Governo estuda preços diferentes de frete para safra e entressafra

Custo de indefinição da tabela vai recair sobre população, empresas e União

– A indefinição no preço do frete para o transporte rodoviário de cargas – que continua travado no país – ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira. O governo adiou mais uma vez a divulgação da terceira versão da tabela para a semana que vem, enquanto o ministro dos Transportes, Valter Casimiro, sinalizou que poderá haver preços diferentes para períodos de safra e entressafra. Apesar da indefinição no valor do frete, já é certo que o aumento do custo será rateado entre a população, o setor produtivo e o próprio governo, avaliam especialistas. É que ele significará alta de preços para o consumidor ou corte em rentabilidade para produtores e empresas. A consequência, dizem os consultores, virá em corte de investimentos, menos empregos e queda na atividade econômica, encolhendo a arrecadação pública.

— É um tremendo gol contra. O tabelamento será inócuo, se ficar abaixo do preço de equilíbrio de mercado. Ou, se ficar acima, vai gerar excesso de oferta e contração de demanda. Vai trazer um choque de custo, de cara. É que, apesar de a economia estar pouco aquecida, há forte demanda por frete por causa da greve. Está claro que a negociação focou em elevar o preço do frete. Mas esse custo terá de ser repassado. O consumidor vai pagar uma parte. O restante virá em retração da economia, corte de investimentos e de empregos — avaliou Gesner Oliveira, sócio da GO Associados.

O ministro afirmou que, apesar das críticas ao tabelamento do frete, o governo vai insistir na proposta. Nessa linha, integrantes do agronegócio defendem um piso para a entressafra. Já na safra, quando o custo do frete sobe, as partes teriam liberdade para negociar os valores.

Ele explicou que a tabela anunciada na quinta-feira e que perdeu a validade horas depois havia sido apresentada antes a lideranças dos caminhoneiros e a representantes do setor do agronegócio. Em média, reduzia o custo do frete em 20% sobre a tabela anterior, de 30 de maio.

— Os caminhoneiros reclamaram, porque o custo do frete ficou abaixo do praticado no mercado atualmente. Já o setor do agronegócio concordou. Estamos na safra, e o frete está mais caro. Uma das alternativas seria fixar preços diferenciados para períodos de safra e entressafra — disse Casimiro.

A previsão, destacou ele, é que, até o início da próxima semana, caminhoneiros e produtores cheguem a um acordo sobre a nova tabela. As negociações vão continuar neste fim de semana, conduzidas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

A presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputada Tereza Cristina (DEM-MS), disse que, depois da revogação da tabela, as negociações se intensificaram:

– Se não houver acordo, a medida provisória 832 (que institui uma política de preços mínimos para o frete) vai fracassar – disse a deputada, informando que grandes grupos que contratam fretes, como a BRF, se reunirão na segunda-feira, em São Paulo, para se posicionarem sobre o assunto.

Em suspenso. Caminhões em rodovia do Rio: transporte de carga segue travado por indefinição no preço do frete.

Pablo Jacob/30-05-2018

ENTIDADES RECORREM AO STF

A MP já recebeu 55 emendas e enfrenta forte resistência da bancada ruralista. Entidades representativas do setor produtivo estão se movimentando para derrubar a medida. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou nesta sexta que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o tabelamento do frete, alegando que a medida trará prejuízos para a economia e para a população. A Associação do Transporte Rodoviário de Cargas do Brasil (ATR) também decidiu recorrer ao STF.

Especialistas destacam que a tendência, com a menor eficiência no setor de carga rodoviária, é a de verticalização dos serviços:

— O custo do transporte rodoviário é de R$ 380 bilhões por ano. Com a tabela, pode subir em R$ 80 bilhões. Essa conta vai mudar as relações de trabalho. O autônomo vai sumir. E se a economia der um passo para trás, o transporte rodoviário também vai cair. As transportadoras serão afetadas com desemprego ou menor demanda — ponderou Maurício Lima, sócio-diretor do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS).

Para Fábio Silveira, sócio-diretor da Macro Sector, faltou atenção do governo aos entraves em um setor relevante para a economia:

— Parece haver uma falta de percepção por parte do governo, e talvez da própria Petrobras, que não deram atenção ao encarecimento do (preço do) diesel, que afeta toda a cadeia produtiva do país. A freada brusca que isso causou vai ter um preço, que é a queda da atividade no país. Vamos crescer 1,5% este ano.

José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro, diz que a conta será dupla:

— Uma vem do aumento do déficit público pelo subsídio ao diesel; a outra, da tabela de preço do frete. Em alguns setores, vamos perder rentabilidade e competitividade. Em outros setores, como carnes e leite, a alta de preço é certa.

 

por Geralda Doca e Glauce Cavalcanti

O Globo