OS DESAFIOS E OPORTUNIDADES DA CAPACITAÇÃO EMPRESARIAL EM LOGÍSTICA

Por Beatris Huber e Fernanda do Rego Monteiro

Os desafios das funções logísticas e as constantes mudanças de mercado exigem das empresas cada vez mais capacitação e qualificação de seus colaboradores. Em uma pesquisa realizada pelo ILOS com participantes do XX Fórum Internacional de Supply Chain em 2014, 85% dos respondentes afirmaram que a empresa em que trabalham oferece treinamentos.

As motivações para o investimento em capacitação executiva são diversas, como mostra o estudo Workforce Development and Business Outcomes, desenvolvido pelo grupo Economist Inteligent Unit. A pesquisa (Figura 1) foi publicada em setembro de 2014 e contou com a participação de 295 executivos da Ásia, Europa, América do Norte e América Latina que trabalham em diferentes setores da economia.

Figura 1 - Qual dos resultados justifica o investimento no desenvolvimento da força de trabalho?

Figura 1 – Qual dos resultados justifica o investimento no desenvolvimento da força de trabalho?
Fonte: The Economist Inteligence Unit (2014)

Apesar da clara necessidade de investir no desenvolvimento de seus profissionais, as empresas ainda enfrentam muitos desafios quando se trata de treinamentos e capacitação empresarial.

 

Os 5 maiores desafios da educação corporativa

Dispersão Geográfica

A globalização trouxe diversos benefícios para as empresas, mas também tornou a realidade corporativa mais complexa. Se antigamente era comum parar as operações de uma organização para reunir os funcionários de um escritório ou de uma fábrica em uma sala de aula e inundá-los com ensinamentos, técnicas e conceitos, hoje em dia isso é cada vez mais difícil e inadequado. As equipes são numerosas e estão espalhadas por diferentes partes do país e do mundo. Dessa forma, reunir os profissionais em um único lugar para capacitá-los acarreta em elevados custos de deslocamento, hospedagem e tempo.

 

Redução da Produtividade

Muitas vezes, para viabilizar o investimento em capacitação corporativa, é preciso montar turmas, retirando uma grande quantidade de profissionais das suas funções ao mesmo tempo para o treinamento. Essa solução, no entanto, implica em um novo problema: a paralização de atividades da empresa, reduzindo a produtividade das áreas que estão em treinamento. Além disso, é difícil encontrar uma oportunidade na agenda para tirar todos os colaboradores de suas funções ao mesmo tempo e capacitá-los.

 

Turmas Heterogêneas

Os treinamentos empresariais reúnem, naturalmente, turmas compostas por diferentes perfis, experiências, interesses e formações. Assim, fica difícil atender a todos com o mesmo treinamento. Para algumas pessoas a aula pode ser pouco interessante, pois os conceitos tratados já estão dominados, enquanto que, para outras, pode ser uma grande novidade aquilo que precisa ser passado, exigindo calma para a absorção do conhecimento.

Este efeito pode ser agravado ainda mais quando, na tentativa de viabilizar o investimento em determinado treinamento, acomoda-se colaboradores que não faziam parte do público-alvo inicial com o intuito de aumentar a escala e diluir os custos do programa. Nesse caso, todos saem prejudicados: os colaboradores que precisam se desenvolver recebem um treinamento menos qualificado enquanto os outros participantes gastam seu tempo aprendendo técnicas e conceitos que não serão usados em suas funções.

 

Alta Rotatividade

A rotatividade de funcionários, ou turnover, é outra dificuldade que as empresas brasileiras enfrentam nos dias de hoje. Segundo levantamento realizado pela empresa Robert Half, o Brasil é o país com o maior índice de rotatividade de funcionários. A pesquisa, divulgada em outubro de 2013, contou com mais de 1.775 diretores de RH entrevistados de 13 nacionalidades diferentes. Nesta pesquisa foi apontado que o turnover de colaboradores das empresas brasileiras aumentou 82% desde 2010, mais que o dobro da média mundial, que teve um aumento de 38%. Este elevado índice de rotatividade pode ser explicado pela disputa por profissionais qualificados, que são cada vez mais raros no país. Desta maneira, da mesma forma que as empresas estão perdendo funcionários a todo o momento, elas são obrigadas a contratar novos para preencher essas vagas em aberto, o que significa a necessidade de treinamentos com maior frequência.

