Oportunidades de aprendizado trazidas pela pandemia


Muito se discute sobre como manter as operações em funcionamento em um período de tamanha incerteza e restrição. Em posts anteriores, foram apontados como as operações estão tentando se adaptar, seja através da adoção de times fixos, de escalonamento de turnos, novas parcerias para realizar entrega urbana e chegar na casa do cliente, entre outros.

Empresas buscam se adaptar a um cenário de demanda errática e risco de fornecimento. Para alguns setores, a criticidade dessa questão é muito mais elevada, como alimentos e saúde. Um dos grandes riscos da pandemia é a falta de capacidade de atendimento dos hospitais, de não terem recursos para socorrer toda a demanda.

Esse ambiente desafiador permite às empresas oportunidades de aprendizado, de serem flexíveis e se prepararem para atender um cenário pós crise diferente, tanto por parte de demanda, quando por parte de fornecimento. De outra forma, a oportunidade de serem resilientes e mais fortalecidas, sabendo que outros momentos de turbulência irão ocorrer.

Oportunidades de aprendizado - ILOS Insights Figura 1: Ambientes desafiadores como o da pandemia de covid-19 trazem oportunidades de aprendizado. Fonte: Dmitry Ratushny em Unsplash

O conceito de supply chain resiliente, ou seja, aquele capaz de agir, aprender, adaptar e voltar a um status de estabilidade frente a eventos adversos, é discutido na literatura de supply chain risk management há anos. Trouxe aqui alguns exemplos de situações análogas às que vivemos hoje com a pandemia, e como diversas cadeias conseguiram superar e se tornaram mais fortes por causa disso.

Começando com um exemplo talvez mais próximo, seria o cenário da Gripe Espanhola nas primeiras décadas do século XX. Em um cenário de milhões de mortes e recessão do PIB, nos EUA, houve uma questão de desabastecimento de carvão para a indústria que se viu com ameaça de parada de produção. A partir daquele momento, começou-se a implementar de forma mais organizada o conceito de estoque de segurança e de se ter alguma proteção no curto e médio prazo. Será que hoje não começaria a fazer sentido discutir investimentos em formas alternativas de transporte? Ou pensar em novas formas de se relacionar com o cliente final através de entregas partilhadas ou aplicativos?

Outro caso interessante de supply chain que passou por uma crise, se remodelou e, portanto, tornou-se mais preparado para a crise seguinte, é o da Cisco durante a epidemia de H1N1. Após os choques ocorridos no 11 de Setembro e alguns anos depois um terremoto em Taiwan, a empresa passou a estruturar equipes de risk management e fazer planos de ação através do mapeamento de toda a cadeia, identificação de fragilidades e comunicação com os parceiros no mundo todo. O objetivo era ser capaz de responder rapidamente a qualquer evento de disrupção na cadeia de suprimentos. Isso permitiu que, dado o primeiro alerta sobre o vírus, diversos processos e planos previamente desenhados fossem postos em ação reduzindo o impacto da crise.

Levando em consideração o cenário atual de mudança, tanto da forma como consumimos quanto produzimos, talvez seja o momento de analisar de forma mais estruturada e profissional a gestão de risco, utilizar tecnologias já disponíveis para simulações, desenho de processos em caso de catástrofe entre outras. O supply chain deve ser apto para não apenas reagir a uma crise, e sim ser flexível e estar preparado para quando esta chegar, aproveitar as oportunidades de aprendizado e construir novas competências para um futuro que terá regras de competição diferentes.

Quais os aprendizados que a sua empresa levará dessa crise?

Referências:

Antifragile supply chains

How resilient is the US food system to pandemics

Pandemic economic lessons

Transporte Last Mile – ontem, hoje e amanhã