Uma visão das diferenças entre operações logísticas na Europa e no Brasil

Recentemente participei da Missão Internacional de Logística Europa do ILOS, onde tive a experiência de conhecer referências em operações logísticas na Holanda e na Bélgica:

• Operações portuárias: Porto de Rotterdam, APL, Porto tri-modal de Tilburg e Porto de Antuérpia;
• Centros de Distribuição para atendimento do mercado europeu: Ricoh, UPS, DHL, Samsung, Nike Bélgica (Wings), Kuehne&Nagel, Flora Aalsmeer, Jungheinrich;
• Centros de distribuição para transporte aéreo de carga no aeroporto de Schiphol (Amsterdã): KLM e DB Schenker BU; e
• Instituições como: TKI Dinalog e ACN

flora alsmeer - operações logísticas - blog ILOS

Figura 1 – Centro de distribuição da Flora Alsmeer, na Holanda

Fonte: ILOS

As visitas nos permitiram compreender a forma de pensar dos gestores de logística na Europa e as diferenças em relação à forma como nós, brasileiros, atuamos.

Os europeus, e principalmente a Holanda por ser um país que depende de negociações comerciais, utilizam de forma bem orquestrada a multimodalidade da região. As programações das balsas, navios, ferrovias e transporte rodoviário são controladas para que não haja tempo morto e tempos de espera dos modais mais restritivos, o que chamam de “synchro-modality”.

A logística é peça chave para o desempenho da economia holandesa e, por isso, governo, empresas privadas e universidades andam de mãos dados para garantir que esta orquestra esteja toda no mesmo ritmo. Há claramente uma visão de parceria, de troca de conhecimento.

Percebemos que os gestores das empresas visitadas não se sentiam desconfortáveis em responder nossos questionamentos quanto a números e detalhes da operação. Não há aparente preocupação em compartilhar informação com a concorrência. Eles entendem que todos têm a ganhar quando trocam conhecimento.

Na visão do europeu, o governo é o responsável por prover a infraestrutura e a iniciativa privada é a gestora. Os terminais portuários, ferroviários e aquaviários são geridos por empresas privadas e eles entendem que dessa forma conseguem ser mais eficientes. Empresas e associações fazem a ponte entre o governo e as empresas.

A Dinalog, por exemplo, é uma empresa privada, sustentada majoritariamente por recursos públicos para ser o maestro de projetos, com o objetivo de desenvolver a infraestrutura necessária a atender de forma satisfatória a demanda da região. Já a ACN, a associação de empresas holandesas de transporte de carga aérea, desenvolve a indústria através de projetos de tecnologia e educação envolvendo as empresas que operam no aeroporto de Schiphol e parceiros regionais.

Em minha visão, o principal diferencial da operação deles em relação às práticas brasileiras está na informação. Mesmo quando não são utilizados sistemas avançados e automatizados, a informação sobre o processo é registrada e controlada. Relatórios são gerados e os dados são tratados para garantir a melhoria contínua da operação e para que não haja desperdício.

Uma característica da operação de centros de distribuição e de “transit point”s e “cross docking”s que também me chamou atenção, tanto na Holanda quanto na Bélgica, é a ocupação dos armazéns. Eles são construídos para uma demanda futura de médio a longo prazo. Com a ocupação distante da máxima, o manuseio e endereçamento dos produtos são mais fáceis e implicam em menos falhas. Em locais onde o terreno é mais bem posicionado e, consequentemente, mais caro há investimento forte em tecnologia de armazenagem vertical e de endereçamento e picking/sorting de produtos.

Sob a ótica de tecnologia, cito algumas observações que mais me impressionaram:

• Armazém com transelevadores de mais de 40m de altura;
• Operações de picking que utilizam os óculos do Google para reduzir a quantidade de movimentos do operador e índice de erros;
• Controle de estoque de clientes pela Ricoh para agilizar a operação de distribuição;
• Sistema desenvolvido pela Dinalog para composição de carga em veículos ociosos entre empresas holandesas de diversos setores;
• Desenvolvimento de novas tecnologias para redução de custo e de tempo de operação, como a máquina que corta as caixas utilizadas para distribuição dos produtos pela Samsung, etc.

porto roterdã - operações logísticas - blog ILOS

Figura 2 – Porto de Rotterdam, na Holanda

Fonte: Porto de Rotterdam

Porém, a cereja do bolo é a operação portuária de Rotterdam: diversos terminais operados por empresas diferentes de forma sincronizada, inclusive com a operação de outros portos como Tilburg, com alto investimento em tecnologia.

Tivemos a oportunidade de visitar um terminal 100% automatizado. Os operadores estão a quilômetros de distância e monitoram a operação por câmeras apenas para atuação em caso de alguma pane inesperada. A partir do momento em que o navio é atracado e o primeiro contêiner é posicionado, todo o carregamento restante é executado por robôs, incluindo a coleta de contêineres da área de armazenagem e suas alocações dentro do navio por portaineres. Dessa forma, o processo é estável sem variabilidade por tempo ou produtividade, diferencial para a “synchro-modality” que mencionei no início do post.

Sem dúvidas a experiência de conhecer o funcionamento de empresas e operadores europeus foi bastante enriquecedora. Poderia fazer mais alguns posts com minhas observações, comentando sobre a sustentabilidade e como a cultura europeia influencia a operação, por exemplo, mas não conseguiria ainda assim transmitir o sentimento de estar em contato com a realidade do continente pessoalmente.

Quem trabalha com logística e tiver oportunidade, vale muito a pena conhecer ao vivo as operações europeias.

Referências:

Missão Internacional de Logística Europa