 

Constantes Mudanças

Outro grande obstáculo enfrentado pelas corporações é a velocidade com que elas e seus colaboradores são obrigados a se adaptar e a responder aos desafios do mercado. Se antigamente o mercado procurava profissionais especialistas, que dominavam um conhecimento específico, hoje as empresas buscam funcionários generalistas, capazes de desenvolver várias atividades diferentes. Para a área de logística, o desafio é ainda maior, pois ela requer dos colaboradores competências muito diversificadas e uma visão integrada da cadeia de suprimentos. Desta forma, manter profissionais atualizados e preparados demanda ainda mais dos programas de educação corporativa das empresas.

Esta nova realidade traz grandes desafios para o desenvolvimento organizacional, estimulando a adoção de novas técnicas de formação de recursos humanos e uma postura inovadora dos gestores. Para ajudar na superação desses obstáculos, duas grandes tendências despontam na educação corporativa e ganham cada vez mais adeptos entre as empresas ligadas à logística: o E-learning e os Jogos de Empresas.

 

E-Learning

O e-learning é uma modalidade de educação à distância cujo processo de ensino-aprendizagem é mediado por tecnologias, onde os professores e os alunos estão separados espacial e/ou temporalmente, mas estão interligados através da Internet.

Os benefícios advindos do e-learning são inúmeros, tanto para as empresas quanto para os participantes. Ele permite capacitar, reciclar e treinar equipes inteiras sem que elas precisem se deslocar e a custos menores. O alcance do e-learning é o alcance da Internet.

Além das barreiras geográficas, o e-learning também rompe as barreiras temporais. Ele permite realizar treinamentos nos horários mais convenientes para os usuários e para as organizações, já que a Internet permite acessibilidade ao conteúdo 24 horas por dia, sete dias por semana. Em comparação aos treinamentos presenciais, isto é uma vantagem, pois a disponibilidade dos cursos nem sempre corresponde à disponibilidade dos funcionários, que cada vez encontram mais dificuldades para usar parte do seu expediente para realizar cursos. A possibilidade de o colaborador não precisar se ausentar por longos períodos da empresa faz com que ele não perca oportunidades de gerar negócios.

A flexibilidade no ritmo de aprendizagem também é outra vantagem muito valorizada pelos alunos. O ritmo e a capacidade de absorção variam de pessoa para pessoa, de maneira que quando se exige que um grupo de alunos aprenda determinada matéria ao mesmo tempo e no mesmo ritmo, certamente ocorrem perdas no processo. No e-learning, o participante imprime o ritmo desejado ou possível, freando ou acelerando o aprendizado conforme sua capacidade. Além disso, o participante que não compreende o conteúdo de imediato pode rever o material quantas vezes forem necessárias, evitando o constrangimento de perguntar para o professor na frente da turma.

Uma grande vantagem que o e-learning traz para as empresas é a possibilidade de análise e geração de relatórios customizados sobre a participação de cada funcionário e avalição de desempenho. Pelo fato do treinamento estar na rede, estão disponíveis instantaneamente informações sobre alunos, professores, cursos, turmas, avaliações e estatísticas diversas, bem como o cruzamento desses dados e gráficos correspondentes.

A economia financeira trazida pelo uso do e-learning é um dos principais motivos que explicam a popularização desta metodologia entra as empresas nos últimos tempos. Em todo o mundo, as grandes empresas estão investindo pesado no ensino não presencial através de suas intranets e da Internet com a esperança de diminuir os custos diretos e indiretos do ensino empresarial. O e-learning se torna mais econômico do que a realização de cursos presenciais quando o número de alunos treinados é grande, já que a economia com passagens aéreas, hospedagem e diárias para os funcionários que precisam fazer cursos em locais afastados é muito significativa.

O e-learning também tem suas vantagens quando não há turma grande o suficiente para viabilizar um programa presencial. Dependendo da forma como o curso é montando, é possível que um único participante inicie seu desenvolvimento naquele ambiente, sem precisar acumular um número mínimo de participantes e pagando apenas por aquele acesso.

Ainda pelo lado das organizações, o e-learning pode prestar contribuições importantes no desenvolvimento dos recursos humanos para enfrentar a necessidade de respostas ágeis e eficazes geradas pela rapidez das mudanças ocorridas atualmente nos mercados. O formato da capacitação permite atualização das lições e materiais na rede instantaneamente, mantendo o conteúdo novo e consistente.

O e-learning também desenvolve nos alunos competências complexas e valiosas para as suas carreiras e até mesmo para as suas vidas pessoais, como autonomia, disciplina, autoestudo, autoadministração do tempo e a autogestão de carreira.

