Henrique Alvarenga - ILOS

Navegação Comercial – Terra à Vista

Na crise de 2008, o setor de navegação comercial sofreu um forte impacto em suas operações globais de cargas, devido às incertezas e retração dos volumes movimentados. Atualmente, o setor tem visto novos desafios por conta das barreiras comerciais impostas por China e Estados Unidos. Para enfrentar este novo paradigma, que causou perdas financeiras para as grandes empresas mundiais do setor, a oferta de serviços tem mudado de perfil. Se antes o principal foco era no transporte marítimo eficiente, hoje se pensa mais no serviço completo, que contempla pernas terrestres na origem e no destino das cargas.

No final de junho de 2019, o CEO da Maersk, Soren Skou declarou que, “atualmente, 80% de nossas receitas vem dos serviços de movimentação de contêiner marítimo, e esperamos que em dois anos a empresa chegue próximo à 50%-50% com serviços não-oceânicos”. Isto quer dizer que a empresa está buscando soluções logísticas para ofertar serviços end-to-end. Para isso, a empresa tem investido na aquisição de armazéns, terminais portuários e brokers. A Maerks possui mais de 70 mil clientes, porém menos de um quarto utiliza a empresa para mover suas cargas entre portos e armazéns/centros de distribuição, ou seja, existe um potencial de ganhar mercado já com seus atuais clientes.

Esta intenção em oferecer o serviço completo não é somente da Maersk: a francesa CMA CGM, outro grande player do setor, comprou em 2019 a provedora de serviços logísticos Ceva Logistics por R$ 1,7 bilhão; também a chinesa Cosco tem ido nesta direção, com bilhões investidos nos últimos anos em terminais e infraestrutura para conexões com ferrovias e rodovias, otimizando a multimodalidade.

Figura 1 – Empresas de navegação tem buscado, cada vez mais, a oferta de produtos e serviços end-to-end.
Fonte: www.maersk.com

O serviço marítimo conjugado com o terrestre já é uma realidade doméstica bastante conhecida em nosso país. Nos últimos anos, a cabotagem brasileira de contêineres tem crescido, em média, 13% ao ano, e muito desse crescimento se deve ao fato de que há oferta do serviço porta-a-porta (que seria a tradução para o serviço end-to-end), em que a empresa transportadora se encarrega de buscar o contêiner na porta do cliente, levar até o porto, realizar o trecho marítimo, desembarcar no porto de destino e conduzir a carga até o destino final por vias terrestres. Com o tabelamento dos fretes rodoviários ocorrido pós greve de 2018, a cabotagem voltou aos holofotes, por ser uma alternativa mais barata que o modal terrestre e que tem melhorado ano a ano seus níveis de serviço oferecidos.

O serviço end-to-end, que já é uma realidade na cabotagem brasileira, crescerá vigorosamente no longo curso nos próximos anos, com os investimentos destes grandes players mundiais. É possível que, em breve, eles estejam competindo diretamente com a UPS, FedEx e, quem sabe, com os Correios no Brasil.

 

Referências:

https://www.wsj.com/articles/maersk-ceo-wants-half-its-earnings-to-come-from-inland-logistics-11561580963

https://www.reuters.com/article/us-maersk-strategy/reshaped-maersk-aims-to-deliver-competition-for-ups-fedex-idUSKCN1G418W

https://www.maersk.com/about/yearinreview

http://www.scdigest.com/ONTARGET/19-07-02-3.PHP?cid=15642&ctype=content