Saída para Crescer

Para analistas, recuperação passa por saúde, obras e renda mínima

HENRIQUE GOMES BATISTA
E JOÃO SORIMA NETO
economia@oglobo.com.br
SÃO PAULO

Uma das frases mais ditas por economistas, empresários e investidores na atual crise do coronavírus é que “situações extremas exigem medidas extremas”. Para garantir um processo de retomada sustentada do crescimento após o fim da pandemia, muitos analistas internacionais argumentam que o mundo deveria implantar um novo Plano Marshall, iniciativa dos Estados Unidos para reconstruir a Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, não há condi­ções de o planeta replicar o que foi feito há mais de 70 anos. As soluções, desta vez, terão que ser caseiras. E o receituário brasileiro deve ser composto de investimentos públicos em saúde, infraetrutura e um sólido programa de renda mínima.

Ainda é cedo para se ter contas exatas sobre quanto custará o pacote para vencer a pandemia e retomar a trilha do crescimento. Os primeiros cálculos apontam que o volume de dinheiro a ser gasto somente para enfrentar os problemas iniciais gerados pela pandemia deve atingir cerca de 10% do PIB, o conjunto de riquezas que o país consegue produ­zir durante um ano.

– É preciso um plano de transferência de renda equivalente a 10% do PIB, ou seja, mais de R$ 700 bi­lhões, por 90 dias inicial­mente, já que nossa referência da pandemia é a China e as coisas começaram se recuperar lá depois desse pra­zo -diz o ex-presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros.

RESERVAS INTERNACIONAIS
A lógica é primeiro cuidar da emergência médica, de­pois garantir a subsistência dos mais vulneráveis e tentar manter emprego, renda e empresas funcionado.

Assim como é importante achatar a curva dos casos de coronavírus para evitar o colapso do sistema de saúde, são necessárias medidas para reduzir a curva da re­cessão que já está em curso, atendendo a população e fa­cilitando uma recuperação mais célere no futuro.

Monica de Bolle, da Johns Hopkins University, em Washington (EUA), defende um plano básico de uso dos recursos públicos.

-Ampliar o SUS em R$ 50 bilhões, colocar R$ 30 bilhões para salvar micro e pequenas empresas, criar renda básica de R$500 para 36 milhões de pessoas por um ano, a um custo de R$ 216 bilhões, e ampliar em 50% o Bolsa Família, a um custo de R$15 bilhões – resume a economista brasileira.

Felipe Salto, do Instituto Fiscal Independente (IFI) do Senado, estima que o co­ronavírus deve causar uma queda do PIB na casa de 4%, reduzindo a receita do go­verno federal em R$120 bi­lhões. Com o aumento dos gastos necessários para bancar um pacote de recuperação, a necessidade de finan­ciamento público do país no ano de 2020 pode bater os R$600 bilhões. Mas ele vê um espaço para resolver parte deste problema:

– Podemos vender US$ 66,6 bilhões das reservas in­ternacionais, pois é o que sobra acima no nível prudencial estabelecido pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) com uma mar­gem extra de 25%. Isso daria R$ 333 bilhões, ampliando o espaço do endividamento do país-explica.

Salto lembra que é preciso fazer com que os gastos ex­tras de agora sejam temporários e não permanentes, uma preocupação de praticamente todos os economistas que sabem que, no day after da epidemia do coronavírus, o governo brasileiro terá que fazer um ajus­ te vigoroso de suas despesas para retomar, no futuro, uma trajetória de equilíbrio para as contas públicas.

ESTRATÉGIA DO BNDES
Maurício Lima, do ILOS, acredita que um item básico do receituário de recuperação brasileira será o investimento em infraestrutura, o que permitiria um rápido crescimento dos empre­gos, ajudando a reduzir gargalos econômicos do país. Neste ponto, ressalta, o país tem um diferencial: enquanto o mundo desen­volvido tem pouca margem para investimentos, o Brasil tem um gap de infraestrutura de US$l trilhão.

– E, em um segundo mo­mento, investir fortemente em educação e inovação, pa­ra não perder oportunidades históricas-acrescenta.

Igor Rocha, da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib ), também defende que o país precisa, se for usar uma referência his­ tórica, adotar um plano em linha com o New Deal, im­ plantado pelo governo dos EUA para sair da Grande Depressão dos anos 1930. E, neste processo, a primeira coisa sera, reorganizar a atuação do Estado, para que o governo brasileiro tenha força para adotar, quando necessário, políticas anticí­clicas, incluindo uma revi­são da estratégia do BNDES, dos bancos estatais e dos investimentos públicos.

-No curtíssimo prazo, a medida é jogar muito dinheiro no Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), para fazer obras em estradas, enquanto novos projetos de infraestrutura, habitação e saneamento saem do papel.

O aumento do peso do Estado na economia é outro efeito colateral apontado por alguns analistas como inevitável pós-coronavírus. Por isso, Luiz Carlos Prado, da UFRJ, é contra projetos de redução de salários de servidores ou trabalhadores em geral.

– No pós-guerra, vimos mais proteção ao trabalho, não menos. Precisamos ampliaras ações sociais, seguir o modelo da Alemanha, não dos EUA. Usar instrumen­tos como o BNDES para direcionar a economia, especialmente em investimentos em transporte urbano e saneamento-diz Prado.

MUDANÇAS TECNOLÓGICAS
Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral, acre­dita que a Covid 19 “deixou o rei nu”, ou seja, chegou em um momento de discussão sobre as profundas mudanças tecnológicas que têm transformado a sociedade.

-Essa crise, com desem­prego estrutural por causa da tecnologia, deve fazer com que o debate de uma renda universal, que existe desde 1950, ganhe força em todo o mundo – afir­mou.-O governo não pode tentar salvar a economia pensando em recuperar o que havia antes, mas em direcionar o pais para a indústria 4.0, para o conheci­-mento e a inovação.

O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, que defende aplicar 10% do PIB no pacote de recuperação, acredita que a situação do país pré­-coronavírus pode levar a uma mudança mais radical por parte do governo federal:

– Antes do coronavírus chegar, já estávamos com 11,5 milhões de desempre­gados. Talvez esta crise te­nha este impacto “positivo”, digamos, de mudar os parâ­metros para que o governo atue mais fortemente pelo emprego – diz Ricupero, que atualmente é professor da Faap, em São Paulo.

O professor e doutor em História Econômica do Ins­per Vinicius Mülller afirma que, em um segundo momento, o governo deveria pensar em alocar recursos de forma a estimular polos de desenvolvimento em cidades médias, redimensionando o atendimento de saúde e de transporte públi­cos nessas localidades.

Ex-secretário de Política Econômica no primeiro mandato do governo Lula, Marcos Lisboa avalia que o país está ficando mais po­bre com a queda de renda das pessoas e precisa de um plano que faça a economia continuar funcionando minimamente.

– Não adianta baixar os juros, porque as pessoas não vão gastar. É preciso um gru­po de técnicos da Econo­mia, da Saúde, elaborando medidas que mantenham a oferta de bens e serviços, além de garantir renda aos mais pobres. E é preciso fazer com que esses recursos cheguem aos mais pobres­ diz Lisboa, que atualmente preside o Insper.