A Figura 2 resume os benefícios do e-learning que poderão estar mais ou menos presentes, dependendo da forma adotada.

Figura 2 – Benefícios do E-learning

Figura 2 – Benefícios do E-learning
Fonte: ILOS

Diante desses benefícios, o e-learning se mostra como uma ótima solução para atender os desafios atuais da educação corporativa: dispersão geográfica, redução da produtividade, turmas heterogêneas, alta rotatividade de funcionários e constantes mudanças. No entanto, apesar dos benefícios, a capacitação online ainda possui uma deficiência: a inexistência de interação física entre colegas e professores. Esta deficiência é amenizada através da evolução tecnológica que, por meio de fóruns de debates, chats, comunidades virtuais e redes sociais, permite a interação entre alunos e professores e ainda reduz barreiras para participação como preconceito e timidez.

Esta interação, no entanto, não substitui totalmente os programas presenciais. O contato com outros participantes e o professor é importante para desenvolver competências comportamentais como trabalho em equipe e resolução de problemas em grupo. Além disso, a troca de ideias e o debate olho a olho são importantes para gerar sensibilização, comprometimento e vínculo entre os participantes. Para suprir estas necessidades de interação, outra abordagem metodológica vem ganhando destaque quando se trata de capacitação empresarial na área de logística e supply chain management: Jogos de Empresa.

 

Jogos de Empresa

Os jogos de empresa funcionam como uma espécie de laboratório, onde o participante testa estratégias e decisões e avalia os seus resultados. Da mesma forma que físicos, químicos e biólogos realizam experimentos em laboratórios, ou um piloto utiliza um simulador de voo, os executivos podem utilizar os jogos de empresa em programas de capacitação, difusão do conhecimento, ou até mesmo para reflexão sobre determinado comportamento.

Para permitir uma rápida velocidade na tomada de decisão dos grupos sem prejudicar as discussões – fundamentais neste tipo de programa – o jogo deve simular a realidade de forma simplificada, dando destaque ao que é relevante. Por outro lado, o modelo – processador do jogo – deve ser bastante sofisticado e calibrado de forma aderente à realidade para permitir aos participantes um feedback coerente com a prática empresarial. Por se tratar de um exercício, muitas vezes pode ser interessante amplificar alguns efeitos reais, como, por exemplo, determinados custos ou indicadores, quando estes estiverem relacionados com o propósito do jogo. Por isto, o jogo deve ter clara a sua real finalidade, permitindo que os corretos fatores possam ser ressaltados.

O paralelo com a realidade tem o propósito de convencimento dos participantes de que os efeitos verificados na simulação são os mesmos presentes na vida real. Por outro lado, a contrapartida desta relação não deve ser perseguida: nem todos os parâmetros presentes no dia-a-dia das empresas devem estar presentes no jogo, sob o risco dele se tornar complexo e pouco dinâmico.

Vem crescendo a cada ano a utilização de jogos de negócio em programas de capacitação em logística e em eventos para a sensibilização dos impactos da gestão logística mais eficiente e integrada. Através dos jogos, o participante vivencia os desafios que enfrenta na sua função em um ambiente controlado, com o tempo “acelerado”, possibilitando-o avaliar em minutos resultados de decisões que demorariam meses na vida real. Essa reflexão, muitas vezes, não é viável no dia-a-dia porque, no gerenciamento da empresa, as decisões não possuem repercussões imediatas e o aprendizado não é tão direto quanto em um jogo, onde o participante pode rapidamente avaliar os erros e acertos e corrigir o rumo da sua empresa fictícia.

 

Jogos como parte de um Treinamento

Os jogos de empresa têm uma grande sinergia com outras técnicas de ensino, como aulas expositivas e o método do caso. Entre os fatores que contribuem para o sucesso destes programas, destacam-se:

  • A aplicação prática dos conceitos aprendidos no treinamento, facilitando a associação do conteúdo com os desafios da realidade empresarial.
  • A grande integração do grupo durante a aplicação dos jogos, aumentando a participação inclusive no restante do treinamento.
  • A rica troca de experiências entre os membros das equipes que, ao defenderem seus argumentos dentro do grupo, trazem os conhecimentos acumulados na experiência profissional.

