Marcha lenta

Em um ano de faturamento em queda e custos em elevação, obter bons resultados operacionais com o transporte rodoviário de cargas é um desafio superado por poucas transportadoras. A avaliação é de José Hélio Fernandes, presidente da Associação Nacional do Transporte de Carga e Logística (NTC). “A economia está estagnada, reduzindo a demanda por transportes. Para não deixar o caminhão parado, muitas transportadoras estão diminuindo o frete e até trabalhando com prejuízo. Manter ou ganhar mercado, sem sacrificar lucro, é só para quem adotou estratégias agressivas e muito bem definidas”, diz.

O transporte rodoviário de carga, responsável pelo giro de 62% da produção nacional, carece de estatísticas oficiais sobre seu desempenho financeiro. Estimativa do departamento de economia da NTC com base em dados do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), porém, indica que o faturamento das transportadoras chegou perto de R$ 162 bilhões em 2013. Entre janeiro e setembro deste ano, Fernandes calcula queda de 10% a 12%.

Estudo realizado pela NTC com 400 transportadoras aponta que 34% delas estão praticando descontos ou mantendo o valor do frete, apesar da inflação, e as demais praticam aumentos abaixo dos custos. O resultado é uma defasagem média nos valores dos fretes em 9,66%.

Entre as principais pressões sobre os custos Fernandes destaca os reajustes dos salários dos motoristas acima da inflação. Em São Paulo, tendo como base os meses de maio de 2013 e 2014, os aumentos foram respectivamente de 10% e 7,5%. Outra pressão vem da insegurança. Segundo Fernandes, as transportadoras investem por volta de 5% de suas receitas em gestão de riscos. Mesmo assim, em 2013, foram registradas 15,2 mil ocorrências de roubos de carga, 5% mais do que em 2012.

O impacto da má conservação das rodovias é um problema adicional. Conforme pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), o total de pontos críticos nas estradas brasileiras cresceu 15,6% no último ano, sendo que 24% das rodovias encontram-se em estado ruim ou péssimo e 38% em situação regular. Trafegar em estradas inadequadas, calcula a CNT, aumenta em 25% os custos das transportadoras.

Esse quadro impacta diretamente a capacidade de investir das empresas. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informa que de janeiro a setembro foram comercializados 99 mil caminhões novos no país, total 13,9% inferior ao mesmo período do ano passado.

Diante desse cenário, José Fernandes se diz satisfeito com o desempenho de sua empresa, a Botafogo Transportes, que tem sede em Brasília e filias em seis Estados. “Não vamos crescer, mas também não vamos perder faturamento”, afirma. A Botafogo tem uma atuação mista: 80% de sua receita vêm do transporte de carga e 20% de mudanças.

O trabalho é realizado por uma frota de 180 caminhões, dos quais 40 foram adquiridos em 2013, quando a queda de demanda ainda não estava delineada. “Nossa estratégia tem sido manter os caminhões ocupados, reduzindo o frete se necessário, mas sem operar com prejuízo.”

Urubatan Helou, presidente da Braspress, transportadora que conta com uma frota de 1.850 veículos e 106 filiais no Brasil, projeta para este ano ampliar em 6% sua receita bruta, que foi de R$ 870 milhões em 2013. O crescimento, porém, deve ser alcançado diante de um recuo de 18% na carga transportada. “Estamos concentrando nossas atividades em clientes com carga de maior valor agregado e que valorizam os prestadores de serviços que oferecem maior qualidade”, diz.

Os principais clientes da Braspress estão nos segmentos de vestuário, calçados e produtos eletrônicos. Segundo Helou, a empresa investe anualmente 4,5% da receita em ferramentas de tecnologia da informação, com a meta de melhorar a qualidade e garantir a pontualidade e exatidão das entregas. Um dos principais programas utilizados é um sistema automatizado de separação e distribuição de encomendas instalado em seus armazéns do Rio e São Paulo.

Apesar de se mostrar pouco confiante em uma retomada nos negócios em 2015, Helou já está preparando sua companhia para uma expansão futura, possivelmente a partir de 2016. A Braspress investiu neste ano R$ 28 milhões em um hub em Bauru (SP), que vai concentrar as cargas que viajam do Sul em direção ao Norte do país. E anunciou um investimento de R$ 250 milhões em um novo hub em Guarulhos (SP).

Ronan Hudson, diretor-comercial da JadLog, aponta o bom posicionamento da transportadora no segmento de e-commerce como um dos principais fatores que levaram a companhia a um crescimento de 16,2% no primeiro semestre, com faturamento de R$ 174 milhões. Com clientes como Saraiva, Centauro, Polishop, Colombo e Sony, as operações de e-commerce já respondem por 23% dos negócios da transportadora.

“Temos presença física em todo o país, com 500 franquias que contam com uma frota de 1.200 veículos, além do suporte de uma infraestrutura de TI, na qual investimos R$ 5 milhões por ano.”

A TNT também apresenta crescimento em 2014, de 12,3% até setembro. E lucro, pela primeira vez, desde 2005. Os maus resultados nos últimos anos levaram a matriz holandesa a colocar à venda a operação brasileira e depois desistir da ideia, diante das novas perspectivas geradas com uma profunda reestruturação dos negócios.

O diretor-executivo Cristiano Koga diz que a companhia estabeleceu quatro segmentos de negócios prioritários: automotivo, farmacêutico, confecção e calçados, e tecnologia. Em paralelo investiu em TI, automação das 126 filiais e uma revisão dos processos por meio do conceito lean.

Fonte: Valor Econômico

Por Domingos Zaparolli | Para o Valor, de São Paulo