Covid-19 abre espaço para robôs autônomos no Last Mile


Desde o começo da pandemia do coronavírus, temos comentado no ILOS Insights sobre o grande impacto do isolamento nos pedidos por delivery. Antes mesmo desta fase, a demanda pelo last mile já crescia, principalmente pela expansão do e-commerce. Após a chegada do COVID-19, os números explodiram, principalmente os pedidos de entrega de supermercados, farmácias e restaurantes. Este fato sobrecarregou a cadeia de suprimentos e as infraestruturas de entrega existentes, impactando negativamente no tempo de entrega e na qualidade do serviço.

Com este sistema pressionado, a tecnologia aparece como uma possível solução. A Thatiana Nomi comentou em um texto no ILOS Insights recentemente sobre o uso de drones para entregas de itens essenciais em comunidades rurais e hospitais. Quando falamos em centro urbanos e entregas de restaurantes, farmácias, supermercados e e-commerces, os olhos dão atenção também aos robôs autônomos.

robôs autônomos - Startship - ILOS Insights

Robô de entregas da Starship aguarda o sinal de pedestres abrir para atravessar uma rua de Fairfax, na Virginia
Fonte: Starship

O desenvolvimento da tecnologia utilizada nestes “pequenos ajudantes” não é novidade. No entanto, a pandemia está aumentando as vantagens da sua implementação, ao mesmo tempo em que encontra um ambiente mais favorável para os seus testes. Com relação ao primeiro ponto, o que eu quero dizer é: a necessidade de isolamento, a exposição dos entregadores à contaminação e a alta demanda de entregas last mile são barreiras que o uso pontual de robôs autônomos pode nos ajudar, por exemplo, fazendo entregas a idosos, a pessoas contaminadas ou a hospitais de campanha. Já sobre o segundo, a situação atual que temos é de cidades com menos movimento, ruas mais vazias, quantidade menor de pedestres. Este é um cenário que permite implementação com maior segurança desta tecnologia, que ainda está em fase de testes.

Em alguns países, a aplicação de veículos autônomos para entregas já apresenta crescimento. No Arizona (EUA), uma pizzaria está utilizando robôs da empresa Starship Technologies para entregar os seus produtos em um raio de 1km da sua base. Já na China, durante os meses de lockdown, 16 comunidades localizadas no oeste do país receberam seus alimentos perecíveis nas costas de um robô desenvolvido pela startup Unity Drive Innovation (UDI). JD.com e Meituan-Dianping são exemplos de e-commerces chineses os quais utilizaram AVs (Autonomous Vehicles) para atender a demanda em zonas isoladas. Na América do Sul, uma empresa que está realizando testes com esta tecnologia é a Rappi, que começou esta iniciativa em parceria com a KiwiBot na segunda quinzena de abril na cidade de Medellín, a segunda maior da Colômbia.

robôs autônomos - Rappi - ILOS Insights

A Rappi tem feito aproximadamente 120 entregas por dia com 15 robôs na área de pilotagem, em Medellín (Colômbia)
Fonte: Rappi

No Brasil, as menções sobre a utilização de robôs em entregas de last mile são raras. Em outubro de 2019, o iFood anunciou uma parceria com a empresa Synkar, e disse que iniciaria em 2020 testes em ambientes controlados na cidade de São Paulo. No entanto, não há atualizações até o momento sobre a implementação deste projeto. Não só aqui, mas em muitos países, a ampla utilização dos robôs esbarra nas regulamentações. Questões trabalhistas, regras de trânsito e normas jurídicas são impactadas ao colocarmos veículos autônomos na rua. Para aumentar a aplicação desta tecnologia, é preciso pedir aos órgãos reguladores concessões especiais, geralmente um processo moroso. Países como o Brasil, que possuem nível de violência elevado e baixo índice de escolaridade, apresentam também outros obstáculos, como a alta probabilidade de roubos destes veículos autônomos. Ainda, é necessário um planejamento urbano que viabilize a sua locomoção, com calçadas uniformes e rampas para sua passagem. Além de todos os pontos citados, deve ser levado em consideração o alto custo de desenvolvimento e implementação desta tecnologia, o que a torna menos acessível.

Um fato é claro: apesar do ambiente favorável para o aumento de testes com robôs autônomos, a nossa realidade ainda está distante da sua ampla implementação. Os benefícios na contenção da disseminação do vírus são visíveis, assim como os impactos positivos de sua utilização no mercado de entregas em um ambiente pós pandemia, pois a demanda por deliveries não deve diminuir ao patamar pré-covid, considerando que os consumidores estão se apegando aos novos hábitos de consumo que o isolamento nos impôs. Certamente, aqueles países que estão aproveitando este momento para colocar esforços nos testes com veículos autônomos sairão desta pandemia alguns passos à frente na automatização das cidades, um futuro que está longe para os brasileiros.