As sessões expositivas (presenciais ou online) permitem trabalhar com um escopo mais amplo de conteúdo do que um jogo de empresas. No entanto, os jogos apresentam mais resultados como ferramenta de ensino e desenvolvimento. No jogo empresarial, os participantes vivenciam experiências e constroem o seu aprendizado de forma ativa, permitindo melhor assimilação do conteúdo e o desenvolvimento de habilidades como senso prático de tomada de decisão (Figura 3).

Figura 3 – Jogos de Empresas como metodologia de capacitação
Fonte: ILOS

 

Jogos como ferramenta de sensibilização em eventos empresariais

Uma decisão tomada na empresa pode afetar diferentes áreas, como logística, tecnologia da informação, produção, finanças, comercial e marketing, o que torna necessária a difusão de conceitos e estratégias por toda a organização. Apesar da interdependência entre as áreas, no dia-a-dia cada setor toma decisões individuais baseadas na sua função local, tornando as interfaces cada vez mais distantes.

Nesse sentido, os jogos de empresa tornaram-se uma ferramenta importante de integração do grupo e troca de conhecimentos, ideias e melhores práticas. Este tipo de aplicação permite aos participantes assumirem funções diferentes da sua rotina, vivenciando experiências e compreendendo a relação entre a sua função com as demais áreas da empresa.

Os jogos de empresas podem ser aplicados, por exemplo, em eventos envolvendo as áreas comercial e de logística, como uma forma de conscientização da importância da informação e planejamento para o atendimento da operação. Além dos eventos internos, o conceito de Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos também tem despertado o interesse por eventos que reúnam clientes e/ou fornecedores para conscientização da necessidade de uma maior integração e troca de informações entre as empresas. Um exemplo de jogo que atende bem estes objetivos é o Beer Game, que foi desenvolvido na década 60 no MIT e até hoje é usado para simular as relações da cadeia de suprimentos.

Os jogos possibilitam capacitar grupos heterogêneos, tanto no que diz respeito à diversidade de capacitações, quanto ao nível de conhecimento, sem deixar de ser interessante para todos participantes. As discussões dentro das equipes de trabalho permitem uma rica troca de experiência e funcionam como um mecanismo de difusão da capacitação. Durante o jogo, os profissionais também ficam mais receptíveis a novas informações e novos conhecimentos. O estilo lúdico dos jogos envolve os participantes, que reagem de forma ativa diante da necessidade progressiva de avaliar resultados, planejar estratégias e tomar decisões.

 

Considerações Finais

Podemos concluir que os cursos online são uma forma eficiente de superar os desafios atuais da educação corporativa quando se trata do aprendizado de uma competência técnica em logística. É possível aprender de forma flexível e certificadora algum conceito ou metodologia, como modelos de gestão de estoques ou etapas de um processo de seleção de fornecedores, por exemplo, sem que a dispersão geográfica, o alto turnover, a necessidade de manter a produtividade nas atividades da empresa e a heterogeneidade atrapalhem o desenvolvimento dos colaboradores.

No entanto, é importante dizer que a utilização do e-learning não significa que a sala de aula deva ser abandonada. Os treinamentos presenciais também têm os seus benefícios, como a possibilidade de grandes oportunidades de trabalho em equipe, a resolução de problemas em grupo e a criação de vínculo entre os participantes. Uma forma de tornar o encontro presencial mais dinâmico e eficiente é através dos Jogos de Empresas. Eles servem tanto para fazer parte de um treinamento, podendo ser associado a um curso online, quanto para sensibilizar e motivar equipes. Neste caso, os jogos de negócio podem ser um ótimo aliado para organização em eventos de apresentação de resultados ou que buscam engajamento em momento de mudança, principalmente quando o evento envolve a participação de diferentes áreas ou empresas parceiras.

O programa de capacitação ideal em logística e supply chain management associa as duas abordagens metodológicas e permite extrair o melhor de cada uma: desenvolvimento técnico obtido por meio de um curso online e o desenvolvimento de habilidades, conscientização e engajamento absorvidos em um jogo de empresas. Além disso, se os participantes do jogo já tiverem concluído um curso online, dominando os conceitos e técnicas, o encontro presencial tende a ser melhor aproveitado, tornando a experiência ainda mais valiosa.

 

Referências Bibliográficas

  • JACOBSOHN, L., 2003, A contribuição do e-learning no desenvolvimento de competências do administrador: considerando o estilo de aprendizagem do aluno de graduação. Dissertação de M.Sc., USP, São Paulo.
  • The C-suite Imperative: Workforce development and Business Outcomes, The Economist Inteligence Unit, Set. 2014
  • Jogos de Empresa e Operações Logísticas, Maurício P. Lima