União entre grandes


BR, Ipiranga e Raízen venceram os primeiros leilões portuários no Espírito Santo e na Paraíba. Embora os locais tenham pouca representatividade no âmbito das importações nacionais, o movimento poderá impactar na competitividade de pequenas companhias, servindo de alerta para outras áreas

Os primeiros leilões portuários foram realizados em 22 de março, como parte do plano de concessões do governo federal. Nesta primeira etapa, as maiores distribuidoras de combustíveis (BR, Ipiranga e Raízen) se uniram, formaram dois consórcios e, juntas, venceram as concessões em quatro áreas portuárias, sendo três em Cabedelo (PB) e uma em Vitória (ES). Para os analistas, a tática de união entre concorrentes, em princípio, seria manter o market share nos mercados locais. Porém, a iniciativa pode ser vista como um sinal de alerta para os leilões que es- tão por vir, já que ganhar vantagens competitivas, desde as importações até o fornecimento dos combustíveis, pode fortalecer ainda mais as três grandes marcas.
No total, o governo arrecadou com o primeiro leilão R$ 219,5 milhões, dando direito aos consórcios vencedores de administrarem os terminais por um prazo de 25 anos.

Do ponto de vista de fluxo operacional, as aquisições de Cabedelo e de Vitória não vão representar grandes mudanças, de acordo com Paula Arantes, sócia-gerente do ILOS, consultoria especializada em logística e Supply Chain. “Na realidade, apenas reforçam essa visão do mercado, de que é uma tendência as distribuidoras aproveitarem essa oportunidade de importar”, disse.

Segundo Paula, Cabedelo e Vitória, historicamente, não realizam grandes movimentos de importação, seja por falta de capacidade ou por haver portos em estados vizinhos mais bem estruturados.
A analista observa que o estado do Espírito Santo não possui refinarias, sendo hoje atendido pela Petrobras via cabotagem. A oferta de derivados é feita diretamente no porto ou via modal rodoviário. “Ter tancagem lá é sempre positivo, dado que é a principal porta de entrada de combustível no estado”, destacou.

Já Cabedelo pode ser uma alternativa a Suape, por ser muito próximo deste grande polo e estar bem localizado geograficamente para atendimento da região Nordeste, altamente deficitária de combustível, já que cerca de 80% da produção se concentram nas regiões Sudeste e Sul. Paula destaca que Suape recebe apenas diesel. No caso, as importações e cabotagens de gasolina para o Norte/ Nordeste são indispensáveis.
Como as perspectivas apontam para o crescimento da demanda por combustíveis no médio e longo prazos, segundo a especialista, será indispensável o aumento das importações para atendimento do mercado interno, considerando as limitações do atual parque de refino. Assim, aumentar a tancagem portuária é uma forma de se preparar para este movimento.

Sob a ótica de mercado, na visão da analista, com o fortalecimento das três grandes distribuidoras, no caso dos consórcios dos portos de Vitória e de Cabedelo, as pequenas distribuidoras poderão ser prejudicadas. “Pela concentração de mercado, infraestrutura e fluxos estáveis historicamente, fica muito difícil players menores conseguirem competir. Eles não têm escala para aproveitar janelas de importação ou serem mais competitivos logisticamente”, observou.

A Raízen, por exemplo, tem avançado estrategicamente para ampliar as importações. Além dos terminais de Cabedelo e de Vitória, segundo Paula, a empresa está investindo R$ 200 milhões na construção de 80 mil m3 de tancagem em São Luís (MA), conseguiu a concessão da Ferrrovia Norte-Sul (FNS), que liga Porto Nacional (TO) a Es- trela d’Oeste (SP), via Rumo, além da concessão portuária no Pará. “Com esses investimentos, ela (Raízen) terá grande vantagem no escoamento das importações via Norte e expansão de mercado nos polos onde possui menor capacidade, o que permite aumento de vantagem, inclusive frente aos seus dois maiores concorrentes”, destacou Marcus D’Elia, diretor-executivo da Leggio Consultoria, avalia dois aspectos da união das distribuidoras.

O primeiro considera que os volumes movimentados nos portos de Cabedelo e de Vitória são pequenos e pouco representativos em âmbito nacional, voltados para o mercado local, já que não têm um sistema logístico estruturado para abastecer o interior do país. “O fato de as distribuidoras terem vencido nestes locais foi mais para manter a fatia no mercado do que uma intenção estratégica. No caso de Cabedelo, como lá a movimentação toda é feita pela Transpetro, a criação de uma armazenagem especifica das distribuidoras vai facilitar o acesso, possibilitando maior entrada nesses mercados”, disse D’Elia. Outro ponto, destaca o analista, é como o mercado enxerga as três distribuidoras terem entrado em leilões em conjunto e qual deve ser a interpretação do Cade.

D’Elia esclareceu que não há impedimento em relação à formação de consórcios por empresas, porém destaca que são os três maiores players. “São empresas que deveriam estar competindo entre si, e não arrendar ativos em conjunto”, esclareceu.
No caso de Cabedelo e Vitó- ria não haverá impacto de desequilíbrio, por se tratar de merca- dos pequenos. Porém, na visão de D’Elia, acende o sinal de alerta, já que outros leilões estão por vir, principalmente nos portos que são entrada de grandes volumes de combustíveis, como Itaqui, Paranaguá e Suape. “Imagine que este leilão tivesse sido em um desses portos relevantes? Isso poderia criar um desequilíbrio grande no mercado, porque as empresas trariam um volume relevante de produto, já que o local tem tancagem de porte adequado e uma infraestrutura de internalização”, disse.
Consultado, o Cade informou que não manifesta entendimentos sobre casos. As manifestações da autarquia são proferidas apenas por meio de pareceres, notas técnicas e decisões nos autos dos processos. Atualmente, não há nenhum procedimento no Cade envolvendo o caso.

Outras concessões
Em 5 de abril, outro leilão ofertou seis áreas de concessão em portos do Pará. Os vencedores foram a BR Distribuidora, Transpetro, Ipiranga, Tequimar, Consórcio Latitude e Petróleo Sabbá, do grupo Raízen, e Ultracargo. O governo federal vai arrecadar R$ 447,9 milhões com as cinco áreas de concessão no Porto de Miramar e uma no Porto de Vila do Conde.
A BR já operava na área ar- rematada em Miramar, que hoje tem 51.000 m2 e capacidade de movimentação de 47.000 m³ de combustíveis. O contrato será válido por 20 anos, podendo ser renovado até 70 anos.
Dos terminais leiloados, somente a do consórcio Latitude é uma nova área de concessão, assim como a Ultracargo, do grupo Ultra, que venceu a área de Vila do Conde. As demais áreas leiloadas já eram operadas pelas empresas que venceram.

Fonte: Revista Combustíveis & Conveniência, da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes
Edição de Maio/2019