A desglobalização é uma tendência que veio para ficar?


A desglobalização é um tema que vem sendo discutido já há alguns anos e se intensificou mais recentemente com a chegada da pandemia do covid-19 e do estopim da Guerra da Ucrânia. Devido às consequências das interrupções na cadeia de abastecimento global geradas pela pandemia, e mais recentemente pela guerra, a discussão sobre o protecionismo e internalização de processos produtivos para reduzir riscos de fornecimento inerentes à uma cadeia de suprimentos globalizada veio à tona.

Durante a pandemia, testemunhamos uma redução na oferta de certos tipos de produtos, gerada principalmente pela escassez de componentes e matérias-primas e por interrupções na cadeia de suprimentos. O principal exemplo disto foi a redução na oferta de produtos eletrônicos, impactada majoritariamente pela insuficiência no fornecimento de semicondutores, cujos principais produtores mundiais encontram-se na China, epicentro da pandemia. Mais recentemente, as sanções impostas para a Rússia como uma resposta à invasão ao território ucraniano fizeram com que a oferta de óleo e gás natural aos vizinhos europeus, que são altamente dependentes da exportação russa, fosse substancialmente impactada.

Esse cenário evidenciou uma possível fragilidade de uma cadeia de suprimentos globalizada: o impacto no abastecimento a nível mundial quando um incidente prejudica a continuidade da oferta de um elo relevante da cadeia. Quando isso ocorre, pode haver escassez de matérias-primas, atrasos no abastecimento, redução de oferta, e consequentemente, ruptura e elevação dos preços. Além de impactos econômicos, ocorre também impactos sociais importantes, como redução ao acesso a produtos essenciais e redução no poder de compra da população. Tendo isso em vista, surge o questionamento: governos e empresas recorrerão à desglobalização de modo a internalizar elos da cadeia de suprimentos com o intuito de mitigar esses riscos?

Se por um lado, a globalização traz riscos, por outro, traz vantagens. Ter acesso à recursos que não estão disponíveis no seu território só é possível através da globalização. Produtos de tecnologia de ponta cujos componentes são fabricados em países onde o custo produtivo é mais baixo possibilita que eles sejam comercializados em outros países com maior oferta e com preços mais acessíveis. Internalizar a cadeia de suprimentos e tomar medidas protecionistas também podem trazer vantagens e desvantagens. Uma vantagem seria se tornar menos suscetível a riscos de suprimentos por fatores externos, evitando rupturas e desabastecimento, por exemplo. Uma desvantagem seria ter falta de acesso a produtos que não são produzidos internamente, seja por falta de recursos naturais, seja por falta de infraestrutura produtiva.

Apesar do termo “globalização” ser historicamente recente, ela de fato ocorre há séculos. As grandes navegações iniciadas no século XV possibilitaram que rotas comerciais interligassem todos os continentes. Também é historicamente observado, que o surgimento de pandemias ocorre num intervalo de aproximadamente de 100 em 100 anos, sendo a última a pandemia da gripe espanhola no início do século XX. Tensões geopolíticas entre países sempre ocorreram, resultando ou não em guerras. Crises financeiras do passado impactaram o nível de importações de países em relação ao PIB mundial, como observado na crise de 2008. Mesmo assim, apesar da frequência de incidentes globais, desde que a globalização se iniciou, ela nunca regrediu a ponto das nações se isolarem completamente, o que evidencia que a globalização é um processo inevitável.

No entanto, o cenário global atual mostra que empresas estão levando em consideração não só o fator custo, mas também o fator risco em suas decisões estratégicas na cadeia de suprimentos. A saída de empresas multinacionais na Rússia devido à guerra e a busca de elos alternativos na cadeia de suprimentos para sobrepujar o desabastecimento de determinados itens durante a pandemia ilustram isso. Sendo assim, é provável que o processo de desglobalização também seja inevitável, mas não no seu estado puro. Globalização e desglobalização ocorrerão simultaneamente. No mundo de hoje, é impossível um país produzir internamente tudo o que precisa ao mesmo tempo que empresas e governos estão percebendo que estar em uma cadeia de abastecimento global traz riscos inerentes. Portanto, a desglobalização é uma tendência que veio para ficar, assim como a globalização, que já ocorre há séculos.

 

Referências:

– ILOS – Estamos no caminho da desglobalização?

– Correio Braziliense – Análise: A era da desglobalização empresarial?

– Definição.net – O que é globalização? Consequências, vantagens, desvantagens

– Isto é – Desglobalização: a nova onda global é boa ou ruim para o Brasil?

– DW – O mundo caminha para uma “desglobalização”?