As dificuldades da logística de produtos hospitalares

O setor farmacêutico é bastante regulado no Brasil. A ANVISA exige registro e licença para produtos e também processos produtivos, como tamanho de lote de produção, importações etc, que demoram mais de 1 ano para serem obtidos e precisam ser renovados periodicamente. O que é muito bom sob a ótica do consumidor, pois a agência realiza os controles ao seu alcance para garantir o menor risco de produtos fora de especificação. Por outro lado, muita regulação aumenta a necessidade de controle operacional e custos para a indústria, sendo uma barreira a novos entrantes.

O setor também sofre com a alta tributação em torno de 31%, frente à média mundial de 6,3%, e com a legislação brasileira atual que determina que os medicamentos só podem sofrer reajustes uma vez ao ano.

Dados os custos implícitos às características citadas, as indústrias fabricantes de produtos hospitalares precisam ser eficientes no transporte e na gestão de estoques para serem competitivas, fazendo com que a gestão Logística seja complexa. Ademais, há forte exigência de nível de serviço pelos principais clientes do setor: os hospitais. No Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) do Ministério da Saúde, em agosto deste ano, havia 6.806 hospitais no Brasil (especializados, gerais e hospitais dia), sendo 35% na Região Sudeste.

Um dos produtos mais comprados pelos hospitais são as soluções parenterais (as conhecidas “bolsas de soro”), produto volumoso e de baixo valor agregado. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Soluções Parenterais (ABRASP), em 2016, foram vendidas pelas empresas associadas (em torno de 15 fabricantes) mais de 1,1 bilhões de soluções parenterais, que podem conter apenas água para injeção ou outras soluções como cloreto de sódio, glicose, glicerina etc.

Os hospitais necessitam de “bolsas de soro” em alta quantidade, mas possuem área de estoque extremamente reduzida, pois todo espaço disponível nos hospitais é revertido prioritariamente para sua atividade fim, que são os leitos. Dessa forma, os fabricantes desse tipo de produto e afins necessitam ter um nível de estoque com alto grau de segurança, pois seus produtos são de caráter emergencial para seus clientes e possuem pouca diferenciação. Se houver ruptura de estoque, o concorrente ganha espaço. De acordo com o levantamento realizado pelo ILOS com grandes empresas do setor de Saúde, a cobertura de estoque das indústrias do setor de saúde, fabricantes de produtos correlatos (não medicamentos) está em média em 39 dias, chegando a 180 dias em alguns casos.

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Figura 1 – Cobertura de estoque média nos fabricantes de produtos correlatos (não medicamentos)

Fonte: Panorama ILOS – Supply Chain do Setor de Saúde 2017

A exigência de serviço desses clientes é alta, com pedidos pequenos e curto prazo de entrega, o que faz com que os fabricantes também possuam uma complexidade na gestão do transporte. Dessa forma, é comum no setor observarmos a atuação de distribuidores, que formam um mix de produtos maior e se posicionam mais próximos no mercado consumidor. Eles são mais evidentes para produtos de menor dimensão, mais difíceis de compor carga em um caminhão.

Quando não há atuação de distribuidores, a alternativa mais vantajosa para a indústria em custo e capilaridade é o transporte através de transportadoras de grande abrangência nacional, pois possuem pontos de cross-docking e centros de distribuição avançados que permitem a consolidação dos pedidos em veículos maiores. Porém, para garantir alta disponibilidade do produto, o fabricante ainda fica refém de pontos avançados de estoque, próprios ou nas instalações das transportadoras.

A alta regulação do setor de saúde e as restrições de espaço para estoque nos hospitais fazem com que a melhor saída para as empresas que atuam neste segmento seja investir em uma boa gestão e controle de seus processos e logística, com o apoio de tecnologia. Além disso, é fundamental estar sempre próximo dos clientes, entendendo suas reais necessidades, e adaptando a operação para que não haja perda de vendas e nem custos desnecessários.

Referências:

Panorama ILOS – Supply Chain do Setor de Saúde 2017
Abrasp
Datasus
Volta a valer lei que permite apenas um reajuste por ano no preço de remédios
Setor de equipamentos crescerá com rastreabilidade de remédios
Ainda a carga tributária