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Jogo de obstáculos

Demanda em queda, custos em alta e perspectiva difícil. Essa combinação deverá afetar o setor de transporte de cargas em 2016, o que trará uma série de desafios para toda a cadeia logística. Pressionados pela recessão, transportadores deverão focar no corte de custos e adiamento de renovação de frota. Operadores logísticos, que são mais integrados, devem continuar buscando consolidação das posições.

Na avaliação do sócio do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), Mauricio Lima, a demanda por serviços deve cair 3,3% este ano e se manter em trajetória declinante em 2016, depois de ter subido 7% em 2012, 4% em 2013 e 2,5% no ano passado. No quesito custo, houve um aumento médio de 13%, puxado pelo diesel, que subiu 18%. “O resultado disso é margem negativa para transportadores, aumento relativo do número de autônomos e perda de competitividade do Brasil.”

Sondagem da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) com cerca de 700 transportadores revela um quadro de pessimismo. Neste ano, 54% dos entrevistados disseram que devem ter redução da receita bruta na comparação com 2014. A queda pode girar entre 10% e 30%. A maioria (79,1%) dos transportadores ouvidos teve que demitir em 2015 e 29,3% acham que, no próximo ano, reduzirão sua expectativa de contratação formal.

“O quadro é alarmante, ainda mais que os investimentos públicos devem cair com o aperto fiscal. Neste ano, foram autorizados R$ 15 bilhões em recursos, mas até novembro foram pagos R$ 8,7 bilhões”, frisa o diretor executivo da entidade, Bruno Batista.

Após período de queda, o percentual dos custos logísticos em relação ao PIB voltou a aumentar, segundo pesquisa do Ilos, divulgada em outubro. Em 2014, eles representaram 11,7% do PIB, superando os 11,5% de 2012. Em 2010, tinham atingido 10,6%, mais baixo percentual desde 2004. Nos EUA, o custo está em 8,3% do PIB. Se o Brasil tivesse uma matriz de transportes próxima à dos EUA a economia seria de cerca de R$ 91 bilhões, o que representa 25% do custo de transporte.

Para o coordenador do núcleo de logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende, a situação atual é preocupante. Em suas contas, 40% do custo logístico estão atrelados ao transporte de longa distância, hoje feito principalmente pelas rodovias, por onde circulam cerca de 60% das mercadorias produzidas no país. Retirado da conta o transporte de minério de ferro e aço, as estradas responderiam por 80% da movimentação de cargas. “O Brasil é um país sobre rodas e em estado permanente de alerta sobre a qualidade e os custos”, afirma.

O mercado de venda de caminhões está parado, com uma queda de 45% no licenciamento de desses veículos em relação a 2014. “Em 2015, o mercado deve fechar em torno de 72 mil caminhões licenciados, muito pouco para uma frota de cerca de dois milhões”, diz Lima.

Com uma receita de cerca de R$ 300 milhões, a TA tem adotado desde o fim do ano passado uma postura conservadora de investimentos, para preservar a liquidez. “Renovar a frota só, talvez, em 2017. Ela vai envelhecer, ficará mais cara, mas é um problema administrável”, afirma Celso Luchiari, diretor da empresa, dona de uma frota de 400 veículos com idade média de três anos e meio.

Com receita de cerca de R$ 350 milhões, a JadLog, postergou a expansão internacional, com a abertura de uma filial em Miami, para 2017, tendo em vista a atual conjuntura econômica, que reduziu o volume de transações de remessas de encomendas. Com relação ao atraso de obras de governos estaduais, municipais e da União em relação às rodovias, Ronan Hudson, diretor comercial da JadLog, pondera que a empresa movimenta mais intensamente cargas em rodovias pedagiadas, onde não se sentem esses efeitos. “Nos demais trechos, sofremos os impactos da má conservação, que se refletem na manutenção de nossa frota.”

Em alguns elos da cadeia, como nos operadores logísticos, consolidação tem sido uma palavra recorrente, tendência que deve continuar nos próximos anos, aponta Lima, do Ilos. No fim da década passada, ao planejar seu crescimento, a Femsa Logística, maior empresa mexicana do setor, destacou o Brasil como um de seus mercados prioritários. A empresa, que até então era distribuidora de produtos Coca­Cola em algumas cidades e tinha uma presença limitada no país, traçou uma estratégia orientada via aquisições, primeiro de uma empresa com destaque nas regiões Sul e Sudeste, depois com uma transportadora de alcance nacional.

Em 2013, foi acertada a compra da Expresso Jundiaí. Em 24 meses, foram abertas nove filiais e comprados 200 veículos, ampliando seu leque de operações e incorporando cargas fracionadas, serviços de maior valor agregado e armazenamento de produtos, com foco nas regiões Sul e Sudeste. Recentemente, a segunda aquisição foi concretizada: a empresa comprou as operações da Atlas, ampliando seu alcance para todo o Brasil. “Queremos ser um operador logístico integral e um player relevante na cadeia”, afirmou José Manoel, presidente da Femsa Logística no Brasil.

Indústria e agronegócio têm buscado driblar a alta de custos de diferentes maneiras. Na Avon, uma das receitas para ser mais eficiente é a otimização de espaços, com a melhor ocupação dos caminhões. Algumas embalagens foram redesenhadas, para que se consiga colocar mais caixas em um veículo, o que reduz a quantidade total de viagens.

No momento, a empresa, que atualiza a cada dois anos sua malha logística, está concluindo novos estudos. A intenção é de que sejam criadas ações que reduzam a emissão de poluentes globais e que haja incentivos para aumentar a frota de veículos bicombustíveis. A empresa está também ampliando a eficiência de sua distribuição. Em 2011, inaugurou, em Cabreúva (SP), seu maior centro de distribuição em operação no mundo, com capacidade para processar sete mil caixas por hora. Ele permite a entrega de produtos em São Paulo e Rio de Janeiro em até 48 horas.

A Avon busca elevar sua eficiência e pretende chegar a processar oito mil caixas por hora em Cabreúva, o que reduziria custos e aumentaria a agilidade da operação, diz a vice­presidente de supply chain da empresa, Andréa Bueno. Outra saída foi obter ganhos com mão de obra, um dos principais custos operacionais da área de logística. Em Cabreúva, após um acordo com o sindicato local, foram acertados novos turnos de trabalho, sem a necessidade de desligamento de funcionários. “Isso trouxe uma economia de R$ 8 milhões”, afirma.

Fonte: Valor Econômico

Por: Roberto Rockmann