garantiria isenções fiscais e tributárias.

O navio foi projetado com uma dimensão de 511 metros por 297 metros. Deste total, uma área de 40 mil metros será destinada a instalação de escritórios, clínicas ou demais negócios. A estrutura conterá ainda quatro berços de atracação, dois externos e dois internos, com capacidade de receber navios de grande porte, com dimensões de até 400 metros de comprimento.

Figura 2 – Projeto de porto-navio

Fonte: IV PartnerShip

 

A IV Partnership atuará como administradora privada desta espécie de condomínio em que operadores portuários, agentes, donos de cargas e armadores vão instalar seu guindaste e operar sobre o casco. O modelo de negócios prevê o arrendamento de slots com capacidade de um contêiner de 20 pés (um TEU) por um período de 5 a 10 anos, de um total de 70 mil TEUs a 85 mil TEUs.

O objetivo do projeto é que os grandes navios descarreguem contêineres no Atlas HVS e sejam substituídos por barcaças e feeders para entregar os insumos vindos da Europa, Estados Unidos e Ásia. Esta operação evitaria problemas com burocracia e manobras nos portos brasileiros, além de proteger o bioma costeiro e diminuir os riscos de contaminação com água de lastro.

Além disso, a ideia é permitir às empresas avançar seus estoques e reduzir a necessidade de capital imobilizado. Ao invés de manter grandes estoques em países como Brasil, Argentina e Uruguai, por exemplo, a empresa poderia armazenar uma maior quantidade de produtos no porto-navio e enviá-los para cada país conforme o movimento da demanda.

A meta da IV PartnerShip é concluir todas as análises de performance local até o primeiro semestre deste ano para conseguir contratar os estaleiros ainda em 2017 e prepará-los para operação em até três anos. Fica a dúvida, no entanto, se as vantagens esperadas com este projeto serão suficientes para pagar o alto investimento necessário e tornar o navio-porto de fato rentável. Além disso, é de se esperar uma resistência das empresas gestoras dos terminais portuários da região Norte quanto ao projeto, temerosas com a possibilidade de perda de receita.

Será que o projeto irá mesmo a frente? É aguardar, para ver!

 

Referências

Revista Portos e Navios, Ano 58, n. 667, ago. 2016

<http://portalamazonia.com/noticias/navio-porto-surge-como-opcao-de-logistica-para-o-amazonas>

<http://www.abepro.org.br/biblioteca/enegep2004_enegep0112_1302.pdf>

<http://www.ivpartnership.com/>

<https://www.portosenavios.com.br/noticias/ind-naval-e-offshore/37232-empresarios-ajustam-polo-naval-do-amazonas>

<https://www.youtube.com/watch?v=8D0qc0540Es>

 

Iniciativas para redução de custos de transporte

A manchete de capa do Valor Setorial Logística de março de 2016 fala sobre a transferência da responsabilidade dos custos de transporte para o cliente. A substituição de CIF para FOB é mais um dos recursos que algumas empresas têm adotado para aliviar o peso dos custos logísticos em tempos de retração econômica.

custos de transporte - ILOS

Figura 1 – Custos de transporte no foco das empresas

Fonte: Divulgação

Essa iniciativa pode até aliviar os custos para o elo com maior poder de barganha, mas não reduz os custos de transporte no supply chain, que representam cerca de 6,8% do PIB (em 2014 foram gastos R$378 bilhões com transporte doméstico de carga no Brasil de acordo com pesquisa do ILOS). Este custo tende a aumentar, por causa do aumento do custo do diesel e do dissídio dos motoristas.

Grande parte dos altos gastos com transporte de cargas é causada pela crônica ineficiência da infraestrutura de transportes do país, decorrente de três décadas de baixos investimentos em infraestrutura. Para que o Brasil passe a contar com a infraestrutura de transportes equivalente à dos Estados Unidos, seria necessário um aporte de quase R$1 trilhão para investimentos em portos, rodovias e ferrovias. Esse investimento seria pago em aproximadamente 11 anos, considerando que o Brasil economizaria R$91 bilhões ao ano caso a matriz brasileira fosse equivalente à norte-americana. Os investimentos e custos foram dimensionados pelo ILOS e podem ser encontrados no Panorama de Custos Logísticos no Brasil 2016.

Enquanto o investimento não vem, uma das saídas é buscar modais alternativos como a cabotagem, tipicamente utilizada para movimentações de longas distâncias ao longo da costa do país. Apesar das vantagens econômicas e ambientais, a cabotagem está longe de ter seu potencial completamente aproveitado, pois carece de melhor integração com outros modais, demanda para viabilizar maior frequência de navios e operação adequada nos portos. No entanto, mesmo com os problemas enfrentados pela cabotagem, empresários de diferentes setores buscam conhecer o modal. Segundo o diretor comercial da Log-In, Marcio Arany, em citação no Valor, as empresas estão mais receptivas a fazer testes com cabotagem, que pode se tornar uma alternativa de custo ao rodoviário.

Referências

https://www.ilos.com.br/web/custo-de-transporte-no-brasil-a-conta-nao-fecha-em-2015/

https://www.ilos.com.br/web/cabotagem-e-reducao-de-custos/

https://www.ilos.com.br/web/cresce-a-migracao-das-rodovias-para-a-cabotagem/

https://www.ilos.com.br/web/analise-de-mercado/relatorios-de-pesquisa/custos-logisticos-no-brasil/

Valor Setorial Logística – Março/2016

Cabotagem e redução de custos na logística

Em tempos de crise, a busca por redução de custo é ainda maior.

Conforme publicado no Valor Econômico de hoje, empresas buscam na cabotagem soluções para reduzirem seus custos.

Estudos do ILOS apontam que, para cada contêiner hoje na cabotagem, ainda existam outros 6,5 com potencial de trocar as rodovias pelos mares.

Esse impacto seria benéfico, não só para os custos das empresas (em média, a cabotagem é cerca de 25% a 30% mais barato que o rodoviário), quanto para a redução de emissão dos gases que compõem o efeito estufa, já que a cabotagem é menos poluente.

O que carece de atenção por parte dos armadores de cabotagem é um maior foco nas pontas rodoviárias. Segundo os clientes, esse é o calcanhar de Aquiles do modal.

Muitas empresas pensam em avançar com a cabotagem para as entregas que correspondem às vendas, mas não conseguem evoluir nessa direção devido ao baixo nível de serviço na ponta rodoviária da entrega final.

De qualquer maneira, esse é um tipo de transporte que veio para ficar, não à toa, esse modal vem apresentando crescimento em anos de crise.