Porto de Itapoá - ILOS

Navegando pela crise

Com a piora na economia, empresas revisam gastos e trocam transporte rodoviário por cabotagem

 

No fim de 2014, a multinacional de produtos de nutrição Herbalife deparou-se com uma séria indagação, comum na maior parte das companhias com negócios no Brasil: diante da deterioração da economia, como enxugar custos para manter os investimentos planejados? Entre as alternativas estudadas, a direção da companhia decidiu testar o transporte por navegação de cabotagem para as encomendas destinadas às regiões Norte e Nordeste. A aposta deu certo e, atualmente, 15% dos produtos que saem de São Paulo já são despachados por via marítima. A Herbalife avalia, agora, estender a opção para atender outras regiões.

“A crise econômica foi um dos fatores que nos motivaram a repensar a malha logística”, afirma o diretor de finanças e operações da Herbalife, Ricardo Romano. “Foi um processo de adaptação: estudamos os prós e contras e concluímos que, para nós, seria mais vantajoso.” Trocar o transporte feito por caminhões por embarcações que navegam ao longo da costa brasileira pode representar uma economia de custos de até 30%, de acordo com as empresas que usam o modal. No entanto, mesmo num país no qual 80% dos principais centros se encontram a até 200 quilômetros do litoral, a cabotagem ainda é pouco explorada, representando cerca de 7% do fluxo de cargas.

Desconhecimento, burocracia e falta de infraestrutura nos portos ajudam a explicar porque as empresas ainda priorizaram as rodovias até nos percursos mais distantes. Com a crise, porém, o quadro começa a mudar. As companhias de cabotagem vêm registrando um aumento de clientes que passaram a revisar mais a fundo os custos com logística em meio ao cenário adverso. Na dinamarquesa Mercosul Line, o número de usuários ativos dobrou no ano passado. No primeiro trimestre de 2015, o crescimento é de 10% em relação a igual período de 2014. “As dificuldades da economia fazem o brasileiro ser mais criativo e ficar aberto a novas possibilidades”, diz Luiza Bublitz, diretora comercial da Mercosul Line.

De olho no novo potencial, a Aliança Navegação e Logística investiu R$ 700 milhões na renovação da frota, para poder atender também clientes de médio porte. “No passado, o foco eram as grandes empresas”, diz Julian Thomas, diretor-superintendente da Aliança Navegação e Logística. “Em 2014, com mais capacidade, expandimos o leque de clientes.” Entre os motivos que ajudaram a elevar a competitividade do modal, estão também o avanço nos custos do frete rodoviário, com a nova lei dos caminhoneiros e a alta do óleo diesel. Com essa ajuda, a carioca Log-In conseguiu chegar ao pico de 1.500 clientes, ante os 400 há três anos. A empresa, que está investindo R$ 1 bilhão para ampliar a operação no País, cobra atenção maior por parte do governo em relação ao setor.

“O que precisamos agora é que sejam feitos investimentos nas proximidades de todos os portos, principalmente nas regiões mais carentes em infraestrutura, como o Norte e o Nordeste”, afirma Vital Jorge Lopes, diretor-presidente da Log-In. A onda de mudança dá esperança aos representantes do setor na competição com outros modais. Segundo pesquisa do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) em 2015, para cada contêiner transportado pela cabotagem, ainda existam 6,5 contêineres com potencial para migrar das rodovias para a navegação costeira. “A instabilidade econômica pressionará as empresas em relação à revisão de custo”, afirma Maria Fernanda Hijjar, sócia do Ilos. “Agora, elas terão de avaliar alternativas que antes eram ignoradas.”

Entre os setores que mais utilizam o modal marítimo, atualmente, estão o eletroeletrônico, alimentos e bebidas e material de construção. A tendência de migração, no entanto, alcança setores tão diversos como os de educação. Prova disso é o caso do fabricante de material didático Abramundo, de São Paulo. A companhia, que atende 250 mil alunos espalhados pelo Brasil, decidiu centralizar os quatro pontos de produção em um único local e buscar uma maneira de tornar a logística de longa distância mais eficiente. A solução foi adotar a cabotagem. Com o processo totalmente concluído em 2014, a empresa conseguiu economizar até 30% em logística. “Repassamos o que economizamos em logística para inovação tecnológica”, diz Ricardo Uzal, presidente da Abramundo. “Hoje, se eu pudesse fazer todo o transporte da companhia pela cabotagem, eu faria.”

Fonte: Istoé Dinheiro

Por: Paula Bezerra