Bueno x Lima

O consultor e o representante de transportadores divergem sobre o impacto do frete no preço de produtos consumidos no dia a dia

DIUMAR BUENO, 58 anos, paranaense O que faz e o que fez: é presidente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA). Tem curso técnico na área de mecânica industrial e foi motorista de caminhão autônomo.
MAURÍCIO LIMA, 44 anos, fluminense. O que faz e o que fez: sócio diretor da consultoria ILOS, especializada em logística no mercado brasileiro.É graduado em engenharia de produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

 

por João Sorima Neto

O tabelamento do preço mínimo está funcionando?
DIUMAR BUENO Sim. Está em vigor a tabela do governo Temer. A que foi publicada em julho está suspensa, e o governo vem trabalhando para chegar a um consenso, via negociações com os caminhoneiros.
MAURÍCIO LIMA Na prática, não. Mas, apesar disso, aumentaram os preços médios dos fretes, prejudicando os embarcadores. Ao mesmo tempo, também diminuiu a demanda, principalmente dos caminhoneiros autônomos, os quais, mais uma vez, estão pagando a conta.

O senhor é a favor da tabela de preços mínimos do frete?
DB Sim. A tabela vai trazer uma regularização do mercado de transportes de cargas e na negociação dos fretes. O caminhoneiro autôno­mo disputa o frete com as transportadoras. O autônomo, que vive exclusivamente desse transporte, é prejudicado. A regularização desse mercado vai ser boa para o país.
ML Não, porque não existem exemplos positivos em relação a nenhuma forma de tabelamento. A tabela não será boa para ninguém. Ela reduz a demanda do caminhoneiro autônomo, aumenta a necessidade de investimento das transportadoras e faz com que as indústrias deixem de se preocupar com a produção e passem a operar com transporte próprio.

A tabela fere o livre mercado?
DB Não concordo. Com o preço mínimo estabelecido, o caminhoneiro autônomo vai ter o direito de negociar livremente conforme a região em que atua. Vai poder negociar sua margem de lucro, seja de 5%, 10% ou 15% sobre o valor mínimo.
ML Fere totalmente, pois, ao tentar corrigir o preço para cima, ela incentiva o aumento da oferta, que, por sua vez, puxa o preço para baixo. O tabelamento é totalmente contra a lei de livre mercado.

O governo Temer decidiu tabelar o frete para acabar com a paralisação da categoria. Foi uma decisão apressada? Ha­via outras saídas para acabar com a greve?
DB Não foi uma decisão apressada, foi uma decisão demorada. O governo recebeu sinais de que havia ânimo para uma paralisação da categoria, impulsionada pelo aumento dos combustíveis. Esses reajustes inflamaram os caminhoneiros, mas o governo não nos chamou para conversar. Estamos abertos a conversar com qualquer governo, não somos ligados a nenhum segmento político. Demos uma demonstração de força.
ML Foi uma decisão errada e feita de forma atabalhoada. O governo poderia atuar na qualificação da oferta, com medidas para mitigar as práticas que acabam incrementando a oferta com uma concorrência desleal, como o cumprimento do limite de peso. Assim, o preço tenderia a um equilíbrio sem a necessidade de tabelamento. Além disso, o governo também poderia atuar na melhoria das condições de tra­balho e de infraestrutura do setor.

Especialistas dizem que o tabelamento pode, em alguns casos, aumentar em até 100% o custo do transporte, provocando o aumento de preço dos alimentos. Qual é sua avaliação?
DB Isso é mentira. Os que dizem isso têm intenção de manipular a opinião pública. Fizemos um levantamento mostrando que não houve queda nas exportações, o movimento nas estradas não caiu e o preço dos produtos até foi reduzido com o aumento da produção. O problema é que os preços do frete são manipulados no mercado pelos embarcadores e pelas transportadoras. Os embarcadores pagam até acima da tabela, mas os caminhoneiros autônomos recebem menos do que o custo mínimo.
ML Sim, onerar o transporte significa aumentar o custo de vida de toda a população, mas o pior de tudo é que isso freia a economia. Se não fosse a greve do ano passado, o PIB teria sido maior, empregos teriam sido gerados e esse avanço econômico teria aumentado a demanda e o preço do transporte. A tabela agravou os problemas em vez de melhorá-los.

Esse cenário desestimula o setor produtivo a investir mais?
DB Nossa safra é excepcional, e não é o valor do frete que influencia isso. Nosso problema é a infraestrutura ruim, com os custos de embarque, por exemplo, mais caros do mundo.
ML Claro, ao aumentar o custo Brasil, nossos produtos perdem com­petitividade em todo o mundo. Assim, diminuímos a produção e, consequentemente, o investimento.

Os caminhoneiros pedem um reajuste de até 30% nos valores do frete mínimo. O que o senhor acha disso?
DB Isso não é saudável do ponto de vista legal. Estabelecer lucro em tabela não é bom. Qual é o percentual bom para cada um? Qual é a margem de lucro para um caminhoneiro que atua no Sul e outro no Nordeste? Nós analisamos a tabela que está sendo discutida com o governo e sugerimos alguns reajustes que estavam distorcidos.
ML Diante de um reajuste dessa magnitude, os caminhoneiros autônomos seriam substituídos pelas empresas de transporte ou por frota própria dos embarcadores.

A lei que cria o tabelamento é constitucional?
DB Essa é uma polêmica. Minha avaliação é que nesse caso o governo está estabelecendo uma condição de preço mínimo para uma categoria que é importante para o país. O governo tem esse poder quando avalia que um setor está sendo prejudicado. Hoje 99% das negociações do preço do frete são feitas entre embarcadores e transportadoras. O caminhoneiro autônomo está sendo prejudicado.
ML Existem mais de 60 questionamentos judiciais contra a tabela, inclusive no Supremo Tribunal Federal, que deve se manifestar sobre a medida. É inconstitucional, mas o problema se tornou político.

O país é muito dependente do transporte rodoviário. Já não era hora de mudar a matriz dos transportes?
DB Já passou da hora. Os caminhoneiros não serão prejudicados. Em outros países, com matriz diversificada, existe muita demanda para os caminhoneiros. Com trajetos mais curtos, os motoristas vão poder passar mais tempo com a família.
ML Temos de desenvolver os transportes ferroviários, aquaviários e dutoviários, principalmente nos casos de grandes volumes e grandes distâncias, mas também temos de expandir e melhorar a infraestrutura rodoviária.

Fonte: Revista Época