Escoamento da safra de grãos nos EUA encara trava logística

A oferta de grãos nesta safra 2014/15 dos EUA será farta, como há muito não se via. Após dois ciclos seguidos de perdas na lavoura e alguma recomposição em 2013/14, a robusta colheita desta temporada levava a crer que a demanda crescente seria plenamente atendida. Qual não foi o susto, então, quando compradores começaram a receber mercadorias com atraso, o que tumultuou o mercado e levou os preços de soja, farelo e milho a níveis não registrados desde julho, quando o plantio sequer havia terminado.

Os problemas começaram em outubro, quando chuvas fora de época atrasaram o início da colheita no leste do cinturão produtor dos EUA, próximo ao polo agroindustrial do país, que abriga granjas e processadoras de oleaginosas. Mas o maior entrave veio da área logística. O volume recorde de grãos trombou nas ferrovias americanas com um volume também excepcional de petróleo e derivados que estão sendo produzidos a partir de reservas de xisto.

Segundo a Associação Americana de Ferrovias (AAR, na sigla em inglês), outubro foi o melhor mês na história do tráfego intermodal ferroviário dos EUA. Em uma análise mais ampla, os números também são significativos. Desde o início do ano até 22 de novembro, a quantidade de vagões em movimento nas ferrovias do país cresceu 3,4% na comparação anual, conforme a AAR. Só a produção de grãos ocupou 13,5% mais vagões, na comparação com o mesmo intervalo de 2013, o que ainda não foi suficiente para dar vazão à colheita recorde. Apenas a safra de soja deve superar a anterior em 17,8%, a 107,7 milhões de toneladas, indica previsão do Departamento de Agricultura americano (USDA).

Muitas empresas ferroviárias não estavam preparadas para tamanho aumento de demanda. Algumas haviam inclusive reduzido o número de vagões após as dificuldades registradas no início do ano, quando nevascas interromperam o tráfego nas vias férreas. Com a brusca mudança de realidade, algumas companhias decidiram improvisar e aumentar o número de vagões por locomotiva, o que tornou o transporte mais lento.

Em seu balanço trimestral, a Union Pacific, grande empresa ferroviária dos EUA, que opera no centro-oeste, disse que a velocidade média das composições já no trimestre passado, antes da colheita, foi de 38,3 quilômetros por hora, 10% mais lento que em igual período de 2013.

A lentidão estrangulou o sistema de transporte. “As operadoras deram preferência para a contratação de frete das indústrias petrolíferas ao transporte de grãos porque o fluxo de caixa na contratação de petróleo é constante, e não sazonal, como com grãos”, explica Stefan Tomkiw, vice-presidente da mesa de derivativos para América Latina da consultoria Jefferies Bache, em Nova York.

No entanto, as tradings que precisavam cumprir entregas previstas em contratos não aceitaram ficar a ver navios. Muitas concordaram em pagar preços maiores. Como resultado, o frete ferroviário de farelo de algumas áreas do Meio-Oeste americano para o Golfo do México chegou a até R$ 45 por tonelada, aumento de cerca de 80% ante o normal para essa época do ano, conforme Camilo Motter, economista da Granoeste Corretora, de Ponta Grossa (PR).

Entre 10 a 14 de novembro, o farelo de soja chegou a ser negociado nos portos americanos com prêmio de US$ 75 por tonelada curta (930 quilos) sobre as cotações dos lotes com entrega na bolsa de Chicago em dezembro, quando normalmente o valor costuma ficar igual ao do contrato, ou até menor. Mesmo assim, a contratação do frete ferroviário não era garantia de entrega a tempo.

As granjas e processadoras da costa leste dos EUA, que haviam contratado volumes robustos de soja e milho para a produção de ração, tiveram que recorrer aos estoques da safra passada, já enxutos. Pelo último cálculo do USDA, havia no início do ciclo atual, em 1º de outubro, apenas 2,5 milhões de toneladas de soja da safra 2013/14 estocadas no país, o menor volume desde 1973.

Michael Vosburg, Fargo Forum Newspaper/AP
A correria por volumes de soja e de farelo disponíveis próximo dos centros de consumo gerou uma euforia em Chicago. Os contratos do farelo de soja de segunda posição chegaram a registrar ganhos de 40% no mês passado, e desde outubro até quarta-feira, 26, acumularam alta de 26%. As cotações do farelo influenciaram os papéis de soja, que no mesmo período subiram 13%.

Alguns compradores resolveram acertar também com empresas rodoviárias e mantiveram compras em duplicidade para garantir algum recebimento dentro do cronograma. “A ideia era receber o quanto antes de qualquer um dos dois”, diz Tomkiw. Já os exportadores, com contratos rígidos de entrega de farelo ao mercado externo, cancelaram negócios com a soja dos Estados Unidos e recorreram à oferta internacional, principalmente da América do Sul, onde o valor do grão nos portos está mais competitivo. No Brasil, o farelo chegou a ser negociado nos portos com desconto de US$ 15.

Não há um número exato que indique o quanto de farelo de soja os exportadores compraram fora dos EUA para substituir as compras canceladas no mercado interno. Mas é possível perceber pontos fora da curva nos movimentos de exportação americanos e sul-americanos.

De acordo com o USDA, entre 2 de outubro e 6 de novembro foram cancelados contratos de exportação de 767 milhões de toneladas de farelo de soja. O movimento foi mais intenso entre 24 de outubro e 6 de novembro, quando foram canceladas 558,8 milhões de toneladas. Circulam rumores no mercado de que ao menos oito cargueiros teriam saído da América do Sul com destino aos portos americanos. Porém, não há detalhes sobre o tipo de produto (se farelo ou apenas o grão de soja), volume, nem mesmo origem.

No Brasil, não foi registrado oficialmente nenhum embarque de farelo aos EUA em outubro. Porém, os embarques brasileiros do produto para o exterior cresceram 8,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado, embora tenham recuado 3,8% ante setembro, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Conforme Motter, da Granoeste Corretora, muitos compradores internacionais, principalmente da Europa, têm buscado o mercado brasileiro para comprar farelo. Ele também não descarta a possibilidade de que eventuais negócios fechados com os EUA no mês passado apareçam na balança de novembro.

Também não há registros oficiais de embarques de farelo da Argentina para o mercado americano, mas as movimentações nos portos do país também indicam demanda mais aquecida. Entre 6 e 20 de novembro, os navios que encostaram nos portos argentinos já haviam sido carregados com 3,075 milhões de toneladas da commodity, mais que o triplo do mesmo período de 2013, de acordo com a Bolsa de Comércio de Rosário.

Apesar da forte turbulência causada no mercado, o gargalo logístico para o escoamento de grãos nos EUA não deve se prolongar, na avaliação de analistas. Segundo Pedro Dejneka, sócio-diretor da consultoria AGR Brasil, sediada em Chicago, ainda há atrasos no transporte, “mas a situação está por ser resolvida”.

Para Tomkiw, da Jefferies Bache, algumas empresas ferroviárias estão percebendo que as tradings estão aceitando pagar mais pelo frete voltando a colocar grãos no fluxo, como a CSX, que administra ferrovias no leste dos EUA. Na conta final, porém, a tendência é que as tradings repassem o custo maior aos produtores. “Elas vão pagar menos ao produtor, e a renda dele vai diminuir”. Mas Motter, da Granoeste, ressalta que a massa de ar ártico que paira sobre o país já é um ponto de atenção, uma vez que nevascas podem interromper o fluxo ferroviário no país, como ocorreu no início do ano.

Fonte: Valor Econômico

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo