Impacto da pandemia na navegação de longo curso


A pandemia provocada pelo novo coronavírus trouxe muitas mudanças para o mercado. O confinamento de grande parte das pessoas, por vezes paralisando completamente os serviços (como nos lockdowns na China, Itália e Espanha), fez com que o comportamento da demanda mudasse bruscamente em diversos setores. Olhando especificamente para a cadeia logística, percebe-se que a demanda por transporte foi afetada pela pandemia em praticamente todos os modais. Inclusive o modal aquaviário, que demorou um pouco mais para sentir os efeitos no Brasil, principalmente nas navegações de longo curso.

desbalanceamento de contêineres - ILOS Insights

Figura 1 – Comparação da movimentação de contêineres de longo curso entre os anos de 2019 e 2020. Fonte: ANTAQ; Análise ILOS

 

Como mostrado na figura acima, percebemos que a demanda estava razoavelmente controlada em relação a 2019, porém com uma nítida tendência de queda, com o mês de março fechando 4% inferior ao mesmo mês do ano passado, e com uma queda de 8% em relação ao mês de fevereiro. Esta primeira queda de demanda tem muita relação com a paralisação da China, onde houve bloqueios de vias, quarentenas e fechamentos de fábricas, o que dificultou muito a chegada das mercadorias até os portos, causando o cancelamento de viagens até os portos chineses por parte dos armadores, e bagunçando os serviços de navegação.

Como alguns serviços vindos da China podem ter duração de até um mês, houve um efeito tardio da queda de demanda, sentida principalmente no mês de março. Por conta disso, também houve um desbalanceamento de contêineres nos portos, já que os serviços não estavam realizando todas as paradas previstas, causando acúmulo de contêineres na China e uma escassez no restante do mundo, incluindo o Brasil. Segundo a Maersk, três dos maiores portos chineses (Xangai, Ningbo e Xingang) acumulavam contêineres refrigerados carregados com frutas, legumes e carnes, contêineres estes que seriam importantes para escoar a produção de carne brasileira.

No meio de março e ao longo do mês de abril, a situação começou a se normalizar, com o controle da doença na China e consequente retomada das viagens, não apenas com contêineres carregados, mas também com contêineres vazios para balancear os serviços de navegação. Porém, a situação do covid-19 na Europa se agravou e mais entraves apareceram, levando alguns países a adotarem a quarentena provocando nova queda de demanda, dessa vez em serviços vindos da Europa.

Para complicar, o Brasil também se tornou foco da pandemia de covid-19, fazendo com que a população adotasse a quarentena, agravando a demanda de muitas empresas, fechamento indústrias e varejistas, e consequentemente, reduzindo as importações para o país. Em paralelo, a cotação do dólar alcançou patamares recordes, o que também contribuiu para a queda no volume das importações. Em consequência, houve acúmulo de contêineres cheios no Brasil, pois muitos importadores passaram a retardar a nacionalização das cargas por conta do câmbio da moeda norte-americana, além de muitos destes produtos terem sua demanda totalmente derrubada, já que o foco do consumo acabou mudando drasticamente. A retração das importações no Brasil já levou os armadores a cancelarem 12 embarques para o país nos próximos três meses, sendo dois embarques cancelados no mês de maio, sete no mês de junho e três no mês de julho.

Por outro lado, houve um crescimento no último trimestre das exportações, impulsionadas principalmente pelo patamar do dólar, que levou, segundo dados do Ministério da Agricultura, a um aumento de 9,4% da exportação de carnes, em comparação ao mesmo trimestre do ano passado, somando 1,68 milhão de toneladas. Além disso, para cargas granel, tivemos uma safra recorde de grãos que também impulsionou a exportação.

Apesar disso, já no mês de abril o desbalanceamento de contêineres se mostrou um gargalo para escoar a produção nacional, o que levou a Maersk a realizar a transferência de 1,8 mil contêineres refrigerados para o Brasil, a fim de suprir a demanda da exportação de carnes, frutas e legumes. Mesmo com essa ajuda, como dito anteriormente, após o mês de abril a situação se agravou para alguns países, e com isso já foi anunciado o cancelamento de 12 viagens para o Brasil, o que torna esperado que haja também uma queda da exportação de contêineres para os próximos meses.

Os problemas acima relatados não são de exclusividade do Brasil, no restante da América e na Europa a situação é muito similar, com a paralisação da economia e produtos sem demanda, temos portos abarrotados de contêineres que, segundo a Associação Internacional de Portos (IAHP), já se tem hoje locais sem nenhum espaço para armazenagem. Dada essa situação, a importação no mundo já caiu aproximadamente 15%, e ainda se espera uma queda de 30% para os próximos meses.

É necessário que a navegação tente ao máximo mitigar os problemas relatados, visto que um fluxo de transporte marítimo saudável é de suma importância para garantir disponibilidade de bens de consumo essenciais ao redor do globo, além de auxiliar na recuperação da economia. Possíveis ações como facilitar o armazenamento de bens de consumo ou até mesmo adiantar o processo de recebimento de cargas refrigeradas, torna os contêineres disponíveis para a circulação mais rapidamente, o que pode ajudar a manter o transporte marítimo num patamar mais saudável.

Referências:

Valor Econômico – Portos mantêm operação e avaliam gargalos

Valor Econômico – Coronavírus provoca nova queda de atividade em portos do Brasil

Valor Econômico – BTP adia aumento de preços e renegocia com clientes

Valor Econômico – China cancela 12 embarques ao Brasil até julho

O Estado de S. Paulo – Portos de todo o mundo sentem a parada chinesa

JOC – Threat container cargo imbalance covid-19 build

Fresh Fruit Portal – Container imbalance worsened by covid-19

Fresh Fruit Portal –  Global container shipments set to fall 30% in next few months

Inside Logistics – Fiata urges attention to container imbalance

Globorural – Empresa envia 18 mil contêineres para Brasil exportar carnes e frutas