A realidade da logística pós-pandemia através da logtechs

Há vários anos o ILOS vem acompanhando as ações de empreendedorismo e inovação no ramo da logística e supply chain. Em 2016, a consultora Fernanda Monteiro escreveu no nosso blog sobre a febre das startups de logística, motivada principalmente pela Uber, que mantinha suas atividades há apenas 2 anos no Brasil e já demonstrava um gigantesco sucesso no seu modelo de atuação. Essa ruptura na forma tradicional de fazer negócios foi tão intensa que rendeu até mesmo um novo jargão no mundo dos negócios, retratado no ano de 2019 através da consultora Bruna Basile, que apresentou em nosso blog uma discussão sobre o crowdsourcing e a “Uberização” do trabalho.

Motivado a seguir essa linha de discussão, me questionei se o mundo das logtechs teria mudado drasticamente após os efeitos da pandemia de Covid-19, que aumentou exponencialmente a força do e-commerce e gerou fortes crises econômicas a nível global. O termo “logtech” foi designado para descrever as startups que concentram seus esforços para sanar problemas de logística, não por acaso se utilizando de soluções tecnológicas.

De acordo com a Revista Exame, apesar de toda a crise gerada, o mercado de startups no Brasil continuou crescendo ao longo de 2021, tendo como foco principal o público B2B e um modelo SaaS (software as a service). Uma dessas empresas que nasceram no caos da pandemia foi a CargOn, que mesmo fundada no ano de 2020, faturou R$ 6,5 milhões em 2021 com a prestação de serviços logísticos. Outro exemplo de empresa que não se abalou com a pandemia foi a Modern Logistics. Criada como startup em 2015, atua como operadora logística em diversas atividades e tem como ponto forte a frota própria de aviões que realizam operações de carga. De acordo com Gerald Blake Lee, CEO da empresa, o objetivo principal da companhia é desmistificar a crença de que o modal aéreo só se justifica para produtos de alto valor agregado.

Além da atenção para as empresas emergentes, é importante destacar também aquelas empresas que eram promessas e alcançaram a seleta classificação de unicórnios durante a pandemia. No final do ano passado, após a fusão com a FreteBras e a FretePago, a CargoX se tornou o novo unicórnio brasileiro sob o nome de Grupo Frete.com ao receber um aporte de R$1,14 bilhão, seguindo a promessa já apresentada pelo consultor Henrique Alvarenga no post “Os unicórnios da logística”. Assim como a Modern Logistics, as 3 logtechs fusionadas também pertence ao grupo das 10 maiores logtechs do Brasil.

Com uma lista extensa de sucessos que não param nos exemplos aqui citados, fica evidente que a pandemia serviu como um grande trampolim para as logtechs. Contudo, ainda me questiono o quão real foi a mudança apresentada por essas startups que justificassem o aparecimento de novas soluções de negócio. Muito se fala sobre como a pandemia mudou e/ou mudará a forma como interagimos e fazemos negócio daqui para frente, mas a realidade que enxergo para o mundo da logística não é muito diferente daquela pré-pandemia. Quando falamos exclusivamente de soluções disruptivas, tal qual a “uberização”, pouco efetivamente mudou de lá para cá, mesmo com a alteração drástica de alguns paradigmas econômicos.

Evidenciando esse argumento, todas as startups aqui citadas possuem como foco principal a solução da gestão da informação na cadeia de suprimentos, problema já existente na realidade pré-pandemia, adaptando essa solução para cada tipo de negócio. Além disso, o Distrito Logtech Report 2020 apurou também que, no ano de 2020, auge das adaptações por conta da pandemia, 50% das aquisições de logtechs aconteceram por parte de grandes varejistas brasileiras. Como exemplo mais recente desse tipo de movimento, podemos citar a aquisição da CNT pela Via Varejo em janeiro desse ano, assumindo a responsabilidade de toda a operação de e-commerce com a Mallory, desde o planejamento até as entregas. Outro grande exemplo foi a entrada da Americanas no setor de entregas ultrarrápidas, viabilizada pela compra da startup Shipp (hoje Americanas Delivery) no ano de 2021. Fica evidente então que a pandemia acelerou muitas decisões relacionadas ao e-commerce, motivando as companhias a adquirir soluções rápidas de entrega last-mile de alta responsividade. Contudo, apesar de esse ser um problema legítimo, ele já existia previamente à pandemia, mesmo que em menor escala.

É inegável que o mundo mudou drasticamente nos últimos 2 a 3 anos, e as logtechs adiantaram avanços que empresas tradicionais levariam possivelmente décadas para solucionar, mas o universo da logística ainda possui um oceano de possibilidades a serem exploradas. Talvez essa seja a hora de não apenas inovar no uso de tecnologias para soluções tradicionais, mas também focar nas soluções não tradicionais dos desafios pós-pandemia.

Caso tenha se interessado sobre a discussão, o 28º Fórum Internacional de Supply Chain acontecerá entre os dias 18 e 20 de outubro de 2022 e contará com diversas trilhas, sendo uma delas o “Customer Centric e os Desafios do Novo E-commerce”, onde discutiremos quais são os reais novos problemas a serem enfrentados no mundo pós-pandemia, que está mais focado do que nunca no consumidor final dos produtos.

 

Referências:

– ILOS – A febre das startups de logística

– ILOS – Uberização do Trabalho e Crowdshipping

– Revista Exame – Mercado de startups ignora a pandemia e cresce no Brasil em 2021

– Startups.com – Crias da pandemia: 4 startups que nasceram e decolaram em meio à crise

– Infomoney – Gerald Blake Lee, ex-Azul e dono da Modern Logistics, prevê captar US$ 250 mi para comprar aviões e conectar produtores

– Distrito – LogTech: panorama das 283 startups do setor logístico no Brasil

– Exame – CargoX: com aporte de R$1,1Bi, nasce o unicórnio Grupo Frete.com

– ILOS – Os unicórnios da logística

– Mercados e consumo – Logtech da Via assume operação de logística do e-commerce da Mallory

– E-commerce Brasil – Americanas lança delivery para entrega em cerca de 30 minutos

– Distrito – Startups Unicórnios brasileiros: confira a lista

– CBInsights – The Top 12 Reasons Startups Fail