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Pandemia impulsiona entregas comerciais por drones


No fim de 2019, escrevemos sobre os avanços nas entregas comerciais com drones. Entre os acontecimentos, tivemos a primeira entrega comercial de produtos em domicílio (em uma parceria entre a FedEx, rede de farmácias Walgreens, e Wing, da Alphabet), concessão à UPS de uma licença para operar frotas de veículos aéreos não-tripulados (concedida pela FAA – Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos), e o início da parceria entre a UPS e a CVS Pharmacy (outra gigante do setor varejista farmacêutico americano) para a entrega de remédios prescritos diretamente para clientes.

Essa última parceria teve suas primeiras entregas concretizadas em novembro de 2019, e, agora, impulsionadas pela realidade da pandemia que vivemos, as empresas estão realizando entregas para o The Villages, a maior comunidade de aposentados dos EUA, com cerca de 135.000 residentes, na Flórida. Os drones utilizados são da Matternet, projetados especificamente para o transporte de suprimentos médicos, e já realizavam entregas em um hospital na Carolina do Norte.

Vídeo: Parceria entre CVS e UPS testa a entrega de remédios através de drones em região nos Estados Unidos

Além da CVS, a Novant Health, do setor de saúde, anunciou no fim de maio a distribuição de equipamentos de proteção individual e de insumos críticos para as equipes médicas na linha de frente, também na Carolina do Norte. Os drones usados nessa operação são da Zipline, uma startup californiana pioneira na entrega de suprimentos médicos em comunidades rurais na África. A operação da Zipline lá já realizou 36 mil viagens para 1,5 mil hospitais na Ruanda e em Gana desde 2016, e agora também dedica esforços na luta contra a Covid-19.

A operação da Novant com a Zipline se tornou possível uma vez que, em meados de abril, a FAA passou a permitir o uso de drones em esforços de combate à Covid-19 (isenção à regulamentação Part 107), desde que se enquadrem nas regras e procedimentos de emergência existentes. A Zipline diz que pretende expandir a parceria, partindo de uma operação que hoje é de caráter emergencial, para entregas comerciais nos próximos 2 anos.

Na cidade de Christiansburg, Virginia, a Wing tem feito entregas de itens essenciais, como remédios, enlatados, papel higiênico e macarrão. A subsidiária da Alphabet também está atuando em parceria com negócios locais que se viram obrigados a fechar as portas por causa do coronavírus. Entre eles o Mockingbird Café, com a entrega de doces e confeitos, e o Burgh Coffee, com a entrega de bebidas geladas. Ao redor do mundo, a empresa também tem operações comerciais na Austrália e na Finlândia. A empresa diz ter completado mais de mil entregas em um período de duas semanas em maio de 2020.

Em 2013, Jeff Bezos dizia que a Amazon realizaria entregas com drones em cinco anos, mas não vimos isso acontecer. Há obstáculos técnicos a superar, mas a regulamentação rígida se mostrou o principal desafio ao longo dos anos. Nos EUA, a FAA determina que os drones devem permanecer na linha de visada visual de quem pilota o dispositivo. Para não estarem amarradas a essa restrição, as empresas que desejam lançar serviços de delivery precisam obter a certificação Part 135. A Wing e a UPS foram as primeiras a obtê-la, porém em níveis diferentes (a licença da UPS é a mais robusta, e não impõe limite ao tamanho da operação), e muitos acreditam que a Amazon conseguirá a certificação ainda em 2020.

No Brasil, vimos algumas empresas realizarem testes no último ano, como a iFood e a B2W. Ambas atuaram em parceria com a fabricante SMX Systems/Speedbird Aero, que usa tecnologia nacional, e já realizava testes em 2018. A drogaria Venancio também realizou testes em 2019 (com a startup My View), em Petrópolis, e, recentemente, em maio, um restaurante de comida japonesa de BH também testou o delivery. O uso de drones aqui é regulamentado pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), e também regem o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), da Força Aérea Brasileira (FAB), e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

A ANAC informa que “o serviço de entregas por drones, embora muito promissor em um futuro próximo, ainda não se tornou uma realidade no Brasil, dada a grande dificuldade técnica de inserção segura dessas aeronaves no espaço aéreo. Atualmente, há estudos conduzidos pela ANAC, DECEA e um requerente para demonstrações desta capacidade. Contudo, não há hoje qualquer empresa (restaurante ou de qualquer ramo de atividade) que tenha sido autorizada pela ANAC a realizar o serviço de delivery”.

Além de entraves regulatórios, há questões relevantes sobre privacidade. Porém, no momento que vivemos, o uso de drones para entrega de itens médicos e essenciais, especialmente para uma parcela da população mais vulnerável ao coronavírus, e para aqueles que estão na linha de frente nos hospitais, abre uma janela de oportunidade para mudar a percepção das pessoas. Em um passado recente, muitos de nós enxergávamos esse tipo de entrega como uma realidade possível, mas ainda distante. É claro que ainda há muitos desafios a serem superados no setor, porém, é certo que a nova realidade trazida pela Covid-19 tem exercido um papel catalisador, ajudando a acelerar todo este processo.

Referências:

Financial Times – US drone delivery service takes flight to battle coronavirus
Novant Health – Nation’s First Emergency Drone Operation for Hospital’s Pandemic Response Launches
Forbes – Flying Robots Might Soon Deliver Your Morning Coffee
Federal Aviation Administration – Novel Coronavirus (COVID-19) Update
Supply Chain Dive – What is Part 135 and what does it mean for drone delivery?
O Tempo – Restaurante em BH faz testes para entrega de comida com drone durante a pandemia