Privatização dos Correios: bom negócio ou problema anunciado?

Com a eleição do novo governo, a proposta de privatização dos Correios ganhou novo fôlego, e o presidente Jair Bolsonaro já deu sinal verde para que a equipe econômica avance com o projeto de venda da estatal. Nos últimos anos, a qualidade dos serviços prestados pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) vem sendo bastante questionada, em particular por clientes de lojas virtuais que utilizam o serviço de entregas da empresa, a qual detém 66% do market share no segmento (segundo o último levantamento realizado pelo ILOS em 2018). Não faltam exemplos de situações em que a eficiência e a idoneidade da instituição podem ser questionadas.
De acordo com o ranking do Reclame Aqui – um dos principais canais utilizados para reclamações contra empresas – os Correios amargam a 10ª colocação entre as empresas com maior número de reclamações quanto a seus serviços [1]. Ainda, o índice de reputação dos Correios está entre os piores da plataforma.

Figura 1 – Reputação dos Correios no Reclame Aqui. Obtido de https://www.reclameaqui.com.br/empresa/correios/

A pesquisa de Imagem Institucional divulgada pelos Correios aponta que menos de 80% dos entrevistados caracterizam seus serviços como “eficiente” ou “muito eficiente” e o nível de confiança nos Correios é o menor dos últimos 10 anos [3].

Figura 2 – Pesquisa de Imagem Institucional. Obtido de https://www.correios.com.br/sobre-os-correios/a-empresa/pesquisa-de-imagem-institucional

Sob outra perspectiva, existem argumentos para questionar se a privatização da empresa de fato seria a melhor saída. De acordo com o presidente dos Correios, o General Juarez Aparecido de Paula Cunha, “os Correios são uma empresa que depende do próprio resultado e não tem orçamento do governo”. Em reportagem de 26/04/2019, o Valor Econômico informa que, de todos os 5570 municípios brasileiros em que a empresa opera, apenas 341 são lucrativos. Ou seja, mais de 93% das cidades dão prejuízo, mas as agências dos Correios não podem ser fechadas nessas localidades. Cunha justifica, “é um subsídio cruzado” [4].
Em linhas gerais, isso quer dizer que a operação dos Correios nas regiões mais inóspitas do país é financiada pela operação da estatal nos grandes centros urbanos, onde é possível gerar lucro. De fato, sob essa ótica, parece pouco provável acreditar que a estatal sobreviva somente com a porção menos lucrativa da operação. O Valor Econômico aponta um cálculo da administração da ECT estimando que, sendo privatizada a parte lucrativa, seria necessário que o Estado desembolsasse R$ 8 bilhões por ano para tocar a operação, além de arcar com os passivos da instituição [4].
Aparentemente, o presidente da estatal não é favorável a uma privatização propriamente dita: “Temos um caminho longo a percorrer em termos de [adequação às] normas [de governança]. Seria uma operação mais semelhante à do Banco do Brasil, portanto, não significaria uma privatização” [4].

Alguns exemplos favoráveis e contrários à privatização dos Correios podem ser encontrados pelo mundo:

A favor:

  1. Deutsche Post: Apesar de ser visto com bastante cautela pelo mercado, o correio alemão pode ser tomado como case de sucesso no que diz respeito à privatização do sistema postal. A empresa expandiu seus negócios com aquisições estratégicas da DHL e da Airborne nos EUA [5][6].
  2. Royal Mail: o correio da Inglaterra iniciou um processo de privatização dividido em três partes em 2013, ano em que foi realizada a primeira oferta pública, resultando na venda de 60% das ações. Em 2015, as ações restantes foram vendidas, inclusive as que foram retidas pelo governo inglês [6].

Contra:

  1. USPS: O serviço postal americano enfrente um dilema bastante similar ao da maioria: apresenta resultados muitas vezes negativos. Apesar disso, a discussão em torno da sua privatização não é apoiada unanimemente nem mesmo pelo atual governo, já que poderia esbarrar em problemas de atendimento de áreas rurais pouco lucrativas [7].
  2. Correo Argentino: O serviço postal argentino passou por uma privatização completa na década de 90. Após inúmeros problemas, foi reestatizado em 2003 [4].

Mantendo o princípio constitucional da universalidade dos serviços postais, o assunto se torna bastante complexo e requer uma profundidade de análise muito maior do que usualmente se dá.

Fontes:
[1] https://www.reclameaqui.com.br/ranking/
[2] https://www.reclameaqui.com.br/empresa/correios/
[3] https://www.correios.com.br/sobre-os-correios/a-empresa/pesquisa-de-imagem-institucional
[4] https://www.valor.com.br/empresas/6227065/correios-nao-sobrevivem-se-parte-rentavel-vendida-diz-presidente
[5] https://www.dw.com/pt-br/globaliza%C3%A7%C3%A3o-dos-correios-alem%C3%A3es/a-817881
[6] https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2933
[7] https://edition.cnn.com/2018/12/04/politics/treasury-usps-report/index.html