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Desvendando o blockchain – Parte 1: O que o blockchain resolve?

Em um post anterior, a Fernanda falou sobre como empresas como Walmart, Maersk e BHP Billiton já estão utilizando o blockchain em suas cadeias de suprimento, e sobre como gigantes de tecnologia como a IBM e a Microsoft, bem como outras muitas startups estão se movendo para montar seus próprios sistemas. De fato, todo dia me deparo com uma nova notícia sobre essa tecnologia, seja no âmbito do supply chain ou não. Tenho certeza que você também.

As notícias costumam transmitir a mensagem de que o blockchain tem o potencial para resolver muitos dos nossos problemas atuais: maior visibilidade e confiança nas cadeias de suprimento, transparência nas votações, computação em nuvem descentralizada, confiabilidade em questões de apropriação de bens, autenticação de documentos, maior transparência no governo, melhor usabilidade de dispositivos IoT (Internet of Things), fim dos bancos como conhecemos hoje…

Ok, o blockchain tem o potencial de mudar as nossas vidas para melhor. Mas o que é essa tecnologia, e como funciona na prática? De onde surgiu essa ideia, e por que ela é tão revolucionária? Quem é o dono? A tecnologia não tem pontos de falha? Esses são alguns dos questionamentos que nos vêm à cabeça, e, quando vamos procurar respostas, acabamos nos deparando com mais termos desconhecidos ou com definições complexas, pelo menos do ponto de vista de quem não é especialista no assunto.

Figura 1 – Termos com os quais você se depara quando tenta entender o blockchain
Fonte: ILOS

 

Os termos podem acabar intimidando. Isso certamente aconteceu comigo, mas a maneira mais simples que encontrei de entender o que é o blockchain foi começar entendendo qual é o problema que essa tecnologia soluciona.

Hoje, através da internet, conseguimos nos comunicar de forma direta com quem desejamos, sem a necessidade de um intermediário, certo? Se hoje eu estou aqui no Rio de Janeiro, mas você está em São Paulo, e me pede para lhe enviar uma apresentação Powerpoint, por exemplo, eu simplesmente vou abrir o meu e-mail, e te enviar uma cópia do arquivo em anexo. Mas e se você me pedisse dinheiro, como R$100, por exemplo? Hoje, não consigo transferir esse dinheiro para você de forma direta. Para fazer isso, preciso recorrer à um banco, que atua como uma entidade intermediária de confiança. Por confiança, quero dizer que nós (eu, você e o resto da sociedade) acreditamos que o banco vai garantir que os R$100 sairão da minha conta e entrarão na sua.

Porém, o dinheiro não sai fisicamente de uma conta e vai para outra, certo? A transferência de valor ocorre através da atualização de registros oficiais de informação: o registro de que saíram R$100 da minha conta, e o registro de que que entraram R$100 na sua conta, que vieram de mim. Para que isso pudesse ser feito de forma direta, de mim para você, sem intermédio de um terceiro, precisaríamos estabelecer esse mesmo tipo de confiança que hoje temos nos bancos. O grande problema das transações digitais é garantir o “caráter” das movimentações. Pense naquele arquivo Powerpoint que te enviei. Posso ter feito 1.000 cópias dele e ter mandado para outras 1.000 pessoas além de você. Agora pense nos R$100. Seria um grande problema se eu pudesse gastar esse dinheiro infinitas vezes.

Esse problema é conhecido como o “problema do duplo-gasto” (no inglês, double spending), e é um grande problema que permaneceu sem solução por algum tempo, mas que foi resolvido pelo blockchain. O blockchain surgiu como a tecnologia por trás da transação de bitcoins (moeda digital descentralizada apresentada em 2008), e seu funcionamento envolve elementos de ciência da computação e criptografia, bem como conceitos de teoria dos jogos. Uma analogia comum é que bitcoins estão para o blockchain da mesma forma que o e-mail está para a internet. De forma simplificada, o blockchain torna factível transações digitais.

Se os bancos são instituições centralizadas que controlam esse “jogo de confiança”, pois depositamos nossa fé neles, o blockchain descentraliza esse controle, e funciona com o conceito de consenso. “Descentralizado” significa que todos possuem uma cópia da mesma base de dados. E o “consenso” significa que se de alguma forma eu tentar fraudar (alterar) os dados, eles não serão compatíveis (não irão sincronizar) com os dados de todas as outras pessoas participantes da rede e, portanto, a tentativa de fraude fracassará. Daí a possibilidade de aplicação do blockchain em todos aqueles exemplos citados no começo desse post, pois a tecnologia se propõe a resolver o problema básico de “confiança”.

Mas você pode estar se perguntando: e se a maior parte das pessoas se unir para alterar os dados? Nessa situação, haverá consenso sobre a fraude, e, havendo consenso, a fraude poderá ocorrer, não? Bom, esse assunto, mais sobre o funcionamento do blockchain, e mais detalhes sobre como o supply chain management poderá ser afetado, ficam para próximos posts. Por enquanto, vamos terminar com uma definição: “pode-se entender o blockchain como uma grande base de dados (um livro de contabilidade) que guarda registros permanentes de todas as transações digitais (seja de dinheiro ou de qualquer outro ativo). Porém, ao invés de ser controlada por uma entidade central (como um banco), ela funciona através de uma rede descentralizada de cópias dessas informações, validadas por consenso”.

Se você se interessar pelo assunto, e quiser outras explicações, recomendo o post de Nik Custodio: Explain Bitcoin Like I’m Five e o artigo de Daniel Jeffries: Why Everyone Missed the Most Important Invention in the Last 500 Years.

 

Referências:

ComputerWorld – Tudo o que você queria saber sobre blockchain e tinha receio de perguntar. <http://computerworld.com.br/tudo-o-que-voce-queria-saber-sobre-blockchain-e-tinha-receio-de-perguntar>

Nik Custodio – Explain Bitcoin Like I’m Five. <https://medium.com/@nik5ter/explain-bitcoin-like-im-five-73b4257ac833>

Daniel Jeffries – Why Everyone Missed the Most Important Invention in the Last 500 Years. <https://hackernoon.com/why-everyone-missed-the-most-important-invention-in-the-last-500-years-c90b0151c169>